O Banco do Estado de Sergipe (Banese) vem se consolidando como uma das ações fora do radar mais interessantes da Bolsa brasileira, especialmente para investidores focados em dividendos. Com projeção de dividend yield acima de 14% em 2025, o banco combina crescimento operacional robusto, valuation descontado e uma base de clientes em expansão, apesar dos desafios relacionados à liquidez de suas ações.
Embora carregue o nome de um banco estadual, o Banese atua hoje em praticamente todo o Brasil, atendendo cerca de 840 mil clientes, com 632 pontos de atendimento, incluindo 53 unidades físicas, 149 correspondentes bancários, sete postos de atendimento e aproximadamente 423 caixas eletrônicos. O quadro de funcionários também cresceu, chegando a 941 colaboradores, refletindo a expansão da operação.
Crescimento forte dos números operacionais
Os dados do terceiro trimestre de 2025 mostram uma evolução expressiva quando comparados ao mesmo período de 2024:
- Ativos totais: crescimento de 32%
- Aplicações financeiras: alta impressionante de 57%
- Operações de crédito: avanço de 14,5%, alcançando R$ 5,1 bilhões
- Captações totais: aumento de 35%, chegando a quase R$ 12 bilhões
- Patrimônio líquido: crescimento de 13,7%, aproximando-se de R$ 870 milhões
O crescimento das operações de crédito vem ocorrendo de forma consistente trimestre a trimestre. Na comparação anual, o avanço foi de 12,6%, com destaque para o crédito comercial, que saiu de R$ 3,1 bilhões para R$ 3,4 bilhões, e para a carteira de desenvolvimento, que cresceu de R$ 1 bilhão para R$ 1,3 bilhão.
Crédito rural não representa risco excessivo
Um ponto que costuma gerar cautela entre investidores é o crédito rural. No Banese, essa carteira representa cerca de 20% do total de crédito, percentual considerado administrável. Apesar do cenário desafiador vivido por grandes bancos com forte exposição ao agronegócio, essa fatia ainda não tem peso suficiente para comprometer a qualidade geral da carteira.
No crédito para pessoas físicas, houve crescimento de 13% em relação ao terceiro trimestre de 2024. Já o crédito para pessoas jurídicas avançou de forma ainda mais acelerada, com alta de 36,4%, impulsionado principalmente pelo financiamento imobiliário empresarial.
Custo de captação surpreende positivamente
Um dos pontos mais fortes do Banese é o seu custo de captação. Em apenas um ano, o banco elevou suas captações de R$ 8,8 bilhões para R$ 11,9 bilhões, tendo como principais fontes CDBs, RDBs, CDI, poupança e depósitos judiciais.
O dado que mais chama atenção é que o custo de captação gira em torno de 80,2% do CDI, nível extremamente competitivo para um banco de menor porte. Para comparação, muitos bancos pequenos precisam pagar entre 95% e 100% do CDI, enquanto esse patamar é semelhante ao de grandes instituições como o Banco do Brasil.
Receitas com tarifas ainda são ponto fraco
Apesar do bom desempenho no crédito, o Banese enfrenta dificuldades na geração de receitas com prestação de serviços. As receitas com tarifas provenientes de conta corrente, convênios, cobranças e transferências recuaram de R$ 34 milhões para R$ 33 milhões nos últimos 12 meses, uma queda de aproximadamente 3%.
Esse é um ponto que limita a diversificação das fontes de lucro e pode ser um vetor de melhora no futuro, caso o banco avance na oferta de serviços e produtos digitais.
Lucro consistente, mas com volatilidade
A estrutura de geração de resultados do Banese mostra claramente a dependência da intermediação financeira:
- Resultado bruto de intermediação: cerca de R$ 396 milhões
- Receitas de tarifas: aproximadamente R$ 94 milhões
- Despesas administrativas: R$ 321 milhões
- Outras despesas: R$ 77 milhões
- Lucro líquido: em torno de R$ 91,9 milhões
Por ser um banco menor, o Banese apresenta maior volatilidade nos indicadores de rentabilidade. O ROE (retorno sobre o patrimônio) saiu de 20,6% no 3T24, caiu para 11% no 2T25 e voltou a subir para 15,1% no 3T25. O lucro líquido seguiu movimento semelhante, variando entre R$ 33 milhões, R$ 23 milhões e R$ 47 milhões em diferentes trimestres.
Eficiência operacional ainda preocupa
O principal ponto negativo do Banese está na eficiência operacional. As despesas administrativas cresceram 9,4%, elevando o índice de eficiência para cerca de 65%, patamar considerado alto quanto menor esse indicador, melhor.
- Despesas com pessoal: alta de 8,3%
- Outras despesas administrativas: crescimento de 13%, impulsionado por serviços de terceiros e investimentos em tecnologia
- Outras despesas operacionais: aumento de 20% trimestre a trimestre
Mesmo olhando os últimos 12 meses, o banco segue apresentando um histórico de ineficiência, o que indica que a redução de custos seria um dos principais caminhos para melhorar a rentabilidade no longo prazo.
Inadimplência cresce, mas segue sob controle
A inadimplência do Banese aumentou após o início de 2025, influenciada pela Resolução 4.966, que tornou mais rígidos os critérios contábeis. O índice saiu de 3,6% para cerca de 5%, puxado principalmente pela carteira rural.
Ainda assim, o banco conseguiu manter um lucro robusto, indicando capacidade de absorver esse aumento sem comprometer os resultados no curto prazo.
Dividendos elevados e valuation descontado
Nos últimos 12 meses, o dividend yield do Banese ficou em torno de 14,6%, com pagamentos recorrentes e sem eventos extraordinários. A projeção de lucro líquido para 2025 gira em torno de R$ 125 milhões, segundo estimativas conservadoras.
Com esses números, o banco negocia a um P/L próximo de 4,7, cerca de 31% abaixo da média histórica de 10 anos. Considerando um payout conservador de 45%, o dividend yield projetado ficaria em torno de 9,5%. Caso o banco volte a distribuir 60% do lucro, como já ocorreu em outros anos, o yield pode se aproximar de 12%.
Com um ROE em torno de 15%, o Banese entrega um retorno real estimado de IPCA + 11,8%, patamar bastante atrativo para investidores focados em renda.
Liquidez baixa, mas viável para pequenos investidores
Um fator de atenção é o controle acionário: cerca de 92% das ações estão nas mãos do Estado de Sergipe, o que reduz o free float e a liquidez. A ação preferencial, a mais negociada, tem volume médio diário em torno de R$ 63 mil.
Apesar disso, para pequenos investidores, esse nível de liquidez ainda permite entrada e saída do papel, especialmente com foco em longo prazo e dividendos.
Banese vale a atenção do investidor?
O Banese se mostra uma típica ação fora do radar: pouco líquida, controlada pelo Estado, mas com fundamentos sólidos, crescimento consistente e dividendos elevados. Para quem busca renda passiva e aceita volatilidade e menor liquidez, o banco pode representar uma oportunidade interessante dentro do setor financeiro brasileiro.
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