O Banco do Brasil (BBAS3) encerrou o último trimestre com lucro líquido ajustado de R$ 5,7 bilhões, superando com folga a expectativa média do mercado, que girava em torno de R$ 4 bilhões. No acumulado do ano, o banco fechou dentro do guidance projetado, reforçando sua posição entre os principais bancos do país.
O número representa uma alta expressiva em relação ao trimestre anterior, quando o lucro havia ficado próximo de R$ 3,7 bilhões. Na comparação trimestral, o avanço supera 50%, movimento que chamou a atenção de investidores e analistas.
O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) anualizado ficou próximo de 11% a 12%, acima das projeções iniciais, mas ainda distante dos níveis observados em bancos privados como Itaú e BTG, que operam com rentabilidade estruturalmente superior.
Apesar da surpresa positiva no lucro, o resultado não foi interpretado de forma totalmente linear. O principal ponto de atenção está na dinâmica da inadimplência e no índice de cobertura.
Inadimplência sobe e cobertura recua: o ponto mais sensível
A inadimplência acima de 90 dias voltou a crescer trimestre contra trimestre. Em um cenário de juros elevados — com a taxa básica ainda pressionando o crédito — o aumento da inadimplência exige maior provisão para perdas.
No entanto, o que se observou foi estabilidade no custo de crédito, mesmo com a piora nos atrasos. Isso significa que o banco não elevou de forma proporcional o volume de provisões, o que ajudou a impulsionar o lucro contábil.
Esse movimento impactou diretamente o índice de cobertura — indicador que mede o quanto o banco está protegido contra possíveis perdas futuras. Com menor provisão relativa ao aumento da inadimplência, a “folga” de proteção diminui.
Em termos práticos:
Inadimplência maior exige mais cautela
Provisão menor eleva o lucro no curto prazo
Cobertura menor pode pressionar resultados futuros
Esse é o principal debate em torno do resultado: o lucro veio forte, mas parte da melhora pode estar relacionada a uma redução temporária do nível de proteção.
Carteira de crédito cresce abaixo da inflação
A carteira de crédito expandida encerrou o período próxima de R$ 1,3 trilhão, com crescimento de aproximadamente 2,5% no ano. No entanto, esse avanço ficou abaixo da inflação do período, indicando crescimento real praticamente nulo.
Os destaques:
Pessoa jurídica: avanço tímido, inferior a 1% no ano
Agronegócio: crescimento próximo de 2%, também abaixo da inflação
Crédito total: ritmo mais moderado, com postura mais conservadora
O banco tem adotado postura mais diligente na concessão de crédito, especialmente diante do cenário de inadimplência elevada e juros altos.
Agronegócio ainda inspira cautela
O agronegócio, historicamente uma das principais frentes do Banco do Brasil, ainda apresenta sinais de fragilidade.
Segmentos como açúcar, etanol e grãos enfrentaram margens comprimidas ao longo do último ano, pressionados por preços internacionais e câmbio mais volátil. Houve recuperação pontual em alguns nichos, mas o cenário ainda exige cautela.
A expectativa para 2026 é de crescimento mais fraco da carteira de crédito, com possível estabilização ou até leve retração em algumas linhas mais sensíveis.
Guidance para 2026: lucro entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões
O Banco do Brasil divulgou projeção de lucro líquido ajustado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões para 2026.
Se o resultado do último trimestre for anualizado, o banco operaria próximo de R$ 23 bilhões, indicando espaço para melhora caso a inadimplência estabilize e a economia entre em ciclo mais favorável com queda de juros.
A expectativa do mercado é que, com a redução gradual da taxa Selic e melhora do ambiente macroeconômico, haja recomposição da rentabilidade ao longo do ano.
BBAS3 está barata? Comparação com os bancões
Em termos de valuation, o Banco do Brasil negocia abaixo do seu valor patrimonial, com múltiplo próximo de 0,7 a 0,8 vezes o patrimônio líquido — patamar inferior ao observado em bancos privados.
Contudo, essa diferença reflete também:
ROE inferior ao de concorrentes como Itaú
Maior exposição ao crédito agrícola
Maior sensibilidade a ciclos políticos e fiscais
O mercado precifica não apenas o lucro atual, mas a qualidade e sustentabilidade dessa rentabilidade.
Ibovespa nos 190 mil pontos e fluxo estrangeiro impulsionam bancos
O resultado do Banco do Brasil também precisa ser analisado dentro de um contexto mais amplo: o Ibovespa alcançou 190 mil pontos, impulsionado por forte entrada de capital estrangeiro.
Fatores que sustentaram o movimento:
Diversificação global com redução de exposição aos EUA
Fluxo relevante para mercados emergentes
Expectativa de queda de juros no Brasil
Melhora gradual do cenário inflacionário
Esse ambiente favorece ativos de grande porte, como os bancões, que concentram boa parte do fluxo estrangeiro.
Vale comprar Banco do Brasil (BBAS3) agora?
A tese de investimento em Banco do Brasil (BBAS3) passa por dois pilares:
Recuperação gradual da qualidade da carteira de crédito
Manutenção de valuation descontado
Não se trata de uma “barganha histórica”, mas tampouco o ativo parece excessivamente caro.
O ponto-chave será acompanhar:
Evolução da inadimplência nos próximos trimestres
Reposição do índice de cobertura
Crescimento real da carteira
Sustentabilidade do ROE
Em um cenário de melhora estrutural, há espaço para reprecificação. Caso contrário, o papel pode continuar negociando com desconto em relação aos pares privados.
O resultado mostrou força no lucro, mas reforçou que investir em Banco do Brasil exige análise cuidadosa da qualidade dos números — e não apenas do headline.
Para o investidor de longo prazo, a decisão não está no movimento de amanhã, mas na capacidade do banco de sustentar rentabilidade com prudência em um ciclo econômico ainda desafiador.
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