As ações da Cosan (CSAN3) voltaram a chamar atenção do mercado após renovarem a pressão na Bolsa e passarem a ser negociadas em patamar inferior a R$ 5. A queda reflete uma combinação de fatores que vai além do movimento diário do Ibovespa: o investidor está reavaliando o valor real da holding, a capacidade de redução da dívida, o impacto da crise na Raízen e a diluição provocada pela emissão de ações realizada em 2025.
O ponto central é que a Cosan deixou de ser vista apenas como uma holding de crescimento. Agora, o mercado passa a enxergar a companhia como uma estrutura em processo de desalavancagem, venda de ativos e possível reorganização profunda. O próprio CEO, Marcelo Martins, afirmou que é razoável imaginar que a Cosan deixe de existir como holding em um horizonte de três a cinco anos, com eventual distribuição direta das participações aos acionistas.
Por que as ações da Cosan não param de cair?
A queda de CSAN3 tem relação direta com a percepção de que o valor dos ativos da holding pode não ser suficiente para sustentar as expectativas antigas do mercado. Durante anos, parte dos investidores projetou uma recuperação forte da ação, baseada na soma das participações em empresas como Rumo, Compass, Moove, Radar e Raízen.
O problema é que esse cálculo mudou. A Raízen, que já foi uma das principais apostas de valor dentro do grupo, perdeu relevância diante do alto endividamento e da necessidade de reestruturação. Segundo informações divulgadas ao mercado, a Cosan poderá vender sua participação na Raízen após o processo de reorganização, e a fatia da holding deve se tornar menos expressiva com a conversão de dívidas em ações.
Além disso, a própria Cosan deixou de reconhecer os efeitos da Raízen em suas demonstrações financeiras no 1T26, porque o valor contábil do investimento foi reduzido a zero, conforme consta no release de resultados da companhia.
Resultado do 1T26 mostra melhora, mas ainda com pressão financeira
No primeiro trimestre de 2026, a Cosan registrou prejuízo líquido de R$ 1,58 bilhão. O número representa melhora em relação ao prejuízo de R$ 1,79 bilhão do mesmo período de 2025, mas ainda reforça o tamanho do desafio financeiro da companhia.
A dívida líquida expandida do corporativo encerrou o trimestre em R$ 11,5 bilhões, queda de 34% na comparação anual, mas alta de 18% frente ao 4T25. A empresa explicou que o aumento trimestral ocorreu pela ausência de dividendos relevantes no período e por pagamentos ligados à liquidação antecipada de dívidas e derivativos.
O indicador que mais preocupa é o Índice de Cobertura do Serviço da Dívida, que caiu para 0,4 vez no 1T26. Na prática, isso mostra que os dividendos e fluxos recebidos pela holding ficaram insuficientes para cobrir confortavelmente os compromissos financeiros.
| Indicador da Cosan | 1T26 | Leitura para o investidor |
| Prejuízo líquido | R$ 1,58 bilhão | Resultado ainda negativo, apesar da melhora anual |
| Dívida líquida expandida | R$ 11,5 bilhões | Alavancagem segue como principal preocupação |
| Dividendos e JCP recebidos | R$ 36 milhões | Queda forte na entrada de caixa da holding |
| ICSD | 0,4x | Cobertura da dívida abaixo do ideal |
| Caixa e equivalentes | R$ 7,7 bilhões | Recuo após pré-pagamentos de dívidas |
Emissão de ações diluiu o investidor antigo
Outro fator que pesa sobre CSAN3 é a diluição. Em 2025, a Cosan realizou uma grande emissão de ações para reforçar sua estrutura de capital. Com a operação, o capital social passou a ser distribuído em 3,97 bilhões de ações.
Essa mudança é decisiva para entender por que muitos preços-alvo antigos perderam força. Mesmo que o valor total dos ativos da holding continue relevante, ele agora precisa ser dividido por uma quantidade muito maior de ações. Isso reduz o valor potencial por papel e dificulta a volta a patamares mais altos sem uma forte recuperação dos ativos investidos.
Raízen virou o principal ponto de incerteza
A Raízen (RAIZ4) é um dos maiores focos de preocupação. A empresa enfrenta uma estrutura de dívida elevada e negociações com credores, o que deve provocar forte mudança na participação da Cosan. O CEO da holding afirmou que a companhia não pretende acompanhar a Shell em novos aportes na Raízen e que a participação da Cosan deve deixar de ser expressiva após a reestruturação.
Esse ponto é importante porque a Raízen já teve peso muito maior no valor da Cosan. Com a perda de valor da investida, a tese de crescimento da holding ficou enfraquecida. Para o mercado, isso significa que parte relevante do valor que sustentava expectativas mais otimistas simplesmente desapareceu ou ficou muito incerta.
Rumo, Compass, Moove e Radar ainda têm valor, mas não eliminam o risco
A Cosan ainda possui ativos importantes. Rumo, Compass, Moove e Radar seguem no portfólio e apresentaram números operacionais relevantes no 1T26. No trimestre, o EBITDA ajustado foi de R$ 1,745 bilhão na Rumo, R$ 1,329 bilhão na Compass, R$ 236 milhões na Moove e R$ 103 milhões na Radar.
O problema é que, para o acionista da Cosan, o valor desses ativos precisa ser analisado junto com a dívida da holding, o custo financeiro, o prazo de desalavancagem e o risco de venda de participações em condições menos favoráveis. Ou seja, não basta somar os ativos brutos: é preciso descontar passivos, custos e incertezas.
Possível fim da holding muda a tese de investimento
A declaração de que a Cosan pode deixar de existir como holding em três a cinco anos muda completamente a forma como o mercado avalia CSAN3. A empresa passa a ser vista menos como uma plataforma de crescimento e mais como uma tese de liquidação gradual de ativos.
Segundo a administração, o primeiro passo é reduzir o endividamento. Depois, a companhia deve avaliar quais ativos e passivos permanecerão dentro da estrutura, com possibilidade de distribuição direta das participações aos acionistas.
Esse processo pode gerar valor, mas também envolve riscos: prazo longo, juros altos, incerteza sobre venda de ativos, baixa previsibilidade sobre a Raízen e dificuldade de estimar quanto efetivamente ficará para o acionista no fim da reorganização.
Vale comprar Cosan agora?
A forte queda de CSAN3 pode atrair investidores em busca de ações descontadas, mas o caso exige cautela. A ação está barata em relação ao passado, porém o passado da Cosan não reflete mais a estrutura atual da empresa. A companhia tem mais ações em circulação, menor contribuição da Raízen, dívida ainda relevante e uma tese que depende de desinvestimentos e reorganização.
Para quem já está posicionado, o principal risco é insistir apenas no preço médio sem reavaliar a tese. Para quem está fora, o ponto de atenção é entender se o possível retorno compensa o prazo, a volatilidade e as incertezas sobre o valor final dos ativos.
A queda das ações da Cosan não acontece por um único motivo. Ela reflete a soma de quatro pressões: dívida elevada, baixa geração de caixa para a holding, crise na Raízen e diluição acionária. A possível dissolução da holding pode destravar valor no futuro, mas também confirma que a tese original de crescimento perdeu força.
No momento, CSAN3 deixou de ser uma aposta simples em recuperação e passou a ser uma tese complexa de reestruturação. Para o investidor, o ponto mais importante é não olhar apenas para o preço baixo da ação, mas para quanto dos ativos realmente pode chegar ao acionista depois da dívida, dos custos e do tempo necessário para reorganizar o grupo.
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