O Bradesco encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões, crescimento de aproximadamente 16% em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar da evolução dos resultados, as ações preferenciais do banco, negociadas sob o código BBDC4, continuam distantes das máximas recentes.
Em 26 de agosto, BBDC4 era negociada na faixa de R$ 17, enquanto a máxima das últimas 52 semanas estava próxima de R$ 22,12. A diferença representa uma queda de cerca de 23% em relação ao maior preço do período, embora não corresponda a uma perda superior a 20% desde o início do ano.

O desempenho cria uma aparente contradição: os indicadores operacionais mostram recuperação da rentabilidade e expansão das receitas, mas o mercado ainda cobra um desconto relevante para negociar as ações do banco.
Resultado do Bradesco mostra avanço da rentabilidade
O retorno recorrente sobre o patrimônio líquido médio, conhecido como ROAE, alcançou aproximadamente 16% no segundo trimestre. O indicador avançou cerca de 1,6 ponto percentual em comparação com o mesmo período de 2025.
O ROAE mede quanto o banco consegue gerar de lucro a partir do patrimônio dos acionistas. Quanto maior o percentual, mais eficiente tende a ser a utilização do capital embora seja necessário considerar riscos, qualidade do crédito e sustentabilidade dos resultados.
As receitas do Bradesco também avançaram. Segundo os dados apresentados pelo banco, o crescimento foi de aproximadamente 10,3% na comparação anual.
| Indicador do Bradesco | Resultado no 2º trimestre |
| Lucro líquido recorrente | R$ 7,1 bilhões |
| Crescimento anual do lucro | 16% |
| ROAE recorrente | 16% |
| Avanço anual do ROAE | 1,6 ponto percentual |
| Crescimento das receitas | 10,3% |
| Carteira de crédito expandida | Cerca de R$ 1,13 trilhão |
| Crescimento anual da carteira | 11,6% |
| Índice de cobertura | Aproximadamente 152% |
Os números reforçam a recuperação operacional iniciada após os problemas enfrentados pelo banco entre 2022 e 2023, período marcado por aumento da inadimplência, maiores despesas com provisões e queda da rentabilidade.
Carteira de crédito supera R$ 1 trilhão
A carteira de crédito expandida do Bradesco chegou a aproximadamente R$ 1,13 trilhão, alta de 11,6% sobre o segundo trimestre de 2025.
As operações destinadas a pessoas físicas representam perto de 45% do total. O restante está distribuído entre grandes empresas, pequenas e médias companhias e outros segmentos.
O crescimento da carteira contribui para ampliar as receitas financeiras, mas também exige acompanhamento das provisões para perdas. Uma expansão acelerada do crédito pode elevar a inadimplência futura caso a concessão seja feita sem critérios adequados.
No Bradesco, os créditos vencidos há mais de 90 dias permanecem na faixa de 4%. O percentual é influenciado pela exposição relevante a pessoas físicas, segmento que normalmente apresenta risco superior ao crédito concedido a grandes companhias.
O banco informou ainda que vem aumentando a participação de operações protegidas por garantias. Essa estratégia ajuda a limitar possíveis perdas, mas não elimina os riscos decorrentes da desaceleração econômica, do desemprego ou da permanência dos juros em níveis elevados.
Bradesco Seguros continua relevante para o resultado
A divisão de seguros permanece como uma das principais fontes de lucro do grupo. No primeiro semestre de 2026, a Bradesco Seguros registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 5,7 bilhões, crescimento próximo de 20% na comparação anual.
O desempenho do braço de seguros reduz a dependência das receitas bancárias tradicionais e oferece maior diversificação ao conglomerado. A empresa atua nos segmentos de saúde, vida, previdência, capitalização e seguros patrimoniais.
Uma projeção baseada na manutenção do ritmo apresentado no primeiro semestre colocaria o lucro anual da divisão entre R$ 11 bilhões e R$ 12 bilhões. Esse cálculo, entretanto, é apenas uma estimativa e pode mudar conforme a sinistralidade, o resultado financeiro e o desempenho comercial no restante do ano.
Também não é adequado avaliar o banco e a seguradora como negócios completamente independentes. As duas operações compartilham clientes, canais de distribuição e infraestrutura, criando um ecossistema integrado.
BBDC4 está barata?
