A aprovação do PL da Dosimetria, na madrugada desta quarta-feira, pela Câmara dos Deputados, abre caminho para a maior mudança nas regras de cálculo de penas desde a criação da Lei de Execução Penal. O texto, que agora segue para análise no Senado Federal, pode reduzir substancialmente o tempo de prisão de condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, caso seja condenado em definitivo.
Segundo o relator do projeto, deputado Paulinho da Força (Solidariedade), em entrevista ao G1, o tempo previsto de regime fechado para Bolsonaro — hoje estimado em 6 anos e 7 meses — poderia cair para 2 anos e 4 meses com as novas regras de progressão e remissão de pena.
O que muda com o PL da Dosimetria
As alterações atingem diretamente pontos centrais da Lei de Execução Penal e do Código Penal, com impactos imediatos em condenações por crimes relacionados a golpe de Estado, ataques ao Estado Democrático de Direito e participação em multidões que resultem em violência.
Principais mudanças do PL
1. Progressão de regime mais rápida
O percentual mínimo para progressão cai para 1/6 da pena, independentemente do crime.
Antes: exigências variavam entre 1/6, 2/5 e 3/5, dependendo do tipo penal.
Agora: regra uniforme de 1/6, facilitando a saída do regime fechado.
2. Remissão de pena para presos em regime domiciliar
Condenados em prisão domiciliar passam a ter direito à remissão por estudo e trabalho, algo antes restrito ao cumprimento em regime fechado ou semiaberto.
3. Unificação dos crimes de golpe de Estado
Crimes previstos nos artigos de:
Golpe de Estado
Abolição violenta do Estado Democrático de Direito
deixam de acumular penas de forma autônoma, passando a seguir o modelo de concurso formal próprio, reduzindo o somatório final.
4. Novo artigo 359-V — Redução de pena para crimes cometidos em multidão
Um dos trechos mais controversos prevê:
Redução de 1/3 a 2/3 da pena
Aplicável quando o crime ocorre em contexto de multidão
Condição: o condenado não pode ter exercido liderança, nem financiado atos golpistas
Esse dispositivo beneficia diretamente a maior parte dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, especialmente aqueles que não tiveram papel de comando.
Tabela: Comparativo antes e depois do PL da Dosimetria
| Regra analisada | Antes do PL | Após o PL da Dosimetria |
|---|---|---|
| Progressão de regime | 1/6 a 3/5 da pena | 1/6 da pena para todos |
| Remissão em prisão domiciliar | Não permitida | Permitida para estudo e trabalho |
| Acúmulo de crimes de golpe | Penas somadas | Concurso formal (pena única mais branda) |
| Crimes em multidão | Sem redução específica | Redução de 1/3 a 2/3 da pena |
| Impacto estimado na pena de Bolsonaro | 6 anos e 7 meses fechados | 2 anos e 4 meses fechados |
Beneficiados diretamente
O relator afirma que, com o novo modelo de dosimetria, “todos os presos do 8 de janeiro ficariam soltos” após recalcular penas e progressões.
Entre os grupos mais impactados estão:
Condenados que não tinham liderança nos atos
Envolvidos apenas em execução, sem planejamento
Pessoas que já cumprem prisão domiciliar
Acusados enquadrados em múltiplos crimes que agora passam a ser unificados
Por que o PL foi apresentado?
A proposta surge como alternativa após o PL Daniel Silveira perder apoio político e não avançar. O novo projeto, costurado entre partidos do centrão, oferece uma saída negociada para aliviar pressões sobre a pauta carcerária e os julgamentos do 8 de janeiro.
Reações políticas e jurídicas
A aprovação sem ampla discussão pública gerou críticas de membros do Judiciário e de especialistas em direito penal, que veem risco de impunidade e possível anulação de efeitos pedagógicos das condenações.
Já aliados do ex-presidente e parlamentares do centrão tratam o texto como um “alinhamento necessário” da legislação penal para evitar penas consideradas excessivas.
O que acontece agora?
O texto segue para o Senado, onde pode ser:
Aprovado integralmente
Alterado
Ou rejeitado
Se aprovado, seguirá para sanção presidencial. Juristas avaliam que a proposta poderá gerar uma onda de revisões criminais e pedidos de readequação de penas em todo o país.
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