As ações da Oi protagonizam uma das maiores destruições de valor da história recente da Bolsa brasileira. Papéis da companhia que, considerando determinadas cotações históricas, chegaram a aparecer negociados acima de R$ 80 agora valem apenas centavos. Em agosto de 2026, a situação ficou ainda mais crítica: o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro confirmou a falência da empresa após rejeitar recursos que mantinham suspensa a decisão anterior.
Em 21 de agosto, poucos dias antes da decisão judicial, a ação ordinária OIBR3 estava cotada a aproximadamente R$ 0,09, enquanto a preferencial OIBR4 aparecia ao redor de R$ 0,50. A diferença em relação aos preços vistos no passado é enorme, mas exige uma ressalva importante.
A Oi realizou grupamentos de ações e diferentes operações de capital ao longo dos anos. Por isso, comparar diretamente uma ação antiga negociada a R$ 80 com uma atual de R$ 0,09 não representa necessariamente uma perda linear de 99,9% daquele mesmo papel. O número de ações e sua base de comparação mudaram ao longo do tempo.
Ainda assim, economicamente, a conclusão permanece: houve uma destruição extrema de valor para os acionistas.
Falência muda completamente a análise de OIBR3
A situação da empresa sofreu uma mudança decisiva em 25 de agosto de 2026.
A Primeira Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou os recursos apresentados por Itaú e Bradesco e confirmou a conversão da recuperação judicial do Grupo Oi em falência.
Os recursos haviam conseguido suspender temporariamente a primeira decisão de falência, tomada em novembro de 2025.
Com o julgamento de agosto, a companhia voltou oficialmente ao regime falimentar.
A própria Oi publicou fato relevante confirmando a decisão judicial.
Esse fato altera substancialmente qualquer análise sobre OIBR3 e OIBR4. O investidor não está mais avaliando apenas uma empresa endividada tentando realizar um turnaround. Agora existe um processo formal de falência e liquidação de ativos.

Por que as ações da Oi caíram tanto?
A queda das ações não aconteceu por apenas um motivo. Ela foi construída ao longo de décadas de problemas financeiros, operacionais e estratégicos.
Entre os principais fatores estão:
- endividamento elevado;
- aquisições financiadas por dívida;
- sucessivas mudanças de estratégia;
- deterioração dos negócios tradicionais;
- perda de competitividade;
- necessidade constante de investimentos;
- duas recuperações judiciais;
- venda de ativos relevantes;
- diluição dos acionistas;
- dificuldades para gerar caixa;
- problemas para cumprir obrigações com credores.
O resultado foi uma combinação extremamente negativa para quem permaneceu acionista no longo prazo.
Dívida começou a pesar após expansão da companhia
Uma etapa importante dessa história ocorreu após a combinação da Oi com a Brasil Telecom.
A estratégia tinha como objetivo criar uma grande companhia nacional de telecomunicações, mas adicionou complexidade e dívida à estrutura do grupo.
Nos anos seguintes, a empresa passou a enfrentar um mercado que também mudava rapidamente.
A telefonia fixa, segmento historicamente relevante para a companhia, perdeu espaço para serviços móveis e de internet.
Ao mesmo tempo, concorrentes passaram a investir pesadamente em redes móveis, fibra óptica e serviços digitais.
A Oi precisava investir para acompanhar esse avanço justamente quando sua capacidade financeira já estava comprometida.
Primeira recuperação judicial começou com R$ 65 bilhões em passivos
Em 2016, a situação chegou ao limite.
A Oi entrou em recuperação judicial em um processo que envolvia aproximadamente R$ 65 bilhões em passivos e mais de 55 mil credores, segundo informações divulgadas pela própria companhia.
Foi uma das maiores recuperações judiciais já realizadas no Brasil.
A estratégia de reestruturação incluiu renegociação de dívidas e venda de negócios.
Entre os ativos mais importantes vendidos estava a operação móvel.
Oi vendeu operação móvel para Vivo, TIM e Claro
A unidade móvel da Oi foi negociada por aproximadamente R$ 16,5 bilhões para um consórcio formado por Vivo, TIM e Claro.
Os clientes foram posteriormente distribuídos entre as três companhias.
Essa operação mudou profundamente o perfil da Oi.
