Enquanto a Selic alta leva muitos brasileiros a correrem para a renda fixa “sem pensar duas vezes”, uma crítica vem ganhando força entre analistas: o investidor médio não faz contas e, por isso, se contenta com retornos medíocres — medíocres no sentido literal de “médios”, bem abaixo do que poderia conseguir assumindo riscos calculados.
O comportamento mais comum é fugir de tudo o que parece arriscado e correr para o que parece “seguro”, como LCI, LCA e Tesouro Direto, sem comparar corretamente o potencial de retorno das ações com fluxos de caixa previsíveis, crescimento e dividendos robustos.
Ferramentas simples de análise, como o método de preço teto inspirado em modelos como o de Bazin, quase nunca entram na rotina do pequeno investidor. Em vez de projetar o fluxo de dividendos de uma empresa sólida e comparar com um título público IPCA+ ou um prefixado, a maioria simplesmente olha para a taxa “gordinha” do momento e para na superfície.
Resultado: muitos deixam passar empresas negociadas a preços atrativos, com potencial de retorno real muito acima da renda fixa líquida de impostos.
Dividendos ignorados: o caso de BB Seguridade versus LCA e prefixados
Um exemplo emblemático é a BB Seguridade (BBSE3). Enquanto parte dos investidores trava recursos em LCA isenta de IR ou em títulos prefixados pagando algo em torno de 13% ao ano antes de impostos, muitos ignoram que BB Seguridade vem entregando retornos internos (TIR implícita) estimados na casa de dois dígitos altos, com forte distribuição de dividendos e expectativa de crescimento de lucros.
A diferença fundamental é que, ao comprar ações de uma empresa como BB Seguridade, o investidor:
participa de um negócio rentável e dominante em seu segmento;
recebe dividendos recorrentes, que podem crescer ao longo do tempo;
se beneficia de possíveis ganhos de capital se o mercado reprecificar o papel.
Já o prefixado, além do desconto do Imposto de Renda, oferece um fluxo fixo que não cresce com a inflação nem com o desenvolvimento da empresa. Nesse contexto, torna-se claro por que tantos gestores experientes preferem ações com boa TIR implícita a títulos públicos com IPCA+ 6% ou 7% ao ano: quando bem escolhidas, algumas ações “esmagram” a renda fixa em termos de retorno esperado de longo prazo.
Crescimento x dividendos: o trade-off que o investidor precisa entender
Quando o assunto são ações de crescimento, o dilema muda de figura. Empresas que reinvestem a maior parte do lucro tendem a pagar poucos dividendos hoje, mas podem gerar um valor muito maior no futuro. O problema é que, sem fazer conta, o investidor se assusta:
“Mas essa empresa quase não paga dividendo…”
“Prefiro receber o dinheiro na mão todo mês.”
O ponto central é: ao abrir mão da autonomia de decidir para onde vai o lucro (porque a empresa reinveste nele mesma), o investidor precisa exigir um retorno maior. Isso significa mirar:
ROE/ROI elevados, que mostrem que o capital reinvestido é bem utilizado;
baixa alavancagem, com dívida líquida/EBITDA sob controle, sobretudo em cenário de juros altos;
perspectiva clara de crescimento da receita, do lucro e do fluxo de caixa.
Para quem monta carteira com visão de longo prazo — 20, 30, 40 anos — a lógica é simples: comprar hoje empresas que ainda estão na fase de crescimento para, lá na frente, colher uma fase madura com dividendos robustos e consistentes.
WEG (WEGE3): “a empresa americana listada na bolsa brasileira”
Entre as ações de crescimento citadas como exemplo de qualidade está a WEG (WEGE3). O mercado costuma tratá-la como uma espécie de “Neymar da bolsa”: mesmo quando entrega resultados fortes, a expectativa sempre parece ser ainda maior.
Alguns pontos que explicam o fascínio dos analistas pela WEG:
Modelo de negócio global: a empresa exporta tecnologia, equipamentos e soluções para diversos países, incluindo mercados exigentes como Estados Unidos e Oriente Médio.
Baixa alavancagem: a companhia opera com estrutura de capital sólida, o que reduz o risco financeiro em ciclos econômicos difíceis.
Altíssima rentabilidade: ROE e margens historicamente elevados, indicando capacidade ímpar de transformar investimentos em lucro.
Crescimento consistente: expansão de portfólio, inovação e aquisições estratégicas bem feitas, que reforçam o posicionamento global.
Do ponto de vista de valuation, a WEG raramente parece “barata” em múltiplos simples, como P/L. Porém, quando o investidor calcula o valor intrínseco com base no fluxo de caixa futuro e projeta uma TIR alvo compatível com o risco, surgem faixas de preço consideradas interessantes para entrada — por exemplo, abaixo de patamares como R$ 40, com alguns analistas enxergando maior margem de segurança perto de R$ 35.
A tese é clara: uma empresa que combina crescimento, alta qualidade e disciplina de capital pode continuar criando valor por muitos anos, mesmo que o ponto de entrada exija paciência e atenção à margem de segurança.
