As ações da Positivo Tecnologia figuram entre as mais descontadas da B3 em 2026. O papel negocia muito abaixo do valor patrimonial, o que naturalmente desperta interesse do investidor em busca de barganhas.
No entanto, a desvalorização não ocorre de forma aleatória. A empresa atravessa um ciclo de deterioração operacional, com queda de receitas, compressão de margens e lucros inconsistentes, fatores que explicam a precificação deprimida.
Modelo de negócios: três frentes, um desafio estrutural
A operação da Positivo está organizada em três pilares principais, cada um com características e riscos distintos.
Distribuição (B2C e pequenas empresas): perda de relevância no varejo
Este segmento atua no fornecimento de computadores, tablets, celulares e periféricos para o consumidor final e pequenos negócios. Em 2026, a relevância dessa frente continua em declínio, pressionada por concorrentes globais consolidados e pela redução da presença da marca no varejo.
Soluções corporativas (B2B): crescimento relativo, mas insuficiente
A frente corporativa envolve hardware, servidores, soluções de TI, segurança, tecnologia educacional e serviços gerenciados. Embora represente a área mais estratégica da companhia, o avanço ainda não compensa a fraqueza estrutural das demais operações.
Setor público e projetos especiais: resultados elevados, porém não recorrentes
Inclui grandes contratos pontuais, como fornecimento de urnas eletrônicas. Esses projetos geram picos de lucro em determinados anos, mas não oferecem previsibilidade nem recorrência, aumentando a volatilidade dos resultados.
Resultados financeiros: queda de receita e eficiência em deterioração
A leitura dos números mais recentes evidencia um cenário operacional desafiador:
Redução da receita líquida na comparação anual
Queda da margem bruta, mesmo com ajustes no custo dos produtos vendidos
Crescimento das despesas operacionais
Retração relevante do EBIT
O efeito combinado resulta em prejuízo líquido acumulado, revertendo um lucro que já havia sido modesto no exercício anterior.
Endividamento: não é crítico, mas exige atenção
A estrutura de capital da Positivo não indica risco extremo, porém apresenta sinais de deterioração:
Dívida líquida próxima de R$ 800 milhões, já descontado o caixa
Relação dívida líquida/EBIT ao redor de 1,9x, pressionada pela queda do resultado operacional
Forte aumento da dívida de curto prazo, que já representa quase metade do endividamento total
Com juros ainda elevados durante boa parte de 2026, a empresa tende a manter despesas financeiras relevantes, mesmo com expectativa de alívio gradual da taxa básica ao longo do ano.
Dividendos: consistentes no passado, questionáveis no presente
Nos últimos anos, a Positivo manteve uma política de remuneração relativamente estável:
Dividend Yield médio entre 6% e 8%, dependendo do preço de entrada
Payout ao redor de 40%, equilibrando distribuição e reinvestimento
Contudo, em um cenário de prejuízo operacional, o pagamento de dividendos perde atratividade estratégica. Em 2026, a continuidade dessa política depende diretamente de uma recuperação consistente dos lucros.
Valuation: desconto histórico não visto anteriormente
O principal atrativo da POSI3 está nos múltiplos de valuation:
| Indicador | Nível em 2026 |
|---|---|
| P/VP | ~0,37 |
| Preço vs. patrimônio | Mercado paga cerca de 37% do valor contábil |
| Margem de segurança patrimonial | Elevada |
Esse nível de desconto reflete a desconfiança do mercado quanto à capacidade da empresa de transformar patrimônio em geração de valor no futuro.
Por que a ação continua caindo mesmo estando “barata”?
A trajetória da POSI3 ilustra um ponto clássico do mercado: preço baixo não garante retorno. Sem crescimento de receita, sem ganho de eficiência e sem vantagem competitiva clara, o desconto tende a persistir.
As valorizações expressivas do passado ocorreram em períodos específicos, impulsionadas por eventos pontuais, e não por crescimento estrutural do negócio.
POSI3 vale a pena em 2026?
Em 2026, a POSI3 se enquadra mais como um ativo de risco elevado e tese especulativa, do que como investimento baseado em fundamentos sólidos. O desconto é real, mas os desafios operacionais também são significativos.
A decisão do investidor passa menos por “quão barata está a ação” e mais por se a empresa conseguirá reverter a tendência de queda de resultados e recuperar competitividade.
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