A Cemig atravessa um dos períodos mais intensos de investimento de sua história recente. Com um cronograma robusto que se estende até 2029, a companhia vem aumentando gradualmente sua alavancagem e levantando questionamentos no mercado sobre a sustentabilidade dos dividendos pagos nos últimos anos, que chegaram a dois dígitos.
Trata-se de um movimento relevante para uma empresa considerada estratégica no setor elétrico brasileiro, tanto pela sua dimensão quanto pelo papel econômico que exerce em Minas Gerais e em diversos estados do país.
Empresa integrada e presença nacional ampla
Com mais de 70 anos de história, a Cemig atua de forma integrada em geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica, além da distribuição de gás natural. O grupo é composto por 87 sociedades e 44 consórcios, com ativos espalhados por 24 estados brasileiros e o Distrito Federal.
Somente em Minas Gerais, a companhia atende mais de 9 milhões de consumidores, distribuídos em 774 municípios, o que reforça seu caráter perene e previsível de geração de receita. Esse perfil faz com que a empresa seja frequentemente associada a estratégias de longo prazo e proteção contra a inflação.
Estrutura acionária e controle estatal
A Cemig tem como controlador o Estado de Minas Gerais, que detém cerca de 51% das ações ordinárias, garantindo o controle da companhia. O BNDES também aparece entre os principais acionistas com participação relevante nas ações com direito a voto.
No caso das ações preferenciais (CMIG4), mais de 90% estão em livre circulação no mercado, o que explica a elevada liquidez desses papéis. Entretanto, há uma diferença importante em termos de governança:
CMIG3 (ordinária): cerca de 80% de tag along
CMIG4 (preferencial): 0% de tag along
Esse fator leva parte dos investidores a priorizar as ações ordinárias, apesar do preço mais elevado, em troca de maior proteção em eventuais mudanças de controle.
Valuation: desconto menor e menos margem de segurança
Em 2026, as ações da Cemig deixaram de negociar nos níveis considerados mais atrativos por investidores focados em margem de segurança.
CMIG4 negocia abaixo de 8 vezes o lucro e próxima de 1,1 vez o valor patrimonial
CMIG3 negocia em torno de 10 vezes o lucro e cerca de 1,4 vez o valor patrimonial
O múltiplo EV/Ebitda, atualmente ao redor de 6,5 vezes, está acima da média observada entre 2020 e 2024. Já o P/VPA, próximo de 1,07, se mantém alinhado à média histórica, mas distante dos patamares mais descontados vistos em ciclos anteriores.
Esse conjunto de indicadores sugere que o ativo já não é uma barganha clara, especialmente para quem busca entrada com folga em relação ao preço teto baseado em dividendos.
Dividendos elevados ficaram no passado?
Entre 2021 e 2024, a Cemig apresentou dividend yields expressivos, variando entre 9% e 15%, impulsionados por resultados não recorrentes e menor volume de investimentos em determinados períodos.
No entanto, o cenário mudou. A empresa intensificou seus aportes e, como consequência, a alavancagem começou a subir:
2022–2023: dívida líquida/Ebitda abaixo de 1x
2024: cerca de 1,3x
2025 (até 3T): aproximadamente 1,76x
Embora o nível ainda seja considerado controlado para uma elétrica, ele reduz o espaço para manutenção de payouts elevados de forma contínua.
Investimentos crescentes e foco em distribuição
Os números deixam claro o novo ciclo da companhia:
2018: R$ 950 milhões
2021: R$ 2,1 bilhões
2023: R$ 4,8 bilhões
2024: R$ 5,7 bilhões
2025 (projetado): R$ 6,3 bilhões
Entre 2025 e 2029, o plano estratégico prevê R$ 39 bilhões em investimentos, com forte concentração no segmento de distribuição, que tende a oferecer retornos mais previsíveis, porém menores, quando comparados a projetos de geração.
Esse perfil reforça a visão de crescimento com menor risco operacional, mas limita o potencial de dividendos extraordinários.
Projeções para 2026 e preço teto
Considerando um lucro estimado em torno de R$ 4 bilhões em 2026 e um payout de 60%, o dividendo projetado gira em torno de R$ 0,84 por ação, o que representa um dividend yield próximo de 7,8% aos preços atuais.
Com uma taxa desejada de 8% ao ano, o preço teto estimado fica próximo de R$ 10,48, indicando margem de segurança negativa no momento. Isso não invalida o papel como ativo defensivo, mas reduz sua atratividade para novos aportes focados exclusivamente em dividendos.
Próximo balanço e expectativa de proventos
A Cemig divulga o resultado do 4º trimestre no dia 19 de março, data que historicamente costuma anteceder anúncios de dividendos ou juros sobre capital próprio. Nos últimos anos, a companhia concentrou anúncios entre março e abril, mantendo o padrão de pagamentos parcelados ao longo do ano seguinte.
Apesar da demora tradicional no pagamento dos proventos, o mercado acompanha de perto se haverá novo anúncio relevante após o balanço, ainda que em valores mais moderados.
O que o investidor deve observar
A Cemig segue como um ativo perene, previsível e estratégico, especialmente para carteiras de longo prazo. No entanto, o ciclo atual exige atenção redobrada a três pontos centrais:
Sustentabilidade dos dividendos, agora em patamar mais realista
Evolução da alavancagem, diante do plano agressivo de investimentos
Retorno dos aportes em distribuição, que tende a ser mais estável, porém menos rentável
Em 2026, o papel deixa de ser sinônimo de dividendos extraordinários e passa a ocupar um espaço mais conservador, focado em estabilidade e previsibilidade, com menor margem para surpresas positivas no curto prazo.
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