O Google acaba de colocar no ar o Antigravity, uma nova ferramenta que promete ser o “tudo em um” para quem quer criar sistemas e aplicações praticamente sem escrever código. Baseado em um fork do VS Code, o ambiente combina agentes de IA, integração com Gemini 3, suporte a outros modelos populares e até geração de imagens, em um pacote que, por enquanto, está gratuito para uso individual.
Na teoria, o Antigravity é capaz de planejar um projeto, escrever o código, testar no navegador, corrigir erros e ainda produzir imagens via IA, tudo a partir de prompts em linguagem natural. Na prática, porém, os primeiros testes mostram um cenário misto: muito potencial, mas também erros constantes, comportamentos estranhos e dependência de ajustes manuais.
O que é o Google Antigravity e como ele funciona
O Antigravity é apresentado como uma IDE com agente de IA embutido, construída a partir do código-fonte do VS Code. Assim como outros forks conhecidos, como Cursor ou ferramentas baseadas em VS Code, o Google aproveita a interface familiar do editor para adicionar:
Painel de “Agent” com conversas em linguagem natural;
Gerenciador de agentes (Agent Manager) para criar múltiplos fluxos de trabalho;
Workspaces separados, permitindo rodar diferentes projetos e agentes em paralelo;
Integração com navegador, para testar e interagir com as aplicações geradas;
Suporte a múltiplos modelos de IA, incluindo Gemini 3 Pro, Claude 4.5 e GPT.
O modelo padrão destacado é o Gemini 3 Pro High, apresentado como a “melhor IA já criada” dentro do ecossistema do Google. O usuário pode alternar também para outros modelos disponíveis e mudar o modo de operação do agente entre:
Planning – o agente cria um plano detalhado antes de executar;
Fast – a IA sai executando as tarefas de forma mais direta.
Instalação simples, mas com forte dependência da conta Google
Nos testes, o processo de instalação no Windows x64 foi relativamente simples:
Download do instalador no site oficial;
Assistente padrão com opções de criar atalho, registrar o Antigravity como editor de arquivos de código e adicionar o comando ao PATH;
Primeiro acesso com assistente de configuração para escolher:
Tema (modo escuro, por padrão);
Nível de autonomia do agente (desde “faz tudo sozinho” até “sempre pede permissão”);
Estilo do editor (padrão ou com comandos tipo Vim);
Instalação automática de extensões para linguagens como Python, Go, Java, C, C#, PHP, Ruby.
Logo em seguida, o sistema exige login na conta Google, etapa necessária para liberar o uso dos modelos Gemini e demais integrações com a nuvem. A partir daí, o usuário já pode abrir pastas locais, clonar repositórios Git e acionar o painel de agentes.
Gerenciador de agentes e workspaces: vários projetos rodando ao mesmo tempo
Um dos pontos mais interessantes do Antigravity é o gerenciador de agentes, que organiza o trabalho em workspaces independentes. Em cada workspace, é possível:
Criar uma conversa específica com o agente;
Vincular um diretório local ou repositório remoto;
Acompanhar o histórico de ações, planos gerados e arquivos criados;
Ver as tarefas em execução na Inbox, com pedidos de revisão e aprovação.
Nos testes, foram criados dois workspaces simultâneos: um para gerar um simulador de jogo de voo e outro para reconstruir uma landing page baseada em templates de referência. O Antigravity exibiu:
Tarefas em paralelo, listadas como “tasks” em execução;
Pedidos de review e “continue” a cada etapa crítica;
Logs mostrando criação de arquivos, diretórios e comandos executados.
A experiência confirma a proposta de um ambiente voltado para multiagentes trabalhando em paralelo, o que, em teoria, aumenta muito a produtividade em projetos complexos. O problema é que, na prática, os bugs ainda atrapalham bastante.
Testes práticos expõem bugs: landing page, simulador de voo e cubo de Rubik
Na parte prática, a ferramenta foi colocada à prova com cenários reais de desenvolvimento.
