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Início » Últimas Notícias » Klabin está barata ou apenas no meio de mais um ciclo difícil?
Mercados

Klabin está barata ou apenas no meio de mais um ciclo difícil?

Mesmo pressionada pelas condições do setor e pelo ciclo de investimentos, a Klabin começa a mostrar sinais de inflexão que passam despercebidos pelo mercado
Carlos MenezesPor Carlos Menezes13 de dezembro de 20255 minutos lidos
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Klabin
Klabin

A Klabin atravessa um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos na Bolsa, mas os números mais recentes mostram uma empresa que começa a sair da fase mais pesada do ciclo de investimentos e entra, gradualmente, em um estágio de maior previsibilidade operacional. O mercado, no entanto, ainda parece precificar a companhia como se ela estivesse presa a um cenário estruturalmente mais frágil — o que abre espaço para uma leitura mais profunda da tese.

Uma empresa diferente dentro do setor

A Klabin não se encaixa no modelo clássico de “empresa de celulose”. Seu negócio é integrado, partindo das florestas próprias até produtos de maior valor agregado, como papéis e embalagens. Hoje, a composição de receita é relativamente equilibrada entre embalagens, papéis e celulose, o que reduz a dependência de um único vetor de preços e ajuda a suavizar ciclos.

Essa diversificação faz diferença especialmente em períodos de pressão sobre a celulose, quando as operações de embalagens — ligadas ao consumo, ao e-commerce e à substituição de plásticos — tendem a oferecer maior estabilidade de volumes.

O que os números recentes indicam

Nos últimos trimestres, a Klabin mostrou crescimento de receita e avanço do EBITDA, mesmo em um ambiente macroeconômico pouco favorável. O destaque não está apenas nos valores absolutos, mas na origem do resultado: volumes mais fortes, mix mais equilibrado e controle gradual de custos.

Ao mesmo tempo, o lucro líquido segue pressionado por despesas financeiras e efeitos cambiais, o que reforça o caráter cíclico do papel. Ainda assim, operacionalmente, a empresa demonstra capacidade de atravessar o momento sem deterioração relevante de margens estruturais.

Capex: a variável que muda toda a leitura

Se há um ponto central para entender a Klabin hoje, ele se chama capex. Após anos de investimentos pesados, impulsionados por projetos de grande porte, a companhia entrou em uma fase de redução significativa dos desembolsos.

Essa mudança tem impacto direto na qualidade do fluxo de caixa. Com menos recursos sendo consumidos por expansão, a empresa passa a converter uma parcela maior do EBITDA em caixa efetivo, o que cria espaço para:

  • reduzir dívida,

  • estabilizar dividendos,

  • diminuir a percepção de risco financeiro.

Historicamente, foi exatamente essa transição que marcou os melhores momentos de reprecificação da Klabin em ciclos anteriores.

Fluxo de caixa e valuation implícito

Mesmo com um cenário ainda desafiador, a Klabin já apresenta fluxo de caixa livre relevante, em patamares que chamam atenção quando comparados ao valor de mercado atual. Em termos práticos, o mercado paga hoje múltiplos que refletem desconfiança sobre a sustentabilidade desse caixa, e não ausência de geração.

Esse é um ponto-chave da tese: o desconto não está ligado à incapacidade operacional, mas ao receio de que a empresa volte a um ciclo eterno de investimentos. Se o capex permanecer sob controle, essa narrativa tende a perder força.

Alavancagem: ainda elevada, mas em trajetória correta

A alavancagem segue como o principal ponto de atenção. O nível atual não é confortável para uma empresa cíclica, mas o movimento é de melhora, não de deterioração. A combinação de geração de caixa operacional, menor capex e eventuais monetizações de ativos cria um caminho claro para redução gradual da dívida.

Aqui, mais importante do que o número absoluto é a consistência do processo. O mercado costuma antecipar movimentos quando percebe que a desalavancagem deixou de ser pontual e passou a ser estrutural.

Dividendos: previsibilidade acima de euforia

A Klabin mantém sua política de remuneração aos acionistas, mas sem exageros. O perfil segue sendo de dividendos estáveis e compatíveis com o ciclo, não de payouts agressivos.

Essa postura reforça a leitura de disciplina financeira. A empresa prioriza preservar balanço e flexibilidade em vez de maximizar retorno no curto prazo — uma escolha que tende a ser melhor compreendida à medida que o ciclo amadurece.

O papel do banco de terras

Um diferencial pouco debatido é o volume de ativos florestais excedentes, que funcionam como uma espécie de “reserva estratégica”. A monetização dessas áreas, seja por venda direta ou outras estruturas, não depende do desempenho operacional imediato e pode acelerar a redução da alavancagem em momentos oportunos.

Esse fator adiciona uma camada extra de proteção financeira à tese, algo raro em companhias listadas do setor.

Por que o mercado ainda penaliza a Klabin

Apesar dos sinais de melhora, as ações seguem pressionadas. Os motivos são claros:

  • setor historicamente volátil,

  • memória recente de ciclos longos de investimento,

  • sensibilidade ao dólar e a commodities,

  • comparação direta com empresas mais focadas e menos alavancadas.

Esse conjunto faz com que o papel fique para trás em momentos de alta generalizada da Bolsa, mas também explica por que a assimetria costuma surgir justamente nos períodos de maior descrença.

A Klabin vive um momento típico de transição de ciclo. O mercado ainda enxerga o peso do passado recente, enquanto os números começam a mostrar uma empresa mais leve, com capex em queda, caixa mais previsível e estrutura operacional madura.

Não se trata de uma tese de curto prazo nem de uma história de dividendos explosivos. A leitura é de valor construído ao longo do ciclo, com potencial de reprecificação caso a disciplina financeira se confirme e o ambiente macro deixe de ser um vento contrário tão forte.

Em análise, a Klabin hoje parece menos frágil do que o preço sugere — e mais dependente de tempo e execução do que de grandes mudanças estruturais.

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Carlos Menezes
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Carlos Menezes é economista e analista de mercado, com MBA em Finanças pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mais de 15 anos de experiência acompanhando indicadores econômicos e políticas públicas. Na A Revista, analisa juros, inflação, câmbio, economia e mercados, com atenção às fontes dos dados, ao período de referência e aos efeitos para empresas e investimentos.

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