A Sanepar (SAPR4) vive um dos momentos mais relevantes dos últimos anos no mercado de capitais brasileiro. As ações da companhia de saneamento do Paraná acumulam alta próxima de 69% nos últimos 12 meses, ultrapassando a marca dos R$ 8, movimento que chama atenção mas que, curiosamente, ainda passa despercebido por grande parte dos investidores.
Apesar do rali recente, analistas e investidores que acompanham o ativo desde 2023 avaliam que o papel ainda não precificou totalmente os eventos estruturais em curso, especialmente os ruídos crescentes sobre uma possível privatização, cenário que remete ao que ocorreu com a Copel antes do seu processo de desestatização.
Alta forte, mas ainda longe do “topo”?
Um dos principais argumentos contrários à Sanepar neste momento é o receio clássico de “comprar no topo”. No entanto, quem acompanha o papel desde níveis próximos de R$ 4 — ainda em 2023 — reforça que o alvo de médio prazo permanece em R$ 11, patamar que não foi alterado mesmo após a valorização recente.
O racional é simples: os fundamentos estruturais continuam evoluindo, enquanto o mercado, em geral, ainda reage com cautela por se tratar de uma estatal controlada pelo Governo do Paraná.
Privatização no radar reacende interesse
O principal catalisador por trás do movimento recente é o aumento dos ruídos de mercado envolvendo uma possível privatização da Sanepar. Investidores observam sinais semelhantes aos que antecederam a privatização da Copel, em 2023.
Entre os pontos que reforçam esse cenário estão:
- Discussões políticas no Paraná com discurso favorável à privatização
- Mudança no perfil do investidor estrangeiro, que já detém cerca de 27% do capital da companhia
- Comparações inevitáveis com a Copel, que hoje negocia a mais de 2 vezes o valor patrimonial, enquanto a Sanepar ainda opera próxima de 1x P/VP
Caso o processo avance, o mercado entende que há espaço relevante para reprecificação do ativo.
Valuation ainda chama atenção
Mesmo após a forte alta, os múltiplos da Sanepar seguem considerados atrativos:
- Preço/Lucro (P/L) em torno de 5
- Preço/Valor Patrimonial (P/VP) pouco acima de 1
- Empresa com monopólio regional, receitas previsíveis e contratos de longo prazo
Em cenários de privatização, o mercado costuma aceitar múltiplos mais elevados para companhias de saneamento, o que explica o otimismo de parte dos investidores.
Lucro caiu, mas há explicações
No terceiro trimestre, a Sanepar reportou queda de cerca de 30% no lucro, saindo de aproximadamente R$ 377 milhões para cerca de R$ 260 milhões. O recuo foi impactado principalmente por:
- Aumento expressivo das despesas operacionais
- Provisão de R$ 146 milhões em passivos, ligada a questões envolvendo a GEPAR
- Crescimento de custos recorrentes ano contra ano
Apesar disso, o mercado avalia que esses fatores são pontuais, e que há expectativa de recuperação dos lucros ao longo de 2026, com projeções próximas de R$ 350 milhões por trimestre.
Situação hídrica favorece a companhia
Diferentemente do cenário crítico vivido em 2015, quando os reservatórios chegaram a níveis próximos de 25%, a situação atual é considerada confortável:
- Reservatórios acima de 70% da capacidade
- Período de chuvas favorecendo recomposição dos níveis
- Menor risco de racionamento ou impacto operacional
Esse fator reduz incertezas e fortalece a previsibilidade dos resultados.
Dividendos: baixos hoje, mas com viés de crescimento
A Sanepar não é, neste momento, um ativo clássico de renda. O dividend yield gira em torno de 2%, reflexo de:
- Payout de cerca de 30%
- Lucros pressionados ao longo de 2025
Por outro lado, investidores enxergam o papel como uma ação de crescimento com opcionalidade em dividendos, caso o lucro volte a crescer e uma eventual privatização destrave maior eficiência operacional.
Vendidos estão pressionados
Outro ponto observado no mercado é a redução das posições vendidas (short) no papel. Os dados indicam que:
- Preço médio das posições vendidas está abaixo da cotação atual
- Dias para zeragem dos shorts é inferior a um dia
- Movimento sugere desconforto dos vendidos em meio à tendência de alta
Esse cenário pode reforçar movimentos adicionais de valorização no curto e médio prazo.
Por que a Sanepar ainda “passa despercebida”?
Mesmo com todos esses fatores, a ação ainda não figura entre as mais comentadas do mercado. Especialistas apontam alguns motivos:
- Estigma de estatal
- Falta de cobertura ampla por grandes casas
- Foco excessivo do investidor pessoa física apenas em dividendos imediatos
Enquanto isso, investidores mais atentos enxergam um ativo em processo de reprecificação silenciosa.
A Sanepar vive um momento-chave. A ação já entregou forte valorização, mas os principais catalisadores parecem ainda não totalmente precificados. Privatização, melhora operacional, recuperação de lucros e pressão sobre posições vendidas formam um conjunto de fatores que mantêm o papel no radar de quem olha para 2026.
Para quem acompanha de perto, o alerta está ligado: o mercado pode estar atrasado mais uma vez.
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