A empresa deixou de disputar diretamente o grande mercado brasileiro de telefonia móvel e passou a concentrar sua estratégia em negócios como fibra, serviços corporativos e sua participação na V.tal.
A venda ajudou a levantar recursos, mas não foi suficiente para resolver definitivamente a estrutura financeira.
Oi saiu da primeira recuperação e voltou poucos meses depois
O primeiro processo de recuperação judicial foi encerrado em 2022.
Naquela ocasião, a companhia destacava que havia vendido ativos, reduzido dívidas e reorganizado sua estrutura.
O problema é que a situação financeira continuou pressionada.
Em março de 2023, a Oi entrou novamente em recuperação judicial.
O segundo processo envolvia dívidas próximas de R$ 44 bilhões.
Na prática, menos de três meses depois de deixar a primeira recuperação, a companhia precisava novamente de proteção judicial contra credores.
Esse foi um dos sinais mais importantes de que a recuperação operacional havia sido insuficiente.
Grupamentos podem enganar quem olha apenas o gráfico
Outro ponto essencial para entender a história de OIBR3 está nos grupamentos.
Em 2024, por exemplo, os acionistas aprovaram um grupamento de 10 ações para uma.
Isso significa que alguém com 100 ações passou a ter 10 ações.
Em contrapartida, o preço unitário teórico ficou dez vezes maior.
A própria companhia explicou que uma das finalidades era fazer com que a cotação voltasse a ficar acima de R$ 1, atendendo às regras da B3.
Por isso, gráficos históricos sem ajustes podem gerar interpretações equivocadas.
Um preço aparentemente alto no passado pode refletir os efeitos posteriores de grupamentos.
Exemplo simples
Imagine uma empresa com:
- 1.000 ações cotadas a R$ 0,50;
- valor total de mercado de R$ 500.
Após um grupamento de 10 para 1:
- passam a existir 100 ações;
- cada ação passa teoricamente a valer R$ 5;
- o valor total continua sendo R$ 500.
O investidor não ficou dez vezes mais rico.
Essa lógica precisa ser considerada ao analisar a trajetória da Oi.
OIBR3 voltou novamente para a faixa dos centavos
Mesmo depois dos grupamentos, as ações voltaram a perder valor.
Dados de mercado mostram que OIBR3 estava na faixa de R$ 0,09 em 21 de agosto de 2026.
No período de 52 semanas, o papel chegou a oscilar aproximadamente entre R$ 0,04 e R$ 0,66.
Isso mostra que nem mesmo as operações destinadas a elevar nominalmente a cotação conseguiram impedir uma nova queda para valores inferiores a R$ 1.
A ação preferencial OIBR4 permanecia mais cara em termos unitários, próxima de R$ 0,50, mas também apresentava valor extremamente baixo.

Falência da Oi foi confirmada em agosto
O processo ganhou um novo capítulo em novembro de 2025, quando a Justiça converteu a recuperação judicial em falência.
A decisão foi posteriormente suspensa após recursos apresentados por Itaú e Bradesco.
Durante alguns meses, portanto, a companhia continuou formalmente sob recuperação judicial enquanto o recurso era analisado.
Em 25 de agosto de 2026, porém, a Primeira Câmara de Direito Privado do TJ-RJ rejeitou esses recursos e manteve a falência.
A decisão foi tomada depois de a companhia enfrentar dificuldades crescentes de liquidez e problemas para financiar até mesmo suas operações essenciais.
Empresa chegou a alertar sobre falta de caixa
Antes do julgamento definitivo, a situação financeira já mostrava sinais extremos de deterioração.
A Oi informou à Justiça que enfrentava dificuldades para manter suas operações além de agosto devido à falta de recursos.
Também houve problemas envolvendo fornecedores.
No começo de agosto de 2026, o corte de serviços realizado por um fornecedor atingiu conexões utilizadas por lotéricas, serviços de segurança pública e empresas de energia.
O episódio reforçou a dimensão da crise de liquidez da companhia.
O que acontece com uma ação quando a empresa entra em falência?
A falência não significa automaticamente que a ação desaparece naquele mesmo instante.
Existe um processo de liquidação.
Os ativos da companhia são vendidos e os recursos são utilizados para pagar credores seguindo a ordem de preferência definida pela legislação.
