Uma mudança silenciosa vem ganhando força na indústria de fundos imobiliários: a compra e venda de imóveis com pagamento feito total ou parcialmente em cotas do próprio fundo, em vez de dinheiro ou CRIs. A prática, que já existia pontualmente, passou a se tornar recorrente em 2025 e ganhou ainda mais relevância em 2026, em um cenário de juros elevados, crédito caro e mercado secundário descontado.
À primeira vista, o modelo pode parecer confuso para o investidor pessoa física. Afinal, por que um vendedor aceitaria cotas no lugar de dinheiro? Esse tipo de estrutura altera o preço real da negociação? E, principalmente, quais são os riscos para quem já é cotista do fundo?
Como funciona a compra de imóveis com pagamento em cotas
Na prática, o fundo imobiliário realiza uma nova emissão de cotas — geralmente ao valor patrimonial — e entrega essas cotas ao vendedor do imóvel como forma de pagamento, seja integral ou parcial. O vendedor deixa de ser proprietário do imóvel e passa a ser cotista do fundo, participando dos rendimentos mensais e da valorização (ou não) das cotas no mercado.
Esse modelo surge como alternativa em um momento em que:
Emitir cotas abaixo do valor patrimonial enfrenta forte resistência do mercado
A alavancagem via dívida ficou mais cara com juros elevados
Estruturas de CRI perderam atratividade diante do CDI alto
Captações tradicionais se tornaram mais difíceis
Assim, o fundo “preserva” o valor patrimonial ao emitir cotas no VP e viabiliza a aquisição sem depender de caixa imediato.
Por que o vendedor aceita receber cotas?
Aceitar cotas no lugar de dinheiro não é neutro e nunca acontece sem contrapartida econômica. O vendedor abre mão de liquidez imediata, o que naturalmente influencia o valor do negócio.
Os principais motivos para aceitar esse formato incluem:
Continuidade de renda: o vendedor passa a receber dividendos mensais do fundo
Expectativa de valorização das cotas no médio e longo prazo
Interesse estratégico em se tornar cotista do fundo
Facilitação da negociação em um mercado de crédito restrito
No entanto, é fundamental entender que o preço implícito do imóvel muda quando o pagamento não é feito à vista em dinheiro.
Cap rate informado exige leitura crítica
Um dos pontos mais sensíveis nessas operações é o cap rate divulgado. Quando grande parte do pagamento é feita com cotas, o retorno anunciado não pode ser analisado da mesma forma que uma compra 100% em dinheiro.
Isso porque:
O vendedor aceita um cap rate nominal menor em troca de cotas
Existe um “custo de iliquidez” embutido na operação
O preço por metro quadrado tende a ser ajustado implicitamente
Ou seja, o cap rate divulgado pode ser atrativo, mas não reflete exatamente o mesmo nível de retorno de uma operação à vista. Isso não invalida o negócio, mas exige leitura mais sofisticada por parte do investidor.
Quando fundos vendem imóveis e recebem cotas
A lógica também funciona no sentido inverso. Há casos em que um fundo vende um imóvel e aceita receber cotas de outro fundo imobiliário como parte do pagamento.
Nesse cenário, o fundo vendedor:
Reduz exposição direta ao imóvel
Passa a deter participação financeira em outro FII
Pode ganhar liquidez futura, mas não imediata
Esse tipo de operação é cada vez mais usado como ferramenta de reciclagem de portfólio, especialmente em fundos que buscam reduzir concentração ou mudar o perfil dos ativos.
O maior risco para o cotista: pressão vendedora no mercado
O principal ponto de atenção desse modelo não está no imóvel em si, mas no destino das cotas entregues ao vendedor.
Quando um vendedor recebe um volume relevante de cotas, é razoável assumir que, em algum momento, ele desejará transformá-las em dinheiro. Isso cria o risco de pressão vendedora no book de ofertas, que pode:
Conter a valorização das cotas
Provocar quedas temporárias de preço
Gerar ruído e insegurança no mercado secundário
Esse risco aumenta conforme cresce a proporção de cotas concentradas nas mãos de vendedores de imóveis.
Mecanismos usados para reduzir esse impacto
Para mitigar esse risco, contratos de compra e venda costumam prever dois mecanismos principais:
Período de lock-up
O vendedor fica proibido de vender as cotas por um período determinado, que pode variar entre 30, 60, 90, 120 ou até 180 dias. Isso evita uma pressão vendedora imediata após a conclusão do negócio.
Limite de venda diária
Após o fim do lock-up, o contrato pode impor limites para a venda das cotas, como um percentual máximo do volume médio diário negociado. Essa regra impede a “descarga” abrupta de cotas no mercado, suavizando o impacto no preço.
Essas cláusulas geralmente não são públicas, pois fazem parte dos contratos privados, mas sua existência é essencial para preservar a estabilidade do fundo.
O que o investidor deve avaliar antes de tudo
A forma de pagamento não torna uma operação boa ou ruim por si só. O ponto central continua sendo a qualidade do negócio imobiliário.
Antes de qualquer julgamento, o cotista deve avaliar:
Qualidade e localização do imóvel
Solidez do inquilino
Prazo e reajuste do contrato
Preço por metro quadrado
Impacto no portfólio e na diversificação
Proporção de cotas emitidas em relação ao total do fundo
Se o imóvel não fizer sentido, nenhuma engenharia financeira salva a operação. Se fizer sentido, o pagamento com cotas pode ser apenas um detalhe operacional — desde que bem estruturado.
O pagamento de imóveis com cotas próprias se consolidou como uma ferramenta legítima e cada vez mais utilizada pelos fundos imobiliários em um ambiente de crédito restrito e juros elevados. Trata-se de uma solução criativa para destravar negócios que, de outra forma, não aconteceriam.
Para o investidor, o desafio é ir além do rótulo e entender caso a caso. O verdadeiro risco não está no uso das cotas, mas na falta de transparência, no excesso de emissões e na má qualidade dos ativos adquiridos.
Com análise criteriosa, esse modelo pode fortalecer o fundo. Sem ela, pode gerar distorções de preço e frustração no mercado secundário.
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