O Banco do Brasil atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Após um ciclo excepcional de resultados entre 2022 e 2024, o banco sofreu uma reversão abrupta de desempenho. O lucro anual projetado para 2026 ficou próximo da metade do que o mercado esperava no início do ciclo, refletindo uma deterioração rápida da qualidade da carteira de crédito.
A queda acumulada no lucro já supera 50%, enquanto o retorno sobre o patrimônio líquido, que chegou a operar acima de 20% em anos recentes, recuou para a faixa de um dígito. A rentabilidade do banco voltou a níveis considerados baixos para o setor financeiro.
Inadimplência cresce e força provisões elevadas
O principal fator por trás da piora dos resultados é o avanço da inadimplência, especialmente no crédito rural. O Banco do Brasil possui uma das maiores exposições ao agronegócio do país, com uma carteira próxima de R$ 400 bilhões, o que equivale a cerca de um terço de todo o crédito concedido pela instituição.
A inadimplência acima de 90 dias avançou de forma consistente ao longo dos últimos trimestres, atingindo patamares próximos de 5%, enquanto o índice de cobertura caiu. Esse movimento obriga o banco a reforçar provisões para devedores duvidosos, elevando significativamente o custo do crédito e comprimindo o lucro operacional.
Custo de crédito dispara e corrói resultados
O custo do crédito teve crescimento expressivo, refletindo diretamente o aumento das provisões. Esse item passou a ser um dos maiores pesos negativos no balanço, reduzindo tanto o lucro operacional quanto o lucro líquido.
Esse cenário explica por que o banco, que anteriormente entregava lucros trimestrais na casa de R$ 8 a R$ 9 bilhões, passou a registrar resultados bem mais modestos, alterando completamente a percepção de previsibilidade que o papel carregava até pouco tempo atrás.
Indicadores financeiros: antes e depois do choque
| Indicador | Ciclo forte | Situação atual |
|---|---|---|
| Lucro anual | R$ 35–38 bilhões | ~R$ 18 bilhões |
| ROE | 20%–21% | ~8%–11% |
| Inadimplência >90 dias | ~3% | ~5% |
| Dividend Yield | ~11% | ~6% |
| P/L projetado | ~3,6x | ~7,0x |
A tabela deixa claro que, apesar da queda moderada na cotação, a deterioração dos fundamentos foi muito mais intensa.
Dividendos deixam de ser atrativo no curto prazo
Com o lucro pressionado e necessidade de preservar capital, a distribuição de dividendos perdeu força. A expectativa de proventos caiu mais de 60% em relação ao que o mercado projetava no início do ciclo, reduzindo o dividend yield para níveis pouco competitivos frente a outras ações e até mesmo frente à renda fixa.
Para o investidor focado em renda, BBAS3 deixou de ser uma opção atrativa no curto prazo, exigindo uma mudança clara de perfil para quem permanece posicionado.
Por que a ação não caiu mais?
Mesmo com o tombo nos resultados, a ação não despencou na mesma proporção. Parte disso se explica pelo bom desempenho geral da bolsa no período, que ajudou a sustentar preços mesmo de empresas com fundamentos enfraquecidos.
Outro fator relevante é a percepção de que o banco atravessa um problema cíclico, e não estrutural. Isso faz com que parte do mercado aceite conviver com resultados fracos no curto prazo em troca de uma possível normalização futura.
2026 ainda será difícil, mas o mercado olha além
As projeções indicam que 2026 continuará sendo um ano fraco, com lucro ainda pressionado e rentabilidade abaixo da média histórica. A melhora mais consistente só começa a aparecer nas estimativas a partir de 2027, com expectativa de redução gradual da inadimplência e normalização do custo do crédito.
Caso o banco volte a operar com lucros próximos de R$ 30 bilhões nos anos seguintes, o múltiplo preço/lucro cairia rapidamente, abrindo espaço para reprecificação da ação no médio prazo.
Vale a pena ter BBAS3 agora?
BBAS3 deixou de ser uma ação de dividendos no curto prazo e passou a ser um ativo de tese cíclica. O investidor precisa estar disposto a atravessar um período prolongado de resultados fracos, com volatilidade e frustração, apostando em uma recuperação que só deve se materializar mais adiante.
Para quem busca previsibilidade e renda imediata, o papel perde atratividade. Para quem aceita risco e pensa em ciclos longos, BBAS3 pode voltar a chamar atenção caso os preços entrem em patamares mais descontados e o cenário de crédito comece a dar sinais claros de melhora.
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