1. Landing page completa
O agente recebeu o pedido de reconstruir uma landing page a partir de prints de um template profissional. O plano criado pela IA incluía:
Estrutura HTML completa;
CSS separado com efeitos de hover e animações;
Seções de “hero”, depoimentos, galeria, rodapé e botões de navegação;
Testes automáticos no navegador, com screenshots para validação visual.
O resultado foi misto:
A página foi gerada, com layout funcional e efeitos básicos;
Porém, apresentava bugs visuais, elementos desalinhados e um carrossel de depoimentos que não funcionava;
Em alguns momentos, o agente inseriu o site dentro de uma seção de depoimentos de forma completamente equivocada, mesmo após “corrigir” o código.
Quando o mesmo pedido foi enviado ao Google AI Studio, usando o Gemini diretamente, a landing page foi criada sem erros graves já na primeira tentativa, sugerindo que o problema não está no modelo em si, mas na camada de agente do Antigravity.
2. Simulador de voo em HTML/JavaScript
Outro teste envolveu a criação de um simulador de voo simples, com controles de velocidade e direção, rodando no navegador.
O Antigravity gerou o jogo, abriu o Chrome, testou a aplicação e capturou screenshots;
O agente identificou erros, como velocidade indo ao infinito e falta de controle vertical;
Mesmo assim, não conseguiu corrigir tudo sozinho e chegou a quebrar parte do código ao tentar ajustar a física do voo.
Quando o problema foi enviado para o modelo Claude 4.5 dentro do próprio Antigravity, o cenário melhorou: o simulador passou a funcionar de forma mais estável, ainda que sem perfeição. O contraste reforça a impressão de que o orquestrador de tarefas do Antigravity ainda não está maduro, especialmente na leitura de erros e na tomada de decisão automática.
3. Cubo de Rubik interativo
Um prompt que havia funcionado perfeitamente no Gemini via Google AI Studio, gerando um cubo de Rubik interativo em HTML/JS, foi replicado dentro do Antigravity. O resultado, desta vez, foi uma sequência de erros e travamentos do agente, que não conseguiu concluir o projeto.
Geração de imagens com Nano Banana: integração existe, mas limitações incomodam
Outro componente importante do Antigravity é a integração com o modelo de imagem “Nano Banana” (e sua versão mais recente, Nano Banana Pro), responsável por gerar thumbnails e imagens a partir de prompts.
Na aba de conversas rápidas (playground), foi solicitado:
Geração de duas imagens de thumbnail para YouTube com o tema “Google lança o novo Gemini 3.0”.
O sistema respondeu com:
Imagens visualmente interessantes, mas sempre no formato quadrado (1:1), mesmo quando o prompt pedia 16:9;
Limitação conhecida do Nano Banana, que não respeita resoluções de thumbnail padrão de YouTube;
Erros recorrentes em textos em português nas imagens, algo ainda comum na maioria dos modelos generativos.
O mesmo comportamento se repetiu em um projeto mais complexo, que usava IA para sugerir títulos de vídeo e gerar thumbnails automaticamente: a camada de texto funcionou, mas a parte de imagem exigiu diversas iterações e ajustes na API até produzir um resultado satisfatório.
Projeto real: sistema em PHP e SQLite para criadores de conteúdo
Para ir além de testes pontuais, o Antigravity foi usado para criar um projeto completo: um sistema web capaz de gerar ideias para vídeos de YouTube, reunindo títulos, descrições, tags e uma thumbnail com IA, tudo integrado a um banco de dados SQLite.
O prompt pedia:
Linguagens: HTML, PHP, JavaScript e CSS (para ser hospedado em um servidor tradicional, como Hostinger);
Cadastro e login simples via e-mail e senha;
Integração com a API do Gemini para gerar textos;
Uso do Nano Banana para gerar imagens;
Salvamento automático de histórico de ideias e thumbnails em banco de dados.
