A ação Banco do Brasil (BBAS3) atravessa 2026 ainda carregando os efeitos de um dos ciclos mais difíceis da última década. Depois de um período de forte crescimento até 2023, o banco entrou em 2025 com deterioração relevante da carteira de crédito, principalmente no agronegócio, o que comprometeu lucro, rentabilidade e previsibilidade.
O mercado, que costuma antecipar movimentos, segue cauteloso. A expectativa por um “trimestre da virada” existe, mas ainda não se materializou de forma clara nos resultados.
Resultados recentes mostram queda de lucro e rentabilidade
Os números mais recentes indicam um banco menos rentável do que em ciclos anteriores, ainda em fase de ajuste operacional e financeiro.
| Indicador | Situação atual |
|---|---|
| Preço da ação | Faixa de R$ 21 a R$ 22 |
| Lucro líquido anualizado | Em queda relevante |
| ROE (retorno sobre patrimônio) | Abaixo de 10% |
| P/L | Próximo de 9 a 10 |
| P/VP | Cerca de 0,68 |
| Dividend yield | Entre 5% e 6% |
| Crescimento da carteira | Mais conservador |
O dado que mais chama atenção é o ROE abaixo de dois dígitos, nível incomum para grandes bancos brasileiros. Essa queda está diretamente ligada ao aumento das provisões para perdas de crédito e à postura mais defensiva adotada pela administração.
Lucro pressionado reflete ajuste no crédito
O enfraquecimento do lucro não está ligado a perda estrutural do modelo de negócios, mas sim ao reconhecimento de riscos acumulados em ciclos anteriores. O banco passou a reforçar provisões, revisar critérios de concessão e desacelerar o crescimento da carteira.
Esse movimento reduz resultados no curto prazo, mas tende a fortalecer a qualidade do balanço ao longo do tempo. É um processo típico de ciclos de crédito mais adversos, especialmente em instituições com grande exposição ao agronegócio.
ROE fraco não significa retorno ruim ao investidor
Um erro comum é confundir o ROE atual da empresa com o retorno potencial do investidor. O retorno do acionista depende de três fatores combinados:
lucro futuro;
crescimento ao longo do tempo;
preço pago na ação.
Com o P/VP abaixo de 0,7, o mercado já embute um cenário conservador para o Banco do Brasil. Em momentos assim, mesmo uma recuperação parcial da rentabilidade pode gerar valorização relevante das ações no médio e longo prazo.
Valuation descontado reflete incerteza, não quebra de fundamentos
Historicamente, os melhores momentos de retorno da BBAS3 ocorreram quando:
o lucro estava pressionado;
os múltiplos estavam distorcidos;
o mercado evitava o papel.
O cenário atual se assemelha a outros ciclos passados em que houve queda de rentabilidade seguida de normalização gradual. O desconto atual reflete incerteza sobre o ritmo dessa recuperação, não a inviabilidade do banco.
Os três riscos que seguem no radar em 2026
1. Risco de crédito
É o principal ponto de atenção. A carteira rural ainda passa por ajustes, e a inadimplência pode demorar mais alguns trimestres para estabilizar. O mercado monitora de perto se a nova política de crédito será suficiente para reduzir perdas.
2. Risco de liquidez
Não é um problema relevante no momento. O Banco do Brasil mantém ampla base de depósitos, forte posição de capital e acesso consistente a funding.
3. Risco de juros
Juros elevados pressionam crédito, reduzem demanda e aumentam inadimplência. A decisão do banco de crescer menos e preservar capital protege o balanço, mas penaliza o lucro no curto prazo.
Dividendos seguem relevantes, mas menos previsíveis
O Banco do Brasil continua pagando dividendos, porém em patamar inferior ao observado em anos de pico de rentabilidade. A política atual é mais conservadora, priorizando solidez do balanço em detrimento de distribuições elevadas.
Isso reduz o apelo imediato para quem busca renda, mas melhora a sustentabilidade dos pagamentos no longo prazo.
2026 pode ser um ano de transição para a BBAS3
O ano eleitoral tende a manter a volatilidade elevada. A ação pode seguir pressionada por mais tempo, inclusive testando níveis mais baixos caso o mercado continue exigindo prêmio de risco elevado.
Por outro lado, qualquer sinal consistente de estabilização da inadimplência e recuperação gradual do ROE pode mudar rapidamente a narrativa, como já ocorreu em ciclos anteriores.
BBAS3 vale a pena neste momento?
BBAS3 não é uma tese de conforto no curto prazo. Trata-se de uma aposta em assimetria:
risco elevado no presente;
valuation descontado;
potencial de recuperação ao longo dos próximos anos.
Quem entra agora não aposta no trimestre da virada já confirmado, mas na capacidade do Banco do Brasil de atravessar mais um ciclo difícil sem destruir valor estrutural. Para o investidor de longo prazo, esse tipo de cenário costuma ser onde nascem os melhores retornos — desde que o risco seja bem dimensionado e o tempo esteja ao lado.
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