O Nubank se prepara para dar um passo inédito no setor bancário brasileiro: a integração de stablecoins em seus cartões de crédito. A novidade foi confirmada por Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central e atual vice-presidente do banco digital, durante o evento Meridian 2025.
A iniciativa começa com a USDC, única stablecoin já disponível no aplicativo do Nubank, e promete criar uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e o universo cripto. O movimento acontece em um momento estratégico, após o fim de iniciativas como a Nucoin e a suspensão do cashback do cartão Ultravioleta, que haviam gerado críticas entre clientes.
O peso das stablecoins no Brasil
As stablecoins já são protagonistas no mercado brasileiro. Em 2024, cerca de 90% das transações de criptomoedas no país foram realizadas com moedas digitais atreladas ao dólar, como USDC e USDT. Esse crescimento é ainda mais evidente em países vizinhos como Argentina e Venezuela, que enfrentam inflação descontrolada.
Na Argentina, com índices anuais acima de 100%, mais de 70% das compras de criptomoedas já são feitas em stablecoins, usadas como proteção contra a desvalorização do peso. Na Venezuela, quase metade das transações de cripto até 10 mil dólares envolvem stablecoins, segundo dados recentes.
Esse cenário reforça a importância da decisão do Nubank em testar pagamentos com USDC, trazendo para os clientes brasileiros a possibilidade de dolarizar parte do patrimônio de forma simples, segura e acessível.
Como funcionaria o crédito garantido em cripto
Um dos pontos mais inovadores da proposta é a ideia de oferecer crédito garantido em stablecoins. O Nubank já adota algo semelhante no modelo de “limite garantido”, em que o cliente aplica em um CDB e usa esse valor como garantia para ampliar o limite do cartão.
Com a USDC, o processo seria parecido: o saldo em stablecoin funcionaria como garantia, permitindo ao cliente aumentar seu limite de crédito. Dessa forma, o usuário poderia dolarizar seus investimentos e, ao mesmo tempo, ter acesso a mais crédito para consumo.
Integração entre blockchain e sistema bancário
O grande desafio para o setor financeiro é desenvolver mecanismos que aceitem depósitos em formatos tokenizados. Para Campos Neto, o objetivo vai além dos pagamentos: a ideia é usar ativos digitais como base para concessão de crédito, tornando o sistema mais eficiente e acessível.
Esse avanço também traz benefícios regulatórios. Por ser uma corretora nacional, o Nubank já permite que clientes vendam até R$ 35 mil em criptomoedas por mês sem incidência de imposto de renda, o que aumenta a atratividade do modelo frente a concorrentes estrangeiros.
Benefícios e riscos para os clientes
Entre os principais benefícios dessa novidade estão:
Proteção contra a inflação: a USDC é pareada com o dólar, o que reduz riscos de desvalorização do real.
Rendimento atrativo: no Nubank, a USDC oferece retorno de 4% ao ano.
Liquidez e acessibilidade: basta cerca de R$ 5,33 (valor equivalente a 1 USDC) para começar a investir.
Por outro lado, existem riscos. O uso de stablecoins em cartões pode incluir taxas de spread, hoje em torno de 2% em concorrentes, além de desafios relacionados à regulamentação e à tributação de criptoativos no Brasil.
O que esperar do futuro
O movimento do Nubank não deve parar por aqui. A expectativa é que, além da USDC, outras stablecoins como USDT sejam integradas à plataforma nos próximos anos. Isso abriria espaço para um sistema financeiro híbrido, no qual moedas digitais e crédito tradicional convivem em harmonia.
Com essa estratégia, o Nubank reforça sua posição como o maior banco digital da América Latina e sinaliza uma tendência global: o uso das stablecoins não apenas como reserva de valor, mas como parte essencial do dia a dia dos consumidores.
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