Após uma queda superior a 60% em relação às máximas recentes, as ações da Randoncorp (RAPT3 e RAPT4) chegam a 2026 negociadas em patamares historicamente baixos. O movimento reacendeu o debate sobre se o mercado exagerou na penalização de uma empresa que, apesar dos desafios recentes, apresentou forte crescimento estrutural ao longo da última década.
Atualmente, a companhia é avaliada a múltiplos considerados comprimidos para o seu histórico e para o padrão do setor industrial. Em alguns momentos, os papéis chegaram a operar próximos a 0,6 vez o valor patrimonial, patamar incomum para uma empresa intensiva em ativos, com presença global e posição de liderança em diversos segmentos.
Crescimento consistente da receita, mas lucro pressionado
Entre 2017 e 2025, a Randon mais que quadruplicou sua receita líquida, saindo de cerca de R$ 3 bilhões para níveis superiores a R$ 13 bilhões nos últimos doze meses. Esse avanço foi sustentado por uma estratégia agressiva de crescimento, com aquisições relevantes no Brasil e no exterior e expansão da atuação internacional.
No entanto, o crescimento da receita não se traduziu, na mesma proporção, em geração de lucro. Margens comprimidas, aumento de custos, cenário macroeconômico adverso e maior alavancagem financeira impactaram a linha final do balanço. Diferentemente de outras empresas do setor metalmecânico, a Randon enfrenta maior dificuldade para repassar preços, o que torna suas margens mais sensíveis aos ciclos econômicos.
Diversificação global reduz riscos estruturais
Um dos principais diferenciais da Randon em 2026 é a diversificação. A empresa atua em diferentes unidades de negócio, regiões e ciclos econômicos, reduzindo a dependência exclusiva do mercado brasileiro.
A presença relevante nos Estados Unidos, na América Latina e em outros mercados internacionais ajuda a diluir riscos locais e amplia as oportunidades de crescimento. Além disso, a companhia se beneficia de exposição a setores como agronegócio, logística, transporte pesado e comércio eletrônico, que seguem estruturais no médio e longo prazo.
Frasle Mobility fortalece o ecossistema do grupo
A Frasle Mobility, controlada pela Randon, tornou-se um dos pilares estratégicos do grupo. Nos últimos anos, a empresa realizou diversas aquisições relevantes, consolidando-se como referência em componentes de suspensão, fricção e direção, especialmente no mercado de reposição, que tende a ser mais resiliente em momentos de desaceleração econômica.
Essa diversificação dentro do próprio grupo cria fontes adicionais de receita, reduz volatilidade operacional e abre espaço para ganhos de escala e sinergias industriais.
Contratos relevantes reforçam visibilidade de receita
Em 2026, a Randon entra no radar dos investidores também por contratos de grande porte já firmados. Um dos destaques é o acordo de aproximadamente R$ 770 milhões para fornecimento de vagões ferroviários, com entregas previstas ao longo dos próximos anos. O contrato representa uma parcela relevante da receita projetada e reforça a posição da companhia no segmento ferroviário, ligado diretamente à logística e ao escoamento do agronegócio.
Esses contratos aumentam a previsibilidade do fluxo de caixa e ajudam a sustentar a estratégia de crescimento mesmo em um cenário macroeconômico ainda desafiador.
Valuation descontado chama atenção em 2026
Com as ações negociadas em níveis semelhantes aos de 2020, o contraste chama atenção: a Randon de 2026 é significativamente maior, mais diversificada e mais internacionalizada do que era há cinco anos. Ainda assim, o preço de mercado não reflete plenamente essa evolução operacional.
Projeções para 2026 indicam múltiplos de lucro ao redor de dois dígitos baixos, considerados atrativos para uma empresa industrial com histórico de crescimento e ativos relevantes. Esse descompasso entre preço e fundamentos sustenta a tese de que o mercado pode ter exagerado na penalização do papel durante o ciclo de baixa.
O que esperar da RAPT3 e da RAPT4 daqui para frente
Para 2026, o foco da Randon está na melhoria da eficiência operacional, redução gradual da alavancagem financeira e recuperação das margens. A normalização do ciclo de juros, combinada com retomada da demanda por veículos pesados e investimentos em infraestrutura e logística, pode funcionar como catalisador para os resultados.
A tese para RAPT3 e RAPT4 se enquadra em um cenário de risco elevado no curto prazo, mas com potencial de retorno relevante no longo prazo, especialmente para investidores com perfil mais paciente e visão fundamentalista.
Ação barata, mas não sem riscos
Apesar do valuation descontado, a Randon ainda enfrenta desafios importantes. Margens pressionadas, sensibilidade ao ciclo econômico e dependência da retomada do setor industrial seguem no radar. O comportamento da taxa de juros, a demanda por implementos rodoviários e a execução da estratégia de desalavancagem serão fatores decisivos para a performance das ações.
Mesmo assim, após uma queda tão expressiva, a ação da Randon volta a ser vista como um caso clássico de assimetria: riscos conhecidos no curto prazo, mas fundamentos que podem sustentar uma recuperação relevante ao longo dos próximos anos.
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