Durante anos, a Torre de Jeda foi vista como um símbolo de ambição excessiva. Um megaprojeto congelado no deserto, com centenas de milhões de dólares imobilizados, obras interrompidas e um futuro incerto. Para muitos especialistas, aquele esqueleto de concreto jamais voltaria a crescer.
Mas, contra todas as previsões, algo mudou.
No fim de dezembro de 2025, a torre ultrapassou discretamente um marco crítico: 80 andares concluídos. O número, por si só, já seria relevante. O que realmente chocou o setor da construção, porém, foi o ritmo atual: um novo andar a cada três dias.
Se essa velocidade for mantida, o prédio poderá atingir 1.000 metros de altura até 2028, tornando-se a estrutura mais alta já construída pelo ser humano.
Um projeto que quase colapsou
A Torre de Jeda não é apenas um arranha-céu. Ela foi concebida como o coração de um empreendimento ainda maior: a Cidade Econômica de Jeda, um projeto avaliado em cerca de US$ 20 bilhões, planejado para ocupar mais de 5,2 milhões de metros quadrados ao longo da costa do Mar Vermelho.
A ideia surgiu em 2008, quando a Arábia Saudita buscava um ícone global capaz de simbolizar poder econômico, inovação tecnológica e abertura ao turismo internacional. Jeda, porta de entrada para Meca e um dos portos mais estratégicos do país, foi escolhida como palco desse marco histórico.
A construção começou, mas em 2018 tudo parou. Problemas financeiros, disputas internas envolvendo o Grupo Binladin e um cenário político delicado levaram à suspensão das obras. A torre inacabada passou a representar, para muitos, um fracasso inevitável.
O retorno improvável
O ponto de virada veio no fim de 2024. O projeto foi oficialmente relançado com novo modelo contratual, apoio financeiro mais sólido e forte respaldo político. Em janeiro de 2025, equipes retornaram ao canteiro de obras enfrentando um desafio inédito: retomar o prédio mais alto do mundo após sete anos de abandono.
Antes de qualquer avanço, auditorias extensas foram realizadas. Engenheiros precisaram verificar se o concreto, as armaduras de aço e as fundações haviam resistido ao calor extremo, à umidade e aos ventos costeiros do Mar Vermelho.
Somente após essa checagem minuciosa a construção em larga escala foi retomada — e, desde então, o avanço tem sido surpreendente.
Engenharia no limite do possível
Concreto que desafia a física
Mais de 250 mil m³ de concreto de alto desempenho já foram utilizados, o suficiente para elevar a estrutura além dos 300 metros. Cada metro cúbico precisa resistir a forças que esmagariam edifícios convencionais.
Bombear concreto acima de 500 metros é um dos maiores desafios logísticos do projeto. As bombas mais avançadas do mundo operam perto do limite físico. Por isso, os engenheiros tomaram uma decisão estratégica:
Nos níveis superiores, o concreto dá lugar ao aço.
Aço para alcançar o céu
Cerca de 80 mil toneladas de aço serão usadas no topo da torre. Essa mudança elimina gargalos logísticos e acelera a construção em grandes alturas. O segmento final — uma espiral técnica com cerca de 350 metros — não será ocupado, mas é essencial para ultrapassar a marca de 1 km e garantir estabilidade estrutural.
Vento, balanço e controle absoluto
A 1.000 metros do solo, o vento deixa de ser apenas um fator ambiental e passa a ser uma força dominante. Simulações indicam que:
O topo pode balançar até 2 metros em ventos extremos
Andares superiores podem se mover cerca de 1,2 metro
Esses números assustam leigos, mas são esperados e controlados em estruturas desse porte. A forma triangular da base da torre não é estética: ela foi projetada para quebrar vórtices de vento e reduzir oscilações perigosas.
A torre não “luta” contra o vento — ela absorve sua energia, flexionando de maneira controlada para evitar danos. 
Uma fundação digna de um gigante
Sustentar cerca de 900 mil toneladas de concreto e aço em solo costeiro macio exigiu soluções extremas:
| Elemento | Dados técnicos |
|---|---|
| Estacas | Mais de 270 |
| Profundidade | Até 110 metros |
| Laje de fundação | ~5 metros de espessura |
| Comparação | Burj Khalifa usa estacas de ~50 m |
Além disso, misturas especiais de concreto e aço foram desenvolvidas para resistir à corrosão salina do Mar Vermelho por décadas.
Logística de precisão cirúrgica
Desde março de 2025, a gestão geral está sob responsabilidade da Turner Construction, que descreve o local como um dos ambientes de obra mais complexos do planeta.
Com um andar surgindo a cada poucos dias, não há margem para erros. O canteiro opera com:
Modelagem 3D avançada
Simulações logísticas em tempo real
Monitoramento digital contínuo
O objetivo é simples: antecipar falhas antes que elas aconteçam.
Elevadores para um quilômetro de altura
Sem elevadores, a torre seria apenas uma escultura gigante. O projeto prevê 59 elevadores, incluindo modelos de dois andares, capazes de transportar até 26 pessoas por viagem.
A grande inovação está nos cabos de fibra de carbono, mais leves e resistentes que o aço tradicional, permitindo trajetos verticais inéditos com mais eficiência e conforto.
A velocidade máxima chega a 36 km/h, considerada ideal para evitar desconforto em viagens extremamente longas. 
Uma cidade vertical no deserto
Quando concluída, a Torre de Jeda abrigará:
Escritórios corporativos
Mais de 400 residências de luxo
Hotel cinco estrelas com cerca de 200 quartos
Restaurantes, spa, academias e piscinas
O destaque máximo será o deck de observação a 630 metros, que deverá se tornar o mais alto do mundo, oferecendo vista panorâmica do Mar Vermelho e de toda a cidade.
Símbolo de uma nova Arábia Saudita
Se o cronograma for mantido, a torre será concluída em agosto de 2028, com pelo menos 173 metros a mais que o Burj Khalifa. Mais do que um recorde, ela simboliza a Visão 2030, plano estratégico que busca diversificar a economia saudita e reduzir a dependência do petróleo.
Enquanto projetos ainda mais ousados — como uma torre de 2 km em Riade — já são discutidos, todas as atenções permanecem voltadas para Jeda.
Um andar a cada três dias.
Uma aposta bilionária.
E uma pergunta que segue no ar: desta vez, a torre chegará até o fim?
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