As ações da SLC Agrícola acumulam uma queda próxima de 40% desde o pico de 2022, saindo da região de R$ 26 para a faixa de R$ 15–16. O movimento não aconteceu por acaso ele reflete uma tempestade perfeita no setor agrícola: preços das commodities em queda e custos de produção em alta.
Mas por trás do pessimismo, surge uma tese que divide investidores: a empresa está cara pelos lucros atuais ou barata demais pelo patrimônio que possui?
Como a SLC ganha dinheiro
A SLC Agrícola é uma produtora de commodities em escala industrial, com operação focada em três culturas:
| Cultura | Participação na Receita |
| Algodão | 57% |
| Soja | 30% |
| Milho | 9% |
A companhia opera 26 fazendas de grande porte espalhadas pelo Cerrado brasileiro, com centenas de milhares de hectares cultivados.
Um ponto crucial: apenas 3,3% da área é irrigada.
Isso aumenta o risco climático, mas também representa uma enorme avenida de crescimento. Cada hectare convertido para irrigação:
- Reduz risco de seca
- Aumenta produtividade
- Pode permitir segunda safra
O que provocou o tombo das ações?
O principal vilão é o ciclo das commodities.
Depois da euforia de 2021–2022, os preços de soja, milho e algodão recuaram. Ao mesmo tempo, os custos de produção (fertilizantes, defensivos, insumos) não caíram na mesma proporção — e, em alguns casos, subiram.
Resultado:
Receita menor + custo maior = margens espremidas
E o mercado reage rápido quando projeta lucros mais fracos.
O “tesouro escondido”: o valor das terras
Aqui a análise muda de nível.
As terras da SLC foram compradas há décadas e estão registradas no balanço pelo valor histórico. Só que o preço da terra agrícola no Brasil disparou nos últimos anos.
Estimativas apontam que o valor líquido dos ativos ajustado (VLA) poderia chegar a cerca de R$ 31,90 por ação.
A ação, porém, gira em torno de R$ 15,75.
Isso sugere que o mercado negocia a empresa por menos da metade do valor patrimonial ajustado, praticamente comprando as terras com grande desconto e levando a operação “de brinde”.
A aposta da família Scheffer
Esse argumento ganhou força quando a família Scheffer, grande produtora rural, investiu R$ 400 milhões na companhia, adquirindo mais de 5% da empresa.
A lógica é direta:
“Por que comprar fazendas no mercado físico, com baixa liquidez, se posso comprar terras via Bolsa com desconto e vender quando quiser?”
É como ter um imóvel rural com liquidez de ação.
Mesmo em crise, a empresa continua crescendo
A SLC projeta alcançar 836 mil hectares plantados na safra 2025/26, crescimento próximo de 14%, com destaque para:
- +14% em soja
- +12% em algodão
- +29% em milhoÉ uma estratégia típica de empresas de ciclo: expandir na baixa para colher na alta.
O ponto sensível: dívida
A expansão elevou a dívida bruta para cerca de R$ 7 bilhões, com alavancagem em torno de 2,33x dívida líquida/EBITDA.
Além disso:
- Cerca de R$ 2 bilhões vencem em 2025
- Caixa atual gira perto de R$ 1,1 bilhão
Isso exige rolagem de dívida ou captação algo comum em grandes empresas, mas que assusta em momentos de margens fracas e juros elevados.
Sinal de alerta: executivos vendendo ações
Enquanto parte do mercado vê oportunidade, registros mostram vendas de ações por pessoas ligadas à companhia a preços entre R$ 18 e R$ 19.
A ausência de compras relevantes nesse patamar mais baixo levanta dúvidas e reforça a leitura de que o caminho pode ainda ser longo até a recuperação.
Dividendos dependem do ciclo
A empresa distribui 50% do lucro ajustado, mas com lucros pressionados, os dividendos tendem a ser modestos no curto prazo.
O “prêmio” maior viria apenas com a virada do ciclo das commodities.
E se o ciclo virar?
Em ciclos anteriores, a ação já entregou valor expressivo. Desde o IPO, o retorno total acumulado é próximo de 1.000%.
Análises baseadas em múltiplos históricos indicam que, em um novo ciclo de alta, o papel poderia voltar a negociar em faixas muito superiores mas isso depende essencialmente da recuperação dos preços de soja, milho e algodão.
O veredito: oportunidade histórica ou armadilha de valor?
A SLC Agrícola reúne características raras:
Empresa grande, eficiente e líder no setor
Forte histórico de crescimento
Terras que podem valer muito mais que o preço refletido na ação
Mas também carrega:
Forte dependência do ciclo das commodities
Margens pressionadas
Dívida crescente
Incerteza sobre quando o ciclo vira
Tata-se de uma tese que exige estômago, paciência e visão de longo prazo. Pode ser uma grande oportunidade… ou uma ação que permaneça barata por anos.
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