A disputa entre os controladores da Raízen (RAIZ4) ganhou um novo capítulo. Após a proposta inicial que previa cisão dos ativos e capitalização via private equity, a Shell, dona de 44% da companhia, apresentou uma alternativa que pode mudar completamente o rumo da empresa.
A proposta envolve um cheque estimado entre R$ 3,5 bilhões e R$ 5 bilhões, com participação complementar da Cosan e de seu acionista principal. O objetivo é claro: reduzir a alavancagem, evitar cisão e preservar valor estratégico do negócio integrado de açúcar, etanol e combustíveis.
O mercado, porém, segue cético — e os números explicam o motivo.
O problema central: dívida de R$ 55 bilhões e alavancagem de 5,3x
No terceiro trimestre, a Raízen encerrou com aproximadamente R$ 55 bilhões em dívida bruta, enquanto a relação Dívida Líquida/Ebitda atingiu 5,3 vezes — patamar considerado elevado para o setor.
O plano dos controladores mira:
Redução da alavancagem para cerca de 3 vezes
Injeção total estimada próxima a R$ 5,3 bilhões
Possível reestruturação com credores após capitalização
Conversão parcial de dívida em equity
Eventual emissão de novas ações (follow-on)
Comparativo do cenário financeiro
| Indicador | Situação Atual | Meta Pós-Capitalização |
|---|---|---|
| Dívida Bruta | ~R$ 55 bilhões | Reestruturada |
| Dívida Líquida/Ebitda | 5,3x | ~3,0x |
| Captação estimada | – | ~R$ 5 bilhões |
| Estrutura societária | Shell 44% / Cosan 44% | Mantida |
Mesmo com aporte, a Shell não se tornaria controladora, evitando mudança abrupta de governança.
Por que a Shell rejeita a cisão?
A proposta alternativa evita a divisão entre:
Açúcar e etanol
Distribuição de combustíveis
A Shell vê sinergia estratégica no modelo integrado. Separar as operações poderia:
Diluir valor de longo prazo
Reduzir eficiência operacional
Enfraquecer o potencial de projetos como:
Etanol de segunda geração
Combustível sustentável de aviação (SAF)
O racional é simples: preservar escala global e manter a cadeia produtiva conectada.
Mercado reage mal: ação despenca mais de 50%
Após atingir R$ 1,14, RAIZ4 acumula queda superior a 50%.
A volatilidade reflete:
Incerteza sobre modelo de capitalização
Risco de diluição
Alto endividamento
Queima de caixa elevada
Bonds pagando 14% em dólar: sinal de alerta máximo
No mercado internacional, títulos da Raízen chegaram a pagar até 14% ao ano em dólar.
Para comparação:
Empresas sólidas costumam emitir entre 4% e 5% ao ano
Quanto maior o retorno exigido, maior o risco percebido
Esse patamar indica deterioração da percepção de crédito.
Movimento dos controladores chama atenção
Historicamente houve vendas relevantes por parte de conselheiros e controladores quando o papel estava acima de R$ 5.
Recentemente, porém, há quase total ausência de movimentações relevantes.
Isso pode indicar:
Expectativa por solução estrutural
Aguardar definição da capitalização
Evitar vender próximo às mínimas históricas
Aluguel de ações explode e revela pressão vendida
Um dos sinais mais relevantes está no mercado de aluguel:
400 milhões de ações alugadas
Free float estimado entre 10% e 12%
Mais de 1/3 das ações livres comprometidas
Taxa de aluguel atingindo 70,57% ao ano
Esse nível indica forte posicionamento de venda descoberta.
Por que isso é perigoso?
Pressão técnica de queda
Dificuldade de recuperação consistente
Alta especulação de curto prazo
Risco elevado para investidores desavisados
O que dizem os analistas?
Recomendações se dividem entre:
Compra forte
Compra
Manutenção
Venda
Preço-alvo médio estimado gira em torno de R$ 1,75, frente a cotação próxima de R$ 0,60.
A pergunta central é:
há fundamento para multiplicar quase três vezes o preço atual?
Com dívida elevada, queima de caixa e ambiente de crédito pressionado, o caminho exige execução impecável.
O que pode mudar o jogo?
A tese de recuperação depende de:
Capitalização efetiva
Redução real da alavancagem
Estabilização da geração de caixa
Recuperação do mercado de etanol
Avanço em combustíveis sustentáveis
Sem esses pilares, o risco continua elevado.
A proposta da Shell coloca uma alternativa relevante na mesa, preserva estrutura integrada e oferece capital bilionário.
Mas o mercado ainda exige provas concretas de que a Raízen RAIZ4 conseguirá:
Controlar sua dívida
Reduzir risco de crédito
Estancar a pressão vendida
Voltar a crescer com sustentabilidade financeira
Enquanto isso, o ativo permanece no centro da especulação da Bolsa brasileira.
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