Klabin (KLBN): líder de mercado, verticalizada e com TIR que rivaliza com Tesouro IPCA+
Outro caso que desafia a lógica de “fugir de commodities” é a Klabin (KLBN), frequentemente lembrada como uma empresa que:
é líder de mercado em papéis para embalagens, celulose e produtos de alto valor agregado;
opera de forma verticalizada, controlando toda a cadeia: plantio de florestas, produção de celulose e transformação em papel, papelão ondulado e materiais especiais;
possui vantagens competitivas difíceis de replicar: para concorrer de igual para igual, um novo entrante precisaria investir mais do que a própria Klabin vale hoje em mercado;
está posicionada em tendências estruturais, como substituição de plástico por papelão e envelhecimento populacional, que impulsiona a demanda por fraldas descartáveis e produtos de higiene.
Em análises recentes, projeções de TIR implícita em determinados níveis de preço indicam retornos potenciais equivalentes a algo próximo de IPCA + dois dígitos — por exemplo, IPCA + 16% ao ano em cenários otimistas de execução e crescimento de EBITDA a partir de projetos já em andamento.
O desafio de Klabin é o “eterno capex”: sempre que a empresa parece caminhar para virar uma pagadora pesada de dividendos, surge um novo ciclo de investimento bilionário. Isso pressiona curto prazo, aumenta o ceticismo de parte do mercado… e abre janelas de oportunidade para quem acredita no projeto e consegue conviver com volatilidade.
Faixas como R$ 3,50 por ação (no caso de determinados códigos, como KLBN4) são citadas por gestores e analistas como níveis de entrada bastante atraentes, considerando a relação risco x retorno, o que pode equivaler a retornos implícitos significativamente superiores aos de um Tesouro IPCA+ tradicional.
BR Partners: o “mini BTG” que cresce com modelo de parceria
BR Partners (BRBI11) é um nome que vem chamando atenção entre as empresas de crescimento no setor financeiro. A tese combina:
Modelo de negócio focado em banco de investimento, assessoria financeira e soluções para grandes clientes;
Estrutura de parceria: executivos e sócios são remunerados de forma alinhada ao resultado, recebendo mais quando a empresa gera lucro e distribui dividendos;
Controle de custos operacionais: parte do que em outras empresas seria taxa de administração “escondida” na linha de despesas de pessoal, na BR Partners é mais enxuta e diretamente conectada à performance;
Crescimento acelerado de receitas, especialmente em novos braços de negócio, como gestão de grandes fortunas, que pode escalar com alto potencial de rentabilidade e baixo custo marginal.
Para o investidor de longo prazo, a combinação de crescimento de lucro, disciplina de custos e alinhamento com acionistas cria um cenário em que, mesmo ainda sendo uma empresa de crescimento, a BR Partners já distribui dividendos relevantes e pode fortalecer essa característica com o tempo.
Fleury: lições de aquisições ruins e virada de chave na saúde
Fleury (FLRY3) é um caso clássico de como o histórico de decisões de uma empresa influencia a percepção do mercado. No passado, a companhia:
fez aquisições pagando caro demais por ativos com retorno abaixo do custo de capital;
viu parte desses projetos consumir valor do acionista;
enfrentou desafios adicionais na pandemia, quando se esperava um boom nos serviços de diagnóstico.
Esse conjunto de erros levou muitos investidores a evitar o papel, mesmo reconhecendo a qualidade do modelo de negócio: medicina diagnóstica, marca forte, público de maior poder aquisitivo e demanda estruturalmente resiliente (afinal, saúde não é algo que as pessoas cortam facilmente).
Com a incorporação de ativos como Pardini e ajustes de estratégia, Fleury passou por uma transformação importante:
melhorou o perfil das aquisições;
buscou ganhos operacionais e sinergias;
ajustou alavancagem e passou a perseguir retornos mais compatíveis com o risco.
Hoje, a empresa volta a aparecer nos radares como candidata a consolidar ainda mais o setor, com potencial de engolir concorrentes menores e reforçar sua posição de liderança — embora alguns investidores ainda vejam outras oportunidades com custo de oportunidade mais atraente neste momento.
Fazer conta ou aceitar o “arroz com feijão” para sempre?
No fim das contas, a diferença entre o investidor que acumula patrimônio de forma exponencial e aquele que apenas acompanha a média do mercado está, muitas vezes, em algo simples: fazer conta.
Calcular TIR de ações com bom histórico e bons projetos.
Comparar com Tesouro IPCA+, prefixados e CDBs após impostos.
Entender a relação entre risco, retorno, qualidade do negócio e preço pago.
Empresas como BB Seguridade, WEG, Klabin, BR Partners e Fleury mostram que, quando o investidor abandona o medo cego de volatilidade e passa a olhar números, modelo de negócio e horizonte de 20, 30, 40 anos, fica mais fácil enxergar por que muitos gestores dedicados ficam majoritariamente em ações — e só usam a renda fixa como referência de comparação, não como porto definitivo.
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