A avaliação apresentada no material de referência considera que o Bradesco pode alcançar lucro próximo de R$ 28 bilhões em 2026. Para 2027, a estimativa mencionada sobe para R$ 31,5 bilhões.
Esses números são projeções e não correspondem a resultados garantidos ou a uma promessa oficial do banco.
Com base nessas premissas, os múltiplos projetados seriam:
| Indicador estimado | 2026 | 2027 |
| Lucro líquido projetado | R$ 28 bilhões | R$ 31,5 bilhões |
| Preço sobre lucro estimado | 5,5 vezes | 4,9 vezes |
| Preço sobre valor patrimonial | 0,81 vez | 0,74 vez |
| Dividend yield hipotético* | Cerca de 9% | Cerca de 10% |
*Simulação que considera distribuição equivalente a 50% do lucro e manutenção das cotações utilizadas na análise. Não representa dividendo anunciado pelo Bradesco.
Um preço sobre valor patrimonial inferior a uma vez significa que a companhia está sendo negociada abaixo de seu patrimônio líquido contábil. Isso pode indicar desconto, mas também pode refletir preocupações do mercado com rentabilidade futura, risco de crédito ou custo de capital.
O múltiplo baixo, portanto, não significa automaticamente que a ação esteja barata. A reprecificação dependerá da capacidade do Bradesco de manter o crescimento dos lucros e controlar as perdas com empréstimos.
Meta de ROAE de 18% exigirá mais crescimento
A administração do Bradesco trabalha para elevar a rentabilidade aos níveis dos principais bancos privados do país. Uma das referências mencionadas pelo presidente Marcelo Noronha é a possibilidade de alcançar ROAE próximo de 18% nos próximos anos.
O prazo para atingir esse patamar ainda é incerto. Uma simulação presente no material de referência estima que o banco precisaria gerar lucro ao redor de R$ 41 bilhões em 2028 ou de R$ 45 bilhões em 2029.
Trata-se de um exercício hipotético, dependente de fatores como:
- crescimento da carteira de crédito;
- evolução das margens financeiras;
- controle da inadimplência;
- redução das provisões;
- desempenho da divisão de seguros;
- trajetória da Selic;
- expansão ou redução das despesas operacionais.
A hipótese de valorização superior a 100%, mencionada na análise original, também depende de o mercado voltar a negociar o banco a aproximadamente 1,5 vez o valor patrimonial. Não existe garantia de que essa reprecificação ocorrerá.
Dividendos podem aumentar, mas dependem do lucro
O Bradesco possui histórico de pagamento de juros sobre capital próprio e dividendos. As ações preferenciais BBDC4 têm direito a dividendos 10% maiores do que os atribuídos às ações ordinárias BBDC3, conforme as regras societárias do banco.
A análise estima dividend yield entre 8,5% e 10% nos próximos anos, considerando crescimento do lucro e distribuição de aproximadamente metade do resultado. Esse percentual não representa provento oficialmente anunciado.
O retorno efetivo dependerá do lucro apurado, do payout aprovado, do preço de compra das ações e das decisões do conselho de administração.
Além disso, juros sobre capital próprio estão sujeitos ao Imposto de Renda retido na fonte, enquanto dividendos podem ter tratamento tributário diferente conforme a legislação vigente na data do pagamento.
O que pode impedir a valorização de BBDC4
Mesmo com a recuperação dos resultados, o investimento nas ações do Bradesco envolve riscos relevantes. Entre os principais estão:
- nova piora da inadimplência;
- aumento das provisões para perdas de crédito;
- desaceleração da economia;
- margens menores;
- competição com bancos digitais;
- custos elevados de transformação tecnológica;
- resultados abaixo das projeções;
- permanência de juros elevados;
- saída de investidores estrangeiros da Bolsa.
A liquidez elevada de BBDC4 também torna o papel sensível aos fluxos internacionais. Quando investidores estrangeiros retiram recursos da B3, ações de grandes bancos, Petrobras e Vale costumam sofrer pressão adicional, mesmo sem uma mudança imediata nos fundamentos das empresas.
A evolução dos próximos balanços será decisiva para mostrar se o Bradesco consegue sustentar um ROAE próximo de 16% e avançar em direção à meta de 18%. Até lá, os múltiplos reduzidos representam tanto uma possibilidade de reprecificação quanto o prêmio exigido pelo mercado diante dos riscos.
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