O ano de 2026 começa com um movimento de rotação dos investidores em direção às ações small caps, impulsionado principalmente pela expectativa de queda da taxa Selic, melhora gradual do cenário macroeconômico e busca por ativos fortemente descontados na bolsa brasileira. Entre os destaques do momento, três empresas chamam atenção por motivos distintos: Banco BMG, Vamos e Romi.
Atuando em setores completamente diferentes — financeiro, logística de veículos pesados e indústria —, essas companhias passaram a concentrar volumes crescentes de negociação, fortes movimentos de valorização e projeções otimistas para médio e longo prazo.
Banco BMG acelera resultados e impulsiona forte valorização na bolsa
O Banco BMG desponta como uma das maiores surpresas positivas entre as small caps do setor financeiro em 2026. Após anos de resultados lateralizados, com margens comprimidas, baixa rentabilidade e até risco de prejuízo em exercícios anteriores, o banco apresentou uma virada clara em sua lucratividade.
O lucro saltou de aproximadamente R$ 279 milhões em 2024 para R$ 410 milhões em 2025, quase dobrando o resultado líquido em apenas um ano. Esse avanço marcou a quebra de um longo período de estagnação operacional, que mantinha as ações profundamente descontadas no mercado.
Mesmo após a recente disparada das ações, o Banco BMG ainda apresenta desconto superior a 40% em relação ao seu valor patrimonial. Em determinados momentos de 2024, esse desconto chegou a 60%, um nível historicamente extremo para instituições financeiras.
Dividendos continuam sendo diferencial do BMG
Apesar de uma leve redução pontual no payout atual (em torno de 60%), o histórico do banco permanece entre os mais consistentes do setor. Nos últimos anos, o BMG manteve dividend yields frequentemente acima de 10%, desempenho raro entre bancos de médio porte.
Com base em projeções conservadoras, considerando payout de 70% e crescimento moderado do lucro, o dividend yield estimado continua próximo de 12% ao ano. O preço teto projetado para esse nível de retorno gira em torno de R$ 5 por ação, valor cada vez mais próximo da cotação atual após a recente valorização.
Além disso, o banco figura entre as ações mais descontadas da B3, ocupando posição de destaque entre as empresas com maior potencial teórico de valorização. Na prática, o mercado passou a corrigir uma distorção histórica de preço à medida que o resultado operacional começou a reagir.
Vamos sobe mais de 50% com aposta na queda da Selic, mas valuation preocupa
Em uma tese completamente diferente, a Vamos chama atenção pelo avanço expressivo de suas ações, que acumulam valorização superior a 50% nos últimos meses, mesmo em meio a um cenário operacional ainda fragilizado.
A empresa, que atua no segmento de locação de veículos pesados, ônibus e equipamentos rodoviários, é hoje um dos maiores players do setor e possui amplo market share. No entanto, seu grande ponto de atenção segue sendo o endividamento extremamente elevado.
A dívida líquida da companhia alcança cerca de R$ 12 bilhões, frente a um patrimônio líquido em torno de R$ 2,6 bilhões, o que representa uma alavancagem próxima de cinco vezes o patrimônio. Do ponto de vista operacional, a margem líquida atual gira em apenas 4%, enquanto o retorno sobre o patrimônio (ROE) despencou para cerca de 5%, muito abaixo dos níveis históricos, que já chegaram a 15%, 18% e até 35%.
Por que as ações sobem mesmo com fundamentos pressionados?
A principal explicação está na perspectiva de queda da Selic. Como a Vamos possui volume elevado de financiamento, qualquer redução relevante do custo do dinheiro gera alívio imediato sobre o resultado financeiro da empresa. O mercado, portanto, antecipa uma melhora futura e começou a precificar essa virada antes mesmo dos números efetivos aparecerem.
Apesar do forte rally, a ação ainda é considerada cara sob diversas métricas, incluindo retorno sobre patrimônio inferior à taxa de juros básica. Além disso, os dividendos seguem baixos, com projeções de yield inferiores a 3%, tornando o papel majoritariamente uma aposta em crescimento e recuperação operacional — e não uma alternativa para renda passiva.
Romi combina alto dividend yield com forte desconto patrimonial
Fechando o trio de destaques, a Romi, do setor industrial, surge como uma small cap híbrida, unindo desconto relevante de valuation com forte histórico de dividendos.
Entre as empresas de menor capitalização, a Romi se posiciona como uma das melhores pagadoras de dividendos da bolsa, com média histórica próxima de 9% ao ano nos últimos cinco anos. Em 2020, chegou inclusive a pagar quase 20% de dividend yield, um nível excepcional dentro do setor industrial.
Mesmo com a empresa atravessando um período de queda consecutiva de lucros desde 2022, a distribuição de proventos permanece saudável, com payout em torno de 56%. Isso significa que pouco mais da metade do lucro é distribuída aos acionistas, mantendo espaço para reinvestimentos.
Dívida exige atenção, apesar do desconto elevado
O principal ponto de risco está na evolução do endividamento. A empresa possui mais patrimônio do que dívida, mas a alavancagem operacional aumentou fortemente devido à queda do Ebitda. Atualmente, a relação dívida líquida/Ebitda se aproxima de 3,8 vezes, indicando que seriam necessários quase quatro anos de geração operacional para zerar a dívida no ritmo atual.
Mesmo assim, o mercado segue atribuindo um forte desconto à Romi. A ação negocia com aproximadamente 40% abaixo do valor patrimonial, além de figurar entre as empresas mais desvalorizadas segundo critérios clássicos de valuation, como o método de Benjamin Graham.
Nas projeções atuais, o preço teto para quem busca dividendos de 8% gira em torno de R$ 8, valor muito próximo da cotação atual. Já pelo critério patrimonial, o preço justo poderia ultrapassar R$ 9,50, indicando margem potencial de valorização.
Três teses distintas, perfis diferentes e impacto direto da Selic
As três small caps analisadas representam perfis completamente distintos de investimento:
Banco BMG: tese de crescimento com entrega de resultados e dividendos elevados;
Vamos: aposta altamente sensível à queda da Selic, com elevado risco financeiro;
Romi: combinação de forte desconto patrimonial com histórico robusto de dividendos, apesar da queda operacional recente.
O ponto comum entre todas é a forte influência do cenário macroeconômico, especialmente da política monetária. Caso a trajetória de queda dos juros se confirme ao longo de 2025, o movimento de valorização dessas ações pode ganhar ainda mais força — embora os riscos continuem elevados, sobretudo nas empresas altamente alavancadas.
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