A ISA Energia surpreendeu o mercado ao antecipar a divulgação de juros sobre capital próprio (JCP) no montante de R$ 44 milhões, algo incomum para o período, já que a empresa tradicionalmente fazia esses anúncios em dezembro. O pagamento será realizado em três parcelas, e após a dedução de 15% de IR, o total equivale a R$ 0,57 líquidos por ação, aproximadamente R$ 0,19 mensais, representando um dividend yield (DY) de cerca de 2,3% na cotação atual.
Apesar de manter sua política de distribuição de 75% do lucro regulatório, a empresa enfrenta lucros menores e custos financeiros mais altos, o que deve limitar o crescimento dos proventos no curto prazo.
O que foi anunciado: valores, forma de pagamento e yield
Montante total: R$ 44 milhões em JCP.
Parcelamento: três pagamentos mensais.
Valor líquido por ação: cerca de R$ 0,19 mensais, totalizando R$ 0,57.
Dividend Yield estimado: aproximadamente 2,3% com base na cotação atual.
Leitura prática: se a ISA Energia repetir um lucro semelhante no segundo semestre, o yield anualizado pode ficar abaixo de 5%, o que reduz o atrativo da ação para quem busca renda recorrente mais elevada.
Por que o anúncio antecipado chamou atenção
Historicamente, a ISA Energia anunciava seus proventos em dezembro, com pagamento entre janeiro e março do ano seguinte. O movimento deste ano rompe esse padrão e pode indicar:
Antecipação parcial dos pagamentos referentes ao primeiro semestre;
Possibilidade de novo anúncio em dezembro de 2025, com proventos para janeiro, fevereiro e março de 2026;
Manutenção do padrão histórico, mas com ajuste de fluxo para acomodar resultados mais pressionados.
Lucro em queda e impacto sobre os proventos
A empresa manteve seu payout de 75% do lucro regulatório, mas o montante distribuído foi menor porque o lucro caiu.
Lucro regulatório (1S25): R$ 593 milhões;
Redução: cerca de 17% na comparação anual;
Principal causa: aumento das despesas financeiras.
O resultado financeiro foi pressionado pelo maior endividamento e pela elevação dos juros, o que ampliou o custo da dívida. No segundo trimestre, o lucro recuou quase 40%, mantendo o padrão de deterioração visto desde o início do ano.
Em síntese, a ISA Energia está distribuindo proporcionalmente o mesmo percentual de lucro, mas sobre uma base menor.
RBSE: a receita que está desaparecendo
A remuneração referente à RBSE — indenizações que as transmissoras recebem — deve se encerrar até junho de 2028, impactando negativamente a receita.
No ciclo tarifário 2025/2026 (julho/25 a junho/26), a Receita Anual Permitida (RAP) da companhia deve crescer apenas 1%, o que é insuficiente para compensar o aumento das despesas.
Essa estagnação da receita tende a persistir até que novos projetos entrem em operação e comecem a gerar retorno.
Investimentos bilionários e crescimento da alavancagem
A ISA Energia está em plena fase de investimentos e execução de projetos:
Projetos greenfield: R$ 7,3 bilhões em obras de novas linhas, com entregas previstas entre 2026 e 2029;
Reforços e melhorias: R$ 5,7 bilhões até 2029 em projetos já autorizados;
Total estimado: cerca de R$ 13 bilhões em investimentos até 2029.
Esses aportes devem trazer ganhos futuros, mas pressionam o balanço no curto prazo.
Alavancagem: subiu de 2,7x para 3,4x;
Dívida líquida: chegou a R$ 12,8 bilhões;
Investimentos médios anuais (2025–2029): R$ 2,9 bilhões por ano — valor superior à geração de caixa operacional.
A consequência direta é um ciclo de lucros menores e proventos mais modestos, até que os novos projetos comecem a gerar receita.
Perspectivas de receita e margens
Com o fim gradual da RBSE e a limitação da RAP, a ISA Energia deve apresentar crescimento modesto da receita e margens menores até meados de 2028.
Mesmo que os projetos greenfield e de reforço gerem retorno médio entre 12% e 17%, o efeito líquido tende a ser compensatório — apenas cobrindo a queda das indenizações, sem impulsionar fortemente os lucros.
Avaliação e indicadores
Valor de mercado: cerca de R$ 17,7 bilhões;
P/L regulatório atual: 9,6x;
P/L projetado (lucro menor): entre 11x e 12x;
P/VPA: 0,78;
Preço da ação: R$ 4,90.
À primeira vista, o múltiplo pode parecer atrativo, mas o cenário de lucros declinantes, dívida alta e receitas estáveis reduz o potencial de valorização.
Nos últimos 12 meses, o lucro regulatório foi de R$ 1,88 bilhão, o que implica dividend yield bruto de 7,8% e líquido de 6,6%, considerando apenas JCP. Se a tendência de lucros menores persistir, esse yield pode recuar para 5% líquidos, reforçando a percepção de retorno moderado.
O novo JCP da ISA Energia mantém o compromisso de distribuir 75% do lucro regulatório, mas o valor de R$ 44 milhões reflete um momento de transição: lucros pressionados, receitas limitadas e forte ciclo de investimentos.
Com o encerramento progressivo da RBSE e o aumento da alavancagem, a empresa tende a oferecer proventos mais baixos nos próximos anos, enquanto direciona recursos para expandir sua capacidade de transmissão.
No longo prazo, a execução dos projetos greenfield e de reforço pode restaurar a rentabilidade a partir de 2028–2029. No curto prazo, porém, o investidor deve esperar menor crescimento e menor retorno em dividendos, mantendo a ação como um case de estabilidade com baixa atratividade imediata.
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