As ações do Banco do Brasil (BBAS3) divulgaram resultado do quarto trimestre com lucro acima das expectativas e chegaram a subir quase 10% na abertura do pregão seguinte. Ao longo do dia, porém, a alta perdeu força e o papel fechou com ganho próximo de 2%. No pregão seguinte, voltou a recuar e retornou para a faixa dos R$ 25.
O movimento levantou um questionamento importante: se o resultado foi forte, por que o mercado não sustentou a valorização?
A resposta está nos detalhes do balanço e, principalmente, nas perspectivas para 2026.
Lucro acima do esperado, mas ainda distante do pico
O Banco do Brasil reportou lucro líquido de R$ 5,7 bilhões no 4T25, superando o consenso que girava entre R$ 4 bilhões e R$ 4,5 bilhões.
O desempenho mostrou:
Crescimento relevante frente ao 3T25 (R$ 3,7 bilhões)
Resultado cerca de 20% acima do esperado
Queda aproximada de 40% na comparação com o 4T24 (R$ 9,5 bilhões)
Ou seja, houve recuperação trimestral, mas ainda longe dos níveis mais fortes do ciclo anterior.
O peso do agronegócio no resultado
O Banco do Brasil é o principal financiador do agronegócio no país. Entre 2020 e 2022, o setor viveu forte expansão, com juros baixos e commodities em alta.
Com a elevação da taxa de juros para dois dígitos e problemas climáticos recentes, muitos produtores enfrentaram dificuldades financeiras.
O impacto foi direto:
Aumento da inadimplência para 5,17%
Elevação significativa das provisões para perdas
Pressão sobre o lucro e os indicadores de rentabilidade
Um caso relevante de aproximadamente R$ 3,6 bilhões na carteira corporativa também contribuiu para elevar a percepção de risco.
Guidance 2026: crescimento moderado e foco em qualidade
A projeção para 2026 indica mudança clara de estratégia.
Lucro líquido ajustado esperado: entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.
Se atingir o teto da projeção, o crescimento pode chegar a até 26% sobre 2025.
Crescimento da carteira de crédito: entre 0,5% e 4,5%.
Carteira sustentável: expansão entre 2% e 6%.
A sinalização é objetiva: crescer menos, mas com mais qualidade e menor risco.
O custo de crédito projetado para 2026 deve ficar entre 53 e 58, abaixo do nível observado em 2025 (61,9), indicando expectativa de redução das provisões.
Avaliação atual da ação
No fechamento mais recente, BBAS3 negociava próxima de R$ 25.
Principais indicadores:
P/L: entre 10 e 11 vezes
P/VP: entre 0,75 e 0,81
Dividend Yield atual: 4,7%
ROE: 7,2%
ROA: 0,68%
O banco negocia abaixo do valor patrimonial, indicando desconto relevante. Contudo, a rentabilidade está pressionada.
Comparação com Itaú e Bradesco
P/L
Banco do Brasil: ~11x
Itaú: ~11x
Bradesco: ~8x
P/VP
Banco do Brasil: ~0,8x
Itaú: ~2,4x
Bradesco: ~1,1x
Dividend Yield
Banco do Brasil: 4,7%
Itaú: cerca de 10%
Bradesco: aproximadamente 7%
ROE
Banco do Brasil: 7%
Itaú: 22%
Bradesco: 13%
O Banco do Brasil é o mais descontado patrimonialmente, mas também apresenta a menor rentabilidade no momento.
Dividendos menores no curto prazo
O payout definido para 2026 é de aproximadamente 30% do lucro.
Foi anunciado juros sobre capital próprio de R$ 1,2 bilhão, com pagamento previsto para março de 2026.
O dividend yield atual está abaixo da média histórica de aproximadamente 8,8% nos últimos cinco anos, refletindo postura mais conservadora na distribuição.
Histórico mostra capacidade de recuperação
Mesmo com a crise recente, o desempenho de longo prazo é expressivo.
Nos últimos dez anos, a ação acumulou valorização próxima de 611%, superando com ampla margem os principais indicadores de renda fixa no período.
Isso demonstra capacidade estrutural de geração de valor, ainda que com ciclos de maior volatilidade.
Oportunidade ou armadilha?
O Banco do Brasil atravessa uma fase de ajuste operacional.
Pontos positivos:
Valuation descontado
Possível recuperação do lucro em 2026
Forte presença no agronegócio e crédito corporativo
Potencial de reprecificação se o ROE voltar a dois dígitos
Pontos de atenção:
Inadimplência elevada
Rentabilidade ainda pressionada
Dividendos reduzidos no curto prazo
Dependência relevante do setor agro
Se o banco cumprir o guidance e reduzir o custo de crédito, o mercado pode voltar a precificar a ação em patamares acima de R$ 30.
Para o investidor que busca valor e aceita volatilidade no curto prazo, BBAS3 pode representar oportunidade. Porém, a recuperação ainda precisa ser confirmada nos próximos resultados.
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