As ações da Marfrig (MFRG3) acumulam uma valorização expressiva. Em 2025, os papéis chegaram a subir cerca de 45% no ano, enquanto o ganho nos últimos 12 meses supera 130%, refletindo um forte movimento de recuperação após ciclos prolongados de baixa.
Esse desempenho coloca a companhia entre as maiores altas da B3 no período, despertando o interesse de investidores em busca de dividendos elevados e possíveis oportunidades em empresas cíclicas.
No entanto, a leitura dos resultados operacionais mostra que a alta não é homogênea em todas as frentes do negócio.
Operação na América do Norte pressiona margens
Na operação da América do Norte — principal mercado da Marfrig — o cenário segue desafiador. Apesar do aumento de volume e receita, o resultado operacional caiu cerca de 89%, evidenciando forte compressão de margens.
O principal fator é o descompasso entre o custo do gado e o preço de venda da carne. O preço da arroba avançou aproximadamente 12%, enquanto os preços praticados no mercado não acompanharam esse movimento, reduzindo o spread operacional para perto de 3%.
Esse ambiente reforça o caráter altamente cíclico do setor de proteínas bovinas, em que períodos de bonança podem ser rapidamente substituídos por fases de forte deterioração de resultados.
América do Sul mostra desempenho mais equilibrado
Na América do Sul, o cenário é mais favorável. A operação apresenta melhor diversificação entre mercado interno e exportações, o que ajudou a sustentar resultados mais sólidos.
A receita cresceu cerca de 35%, enquanto o Ebitda avançou mais de 50%, indicando melhora operacional relevante frente ao desempenho observado nos Estados Unidos. Ainda assim, essa região, isoladamente, não seria suficiente para justificar o salto recente no lucro consolidado da companhia.
BRF é o principal motor do resultado consolidado
O grande diferencial do atual ciclo da Marfrig está na consolidação dos resultados da BRF, empresa da qual a Marfrig é acionista controladora.
Com a incorporação dos números da BRF, a receita líquida consolidada subiu cerca de 27%, enquanto o Ebitda avançou de aproximadamente R$ 2,6 bilhões para R$ 3,1 bilhões. Na prática, o desempenho da BRF tem sido o principal sustentáculo do resultado da Marfrig.
A BRF agrega diversificação de proteínas (aviária e suína), marcas consolidadas e maior valor agregado aos produtos, reduzindo a dependência exclusiva do ciclo da carne bovina.
Riscos adicionais entram no radar
Apesar da diversificação, existem riscos relevantes no horizonte. Um deles é a gripe aviária, que pode gerar restrições à exportação de proteína avícola brasileira, afetando diretamente os resultados da BRF em determinados mercados.
Além disso, o desempenho da Marfrig permanece altamente sensível:
ao ciclo do gado
à variação cambial, já que parte relevante da dívida é dolarizada
ao comportamento dos preços internacionais de proteínas
Esses fatores aumentam a volatilidade dos resultados e das ações.
Indicadores financeiros mostram força, mas pedem cautela
Mesmo após a forte alta, alguns indicadores ainda chamam atenção:
Valor de mercado: cerca de R$ 21 bilhões
Dívida líquida/Ebitda: aproximadamente 3,2x, indicando alavancagem elevada
Liquidez corrente: 1,22, sugerindo folga financeira de curto prazo
Dividend yield: próximo de 11,8%, acima da média do mercado
Margem Ebitda: cerca de 9%, considerada baixa, mas comum no setor
EV/Ebitda: em torno de 4,7x, múltiplo aparentemente descontado
Apesar disso, em empresas cíclicas, múltiplos baixos podem refletir pico de resultado, e não necessariamente subavaliação estrutural.
Histórico reforça o perfil cíclico da ação
O histórico da Marfrig mostra ciclos claros de:
forte valorização
quedas abruptas
períodos sem pagamento de dividendos
Há momentos de distribuição elevada, seguidos por fases de interrupção total dos proventos. Isso exige do investidor gestão ativa de risco e estômago para volatilidade, especialmente em cenários de reversão do ciclo.
Alta impressiona, mas exige estratégia
A Marfrig vive um momento favorável na Bolsa, impulsionada principalmente pela BRF e pela melhora do resultado consolidado. No entanto, a operação principal de carne bovina ainda enfrenta dificuldades, especialmente na América do Norte.
Para o investidor, trata-se de um ativo que:
pode gerar retornos expressivos e dividendos elevados em ciclos favoráveis
exige atenção redobrada ao risco operacional, alavancagem e volatilidade
não se encaixa em estratégias passivas ou conservadoras
A ação pode fazer sentido em carteiras que compreendem o caráter cíclico do setor e sabem dosar exposição. Para quem não domina esse tipo de dinâmica, o risco de entrar no topo do ciclo permanece elevado.
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