As Casas Bahia apresentaram sinais claros de virada operacional no terceiro trimestre de 2025, marcando a continuidade de seu processo de reestruturação. O resultado confirma um movimento de transformação que integra mudanças estratégicas na gestão, reforço no digital, eficiência logística e ampliação da margem operacional.
Em 2025, a empresa alcançou o oitavo trimestre consecutivo de crescimento na margem EBITDA, evidenciando que o esforço de reorganização está gerando efeitos consistentes na operação. O desempenho reforça uma mudança estrutural que reduz custos, expande vendas em múltiplos canais e melhora a qualidade do crédito concedido.
Omnichannel e Mercado Livre elevam o alcance das vendas
A estratégia multicanal continua sendo um dos pilares da recuperação. A rede registrou aumento no GMV (volume bruto de vendas) tanto em lojas físicas quanto no e-commerce — englobando site, aplicativo e marketplace.
A entrada no ecossistema do Mercado Livre acelerou a presença da varejista no digital, ampliando a oferta de eletrodomésticos e linha branca em uma plataforma com alto fluxo de consumidores. A projeção interna é que essa parceria intensifique o desempenho no quarto trimestre — período que concentra Black Friday e Natal.
Crediário segue como vantagem competitiva e reduz risco
O crediário permanece como um dos diferenciais mais fortes da empresa. Ao contrário da escalada de inadimplência observada no cartão de crédito e no cheque especial no país, a carteira própria da varejista segue com inadimplência controlada e queda gradual.
Esse desempenho ocorre devido a um modelo robusto de análise de crédito, que seleciona melhor o perfil de consumidores que utilizam o parcelamento direto com a varejista. A estabilidade do PDD (provisão para devedores duvidosos) confirma que a expansão do crédito está sendo feita de forma conservadora e sustentável.
Marketing eficiente e logística integrada elevam a rentabilidade
As iniciativas digitais também se estendem ao marketing. O retorno sobre gastos com anúncios cresce de forma constante, e a plataforma logística da companhia amplia a integração entre lojas físicas e online, reduzindo custos de entrega e melhorando prazos para o consumidor.
O modelo de fulfillment e a capilaridade nacional fortalecem a proposta omnichannel: a loja física atua como ponto de venda, estoque distribuído e centro de retirada, acelerando a experiência de compra.
Estrutura de capital ainda pressiona o lucro, mas tendência é de melhora
O desafio atual está ligado à estrutura financeira herdada antes da reestruturação. Mesmo com forte geração de caixa na operação, o impacto das despesas financeiras ainda leva o resultado líquido para terreno negativo.
Para acelerar a desalavancagem, a companhia:
Converteu dívidas em ações, reduzindo pagamentos e preservando caixa.
Reperfilou vencimentos relevantes, empurrando amortizações para um momento futuro mais favorável.
Mantém a dívida líquida em relação ao EBITDA em patamares controlados, com espaço para redução adicional conforme o ciclo de juros se normalize no país.
Com a taxa Selic ainda elevada, o custo financeiro impacta empresas de margens naturalmente estreitas, como varejo. A perspectiva é que, com juros menores, a estrutura de capital se torne menos pesada — e a operação saudável passe a refletir diretamente no lucro líquido.
Receita cresce e EBITDA dispara
Comparando os nove primeiros meses de 2025 com o mesmo período de 2024, a Casas Bahia registrou:
Alta de 7,8% na receita líquida
Crescimento superior a 20% no EBITDA
Redução consistente em despesas administrativas e comerciais
Melhoria relevante da geração de caixa
O comportamento sazonal continua presente: os picos são maiores no quarto trimestre. A diferença é que agora os trimestres intermediários estão evoluindo ano após ano, configurando uma curva crescente e saudável.
O que falta para a virada completa?
Para que o lucro líquido acompanhe a melhora operacional, três fatores são determinantes:
Reduzir o custo financeiro atrelado à Selic
Concluir a desalavancagem e reorganização de dívidas antigas
Ampliar os ganhos da integração com o Mercado Livre
Com a operação já madura e gerando resultados sólidos, o fator que falta para transformar prejuízo em lucro é a redução do peso financeiro — algo que tende a ocorrer conforme o ciclo econômico evolua.
Visão final: o varejista mais maduro dentre as reestruturações
O caso das Casas Bahia se destaca no mercado por uma característica rara: a operação melhora rapidamente, enquanto o resultado financeiro demora a capturar essa evolução. A empresa de hoje é mais eficiente, digitalizada, menos dependente de lojas físicas e com um crediário mais seguro do que nos últimos anos.
Com preço de ação ainda próximo das mínimas históricas e indicadores operacionais crescentes, a varejista entra em 2026 com um cenário de assimetria clara: uma estrutura mais leve prestes a encontrar um ambiente macroeconômico mais favorável.
A reestruturação operacional já aconteceu. Agora, o próximo passo é colher financeiramente o resultado que a operação já demonstra.
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