O problema para o acionista é justamente sua posição nessa fila.
Acionista está entre os últimos a receber
Em termos econômicos, os acionistas são proprietários do capital residual da empresa.
Eles só recebem algum valor depois que obrigações prioritárias e credores forem satisfeitos conforme o processo legal.
Se o valor obtido com os ativos for inferior às dívidas e demais obrigações, pode não existir qualquer patrimônio restante para os acionistas.
Esse é um dos motivos pelos quais ações de empresas em falência podem negociar por valores extremamente baixos.
Ação de R$ 0,09 não significa ação barata
Esse é talvez o erro mais comum na análise de OIBR3.
Uma ação custar centavos não significa que esteja barata.
O preço unitário de uma ação, isoladamente, praticamente não informa se uma empresa está cara ou barata.
É preciso analisar:
- valor de mercado;
- quantidade de ações;
- dívida;
- caixa;
- ativos disponíveis;
- capacidade de gerar receita;
- geração de caixa;
- patrimônio líquido;
- estrutura de capital;
- posição dos credores.
Uma companhia saudável cotada a R$ 100 pode estar mais barata economicamente do que uma companhia insolvente negociada a R$ 0,10.
OIBR3 é investimento ou especulação?
Antes mesmo da confirmação da falência, OIBR3 já era considerada um ativo de altíssimo risco.
Após a decisão judicial, essa característica se torna ainda mais evidente.
A tese deixou de depender essencialmente de crescimento de receita, expansão da fibra ou aumento da rentabilidade operacional.
O valor para o acionista passa a depender fundamentalmente do resultado do processo falimentar, da venda dos ativos, das obrigações existentes e de quanto — se houver alguma coisa — poderá sobrar depois dos credores.
Isso aproxima o papel muito mais de uma operação especulativa sobre recuperação residual de valor do que de um investimento tradicional baseado em lucros futuros.
Oi não apresenta características de ação de dividendos
Para investidores que buscam empresas lucrativas e capazes de distribuir resultados, a situação é ainda mais clara.
A companhia não apresenta atualmente uma tese baseada em:
- crescimento sustentável dos lucros;
- geração previsível de caixa;
- distribuição recorrente de dividendos;
- expansão operacional financiada pela própria atividade.
O foco está na liquidação de ativos e no processo judicial.
Portanto, comparar OIBR3 com empresas tradicionais de dividendos ou crescimento pode levar a conclusões equivocadas.
Vale a pena comprar ações da Oi agora?
Depois da confirmação da falência, o nível de risco aumentou substancialmente.
Para um investidor fundamentalista de longo prazo, faltam alguns dos principais elementos que normalmente sustentariam uma decisão de compra: previsibilidade de caixa, crescimento operacional, lucros recorrentes e capacidade de distribuição de dividendos.
Comprar OIBR3 esperando simplesmente que a ação volte aos preços antigos também é uma tese particularmente arriscada.
Não existe obrigação econômica para que uma ação volte ao preço que tinha no passado.
Além disso, no caso da Oi, comparar preços históricos é especialmente problemático devido aos diversos eventos societários e grupamentos.
Quem considera negociar ações nessa situação precisa entender que existe a possibilidade real de perda integral do capital investido.
Como uma gigante das telecomunicações chegou a esse ponto?
A trajetória da Oi mostra como uma empresa pode perder valor mesmo operando em um setor essencial.
O problema não foi apenas a existência de demanda por telecomunicações.
A companhia enfrentou simultaneamente dívida elevada, mudanças tecnológicas, custos operacionais, necessidade de grandes investimentos, concorrentes financeiramente mais fortes, reestruturações societárias e dificuldades recorrentes para gerar caixa.
A primeira recuperação judicial reorganizou parte da dívida e permitiu a venda de ativos.
A segunda mostrou que a estrutura financeira ainda não era sustentável.
A confirmação da falência em agosto de 2026 representa o estágio mais grave dessa longa deterioração.
Para o investidor, a principal lição é simples: preço baixo não é sinônimo de oportunidade. Uma ação de centavos pode continuar perdendo valor — e, em uma companhia falida, o valor econômico destinado ao acionista pode inclusive chegar a zero.
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