A Klabin é uma das empresas que mais divide opiniões entre investidores da Bolsa brasileira. Para alguns, trata-se de uma companhia excessivamente endividada, cíclica e dependente do preço da celulose. Para outros, é uma das empresas mais verticalizadas do mercado, com visão de longo prazo, disciplina financeira e capacidade única de atravessar ciclos ruins a ponto de ser comparada, por investidores renomados, a uma “renda fixa de longo prazo.
Mas afinal, o mercado está precificando corretamente a Klabin hoje?
Uma análise mais profunda sugere que talvez não.
Endividamento como estratégia, não como fraqueza
O endividamento sempre fez parte do DNA da Klabin. Essa característica, frequentemente criticada por casas de análise, é justamente um dos fatores que mantêm as ações da companhia negociadas a preços considerados atrativos por investidores de longo prazo.
Segundo executivos da empresa, a Klabin construiu uma verdadeira “rede de proteção” em sua política de endividamento, que permite investimentos robustos sem comprometer a saúde financeira. Hoje, a companhia é capaz de realizar investimentos da ordem de R$ 10 bilhões mantendo-se dentro dos parâmetros da sua política financeira.
Outro ponto relevante é o custo da dívida: cerca de 5,3% ao ano em dólar, patamar considerado baixo para padrões internacionais. Desde 2014, a empresa não realizou diluições, o que significa que todo acionista se beneficiou diretamente da expansão da geração de caixa. Em aproximadamente uma década, o EBITDA foi multiplicado por duas vezes e meia.
Essa combinação de capital barato, retorno elevado sobre investimentos (na casa de 14%) e ausência de diluição faz com que a Klabin se aproxime, na prática, do modelo de um private equity com visão de 20 a 30 anos.
Pipeline de crescimento segue ativo
Diferentemente de empresas maduras do hemisfério norte, que reduzem capacidade produtiva, a Klabin segue ampliando seu market share global. O foco atual está principalmente na região Sul do Brasil, com aquisição de terras de alta produtividade e projetos já mapeados para expansão futura.
O mais relevante é que boa parte dos investimentos feitos entre 2021 e 2023 ainda não atingiu seu pico de geração de resultados. Projeções oficiais da companhia indicam um incremento de até R$ 3 bilhões no EBITDA até 2027, apenas com a utilização plena da capacidade instalada.
Lucro pressionado, mas contexto importa
Embora o EBITDA tenha crescido, o lucro líquido sofreu pressão recente. Isso não se deve a ineficiência operacional, mas sim ao ciclo negativo da celulose no mercado internacional.
Empresas de commodities costumam apresentar margens comprimidas quando o preço do produto está baixo e margens elevadas quando o ciclo se inverte. Atualmente, a celulose opera em níveis próximos aos mínimos dos últimos anos, o que reduz a margem líquida mesmo com maior volume de vendas.
A vantagem competitiva da Klabin está na verticalização. Quando o preço da celulose cai, a empresa consegue direcionar produção para papéis, embalagens e produtos de maior valor agregado, protegendo margens e reduzindo o risco de prejuízo algo que concorrentes mais dependentes da commodity pura não conseguem fazer com a mesma eficiência.
KLBN11, KLBN4 ou KLBN3? Liquidez faz diferença
Um ponto frequentemente ignorado pelos investidores é a escolha do ticker.
A KLBN11 (unit) se destaca pela liquidez muito superior cerca de R$ 88 milhões por dia, contra R$ 16 milhões da KLBN4 e apenas R$ 3 milhões da KLBN3.
Além disso, a unit permite estratégias como dividendos sintéticos via opções, muito utilizadas por investidores experientes. Caso o investidor deseje, é possível solicitar o cancelamento da unit e receber as ações que a compõem (quatro preferenciais e uma ordinária), conforme previsto no estatuto da companhia.
Valor intrínseco e projeções conservadoras
Utilizando projeções conservadoras de crescimento do lucro (cerca de 6,6% ao ano), payout ajustado e taxa de desconto próxima à média histórica da Selic, o valuation indica que a Klabin pode estar levemente abaixo do seu valor justo atual.
Mesmo assumindo margens líquidas mais baixas compatíveis com o atual ciclo da celulose o preço teórico da ação aponta potencial de valorização. Caso o ciclo da commodity se reverta e as margens retornem a patamares históricos, o upside se torna significativamente maior.
Importante destacar: o cenário base adotado é conservador, sem considerar expansão adicional de margens, novos projetos anunciados após 2025 ou um ciclo mais favorável da celulose.
O que o mercado pode estar ignorando
O ponto central é que a Klabin está atravessando um momento clássico de empresa de commodities: lucro pressionado, valuation aparentemente elevado nos rankings quantitativos, mas fundamentos operacionais se fortalecendo silenciosamente.
Historicamente, foi justamente nesses momentos que surgiram as melhores oportunidades para investidores pacientes.
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