Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia voltou ao centro das atenções ao ser destravado politicamente no final de 2024. O tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, com potencial de impactar cerca de 700 milhões de consumidores.
Para o Brasil, o acordo vai além da simples abertura de mercados: passa a funcionar como instrumento de diversificação comercial, atração de investimentos e integração a cadeias globais de maior valor agregado especialmente relevante em um momento de tensões geopolíticas e dependência histórica de Estados Unidos e China.
Resistências na Europa e o efeito sobre preços
O avanço do tratado enfrenta resistência em países europeus, sobretudo de produtores rurais. A preocupação central é a concorrência: com tarifas menores, produtos brasileiros como suco de laranja, açúcar, carnes e etanol tendem a chegar mais baratos ao mercado europeu, pressionando agricultores locais.
Esse desequilíbrio explica protestos recentes e a exigência de cláusulas ambientais rigorosas. O acordo impõe compromissos com o Acordo de Paris e o combate ao desmatamento, o que adiciona custos e fiscalização, mas também pode favorecer empresas brasileiras já alinhadas a padrões ESG.
O que muda na prática para o Brasil
Entre os principais pontos do acordo, destacam-se:
- Agroexportações: melhores condições para vender carne bovina, aves, açúcar, etanol e suco de laranja à Europa.
- Indústria: entrada de produtos europeus no Brasil (carros, máquinas, químicos e vinhos) com menos impostos.
- Licitações públicas: empresas brasileiras poderão disputar contratos na Europa em igualdade de condições e vice-versa.
- Custos e eficiência: redução de tarifas sobre insumos importados tende a baratear a produção no Brasil.
Para investidores, o ponto-chave é entender quais empresas conseguem capturar esse benefício e quais seguem limitadas por endividamento, margens comprimidas e ciclos adversos.
Quem pode se beneficiar na Bolsa brasileira
Proteína animal: exportação maior, risco financeiro elevado
Empresas como Minerva Foods e JBS (via BDR) podem se beneficiar de cotas maiores e tarifas menores para cortes nobres e aves na Europa, elevando o potencial de vendas.
O problema está no balanço: margens historicamente baixas, forte volatilidade de lucros e endividamento elevado. No caso da Minerva, a compra de ativos bilionários em um cenário de juros altos foi vista pelo mercado como estratégia arriscada, pressionando a ação.
Papel e celulose: rota alternativa às tarifas globais
Para Suzano, o acordo funciona como uma espécie de proteção estratégica. Com tarifas e barreiras em outros mercados, a União Europeia tende a absorver parte do excedente de produção, ajudando a sustentar receitas.
A Klabin também aparece como potencial beneficiária, impulsionada pela demanda europeia por embalagens de papel em substituição ao plástico. O ponto de atenção é a alavancagem elevada, fruto de ciclos intensos de investimento.
Açúcar e etanol: o grande destaque do acordo
A São Martinho surge como uma das mais favorecidas. O acordo prevê uma nova cota de 650 mil toneladas de etanol industrial com tarifa zero, o que pode destravar valor relevante para a companhia.
Além disso, a Europa é um dos maiores mercados de açúcar orgânico, favorecendo empresas como Jalles Machado. Ainda assim, o momento financeiro da Jalles é delicado, com queda acumulada expressiva desde o IPO e endividamento que supera o patrimônio.
Biocombustíveis e energia: potencial grande, balanço frágil
A Raízen pode ampliar exportações de etanol e SAF (combustível sustentável de aviação), área em que vem se posicionando como referência. O entrave é o balanço: dívida líquida muito superior ao patrimônio, margens comprimidas e geração de caixa pressionada.
Indústria e eficiência: ganhos indiretos
Já a WEG aparece como beneficiária indireta. A redução de tarifas sobre componentes europeus pode diminuir custos de produção, elevando margens e reforçando seu perfil de empresa “premium”, ainda que negociada a múltiplos mais elevados.
Valuation: quem respira e quem segue sob pressão
Após a reprecificação inicial do mercado com altas pontuais de até 5,5% em alguns papéis, o cenário de valuation mostra diferenças claras:
- Mais equilibradas: São Martinho e Suzano, com melhor relação entre preço e retorno no longo prazo.
- Caras para o risco atual: Klabin, pressionada por alavancagem.
- Cíclicas em dificuldade: Jalles Machado, Minerva e Raízen, com margens negativas ou muito comprimidas e endividamento elevado.
Desde seus IPOs, nenhuma dessas empresas conseguiu superar o CDI de forma consistente, o que reforça a necessidade de paciência e seletividade.
O que o investidor precisa ponderar
O acordo Mercosul–União Europeia pode ser um catalisador positivo, especialmente se for formalizado nos próximos meses. Ainda assim, ele não resolve problemas estruturais como alta alavancagem, margens estreitas e ciclos climáticos adversos.
Em um mercado com diversas empresas entregando lucros consistentes, dividendos e crescimento, correr atrás de ações altamente cíclicas apenas pelo “potencial de recuperação” pode representar um alto custo de oportunidade.
O acordo abre portas relevantes para o agronegócio brasileiro, mas os maiores ganhos tendem a ficar com empresas financeiramente mais saudáveis. Para o investidor, o desafio não é torcer pelo acordo é escolher quem realmente consegue transformar esse novo cenário em resultado.
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