O agente do Antigravity:
Criou a estrutura de arquivos (index.php, login.php, register.php, db.php, api.php, dashboard.php e pasta de thumbnails);
Escreveu prompts detalhados para Gemini gerar cinco títulos, descrição completa e tags;
Configurou o uso de SQLite e a lógica de armazenamento;
Mas deixou pontos em aberto:
A função de geração de imagem estava inicialmente apenas com um placeholder, sem chamada real à API de imagem;
Foi necessário editar manualmente o arquivo api.php para inserir corretamente o modelo “Gemini 2.5 Flash Image” (Nano Banana);
Vários ajustes foram feitos depois via próprio agente, a partir de prints de tela mostrando problemas na interface e na exibição dos resultados.
Depois de subir o projeto para uma hospedagem compartilhada, o sistema passou a:
Permitir cadastro e login;
Gerar títulos e descrições com base em uma ideia de vídeo;
Salvar o histórico das ideias;
Criar imagens de thumbnail, ainda com:
Formato inadequado para 16:9;
Erros ocasionais em português nas palavras inseridas na imagem.
Mesmo assim, o caso mostra que a combinação “Antigravity + Gemini + Nano Banana + PHP/SQLite” já é capaz de produzir um produto minimamente funcional para criadores de conteúdo, com intervenção humana pontual nas partes mais sensíveis.
Potencial enorme, mas ainda longe de aposentar ferramentas no-code
A pergunta inevitável é: o Google Antigravity já é capaz de “matar” o no-code tradicional e substituir ferramentas como Cursor, Replit e outras plataformas de desenvolvimento assistido por IA?
Os testes indicam que a resposta, por enquanto, é não:
A ideia de uma IDE com agentes, navegação automatizada e integração profunda com o ecossistema Google é muito promissora;
O suporte a múltiplos workspaces e múltiplos agentes é um diferencial interessante para quem trabalha com vários projetos ao mesmo tempo;
A capacidade de testar no navegador, analisar screenshots e tentar corrigir sozinho aponta para um futuro em que o desenvolvedor se preocupa mais com conceito do que com implementação linha a linha.
Por outro lado:
O agente ainda se perde com frequência em tarefas relativamente simples;
A camada de automação de testes no navegador nem sempre reage corretamente aos erros que ele mesmo identifica;
A integração com a API de imagens exige ajustes manuais e não está pronta para uso “plug and play” em produção;
O comportamento é claramente o de um projeto recém-lançado, ainda em fase de amadurecimento.
Mesmo com todas as falhas, o Antigravity dá um recado claro: o Google pretende aprofundar a integração entre navegador, IDE e IA, e já há pistas de que agentes inteligentes dentro do próprio Chrome podem ser questão de tempo.
O que esperar do Antigravity daqui para frente
Para desenvolvedores, criadores de conteúdo e entusiastas de IA, o Google Antigravity é, ao mesmo tempo, um laboratório de experimentos e um sinal do futuro:
Quem aceitar conviver com bugs e retrabalho pode ganhar tempo em tarefas repetitivas, projetos de estudo e protótipos rápidos;
A ferramenta mostra como agentes de IA podem organizar trabalho em etapas, planos, tarefas e workspaces de forma visual;
Conforme o Google refinar a camada de agente, a integração com o navegador e o suporte a modelos como Gemini 3 e Nano Banana Pro, a experiência tende a ficar bem mais estável.
Por enquanto, o Antigravity é menos o “fim do no-code” e mais um primeiro passo ambicioso do Google em direção a um ambiente de desenvolvimento onde IA, código, testes e design convivem em um mesmo fluxo automatizado — ainda imperfeito, mas cheio de potencial.
Quer saber tudo
o que está acontecendo?
Receba todas as notícias da A Revista no seu WhatsApp.
Entre em nosso grupo e fique bem informado.






