O mercado brasileiro de automóveis entra em uma nova fase a partir de 1º de julho de 2026, quando carros elétricos, híbridos e híbridos plug-in importados completos passarão a pagar 35% de Imposto de Importação. A mudança encerra o cronograma gradual de retomada da tributação iniciado em janeiro de 2024 e aumenta a pressão para que as fabricantes chinesas ampliem a produção dentro do Brasil.
O avanço dessas marcas já alterou a composição do mercado. Entre janeiro e abril de 2026, foram emplacados aproximadamente 123,1 mil automóveis e comerciais leves de marcas chinesas, equivalentes a 14,7% das vendas nacionais. No mesmo período de 2025, a participação era de 8%, com cerca de 57 mil unidades.
BYD, GWM, Caoa Chery, Omoda Jaecoo, GAC, Geely, Jetour e MG ampliaram a concorrência principalmente nos segmentos de elétricos, híbridos e SUVs. A BYD chegou à liderança do varejo em abril, enquanto o Dolphin Mini se consolidou entre os automóveis mais vendidos diretamente aos consumidores.
Como ficará o imposto dos carros eletrificados
A tributação voltou a ser cobrada de forma progressiva em 2024. Antes disso, veículos eletrificados importados contavam com alíquota zero.
| Tecnologia | Alíquota até junho de 2026 | Alíquota a partir de julho |
|---|---|---|
| Elétrico puro | 25% | 35% |
| Híbrido plug-in | 28% | 35% |
| Híbrido sem tomada | 30% | 35% |
O imposto não incide diretamente sobre o preço anunciado nas concessionárias, mas sobre o valor aduaneiro do veículo. Por isso, um aumento de dez pontos percentuais na alíquota não significa obrigatoriamente alta imediata de 10% na etiqueta.
Mesmo assim, o impacto pode ser ampliado pela incidência posterior de outros tributos, custos logísticos e margens comerciais. As empresas poderão absorver parte da elevação, reduzir descontos ou reajustar apenas modelos com menor volume de vendas.
Concorrência pode impedir aumentos maiores
Apesar do avanço da tributação desde 2024, vários carros chineses mantiveram preços próximos aos valores de lançamento. Isso ocorreu porque as montadoras disputam participação em um mercado que recebe novas marcas e modelos quase todos os meses.
A estratégia envolve margens menores, campanhas promocionais, bônus de fábrica e condições especiais de financiamento. Uma fabricante que repassar integralmente o novo imposto poderá perder consumidores para rivais que absorvam parte do custo.
Por isso, o aumento para 35% não significa que todos os elétricos e híbridos ficarão imediatamente mais caros. O impacto dependerá dos estoques importados, do valor declarado de cada modelo, da política comercial e do estágio de nacionalização da fabricante.
Produção brasileira vira saída para as chinesas
A principal resposta ao aumento do imposto é a montagem local. A BYD opera em Camaçari, na Bahia, com capacidade inicial para 150 mil veículos por ano. O complexo produz Dolphin Mini, King e Song Pro e poderá alcançar 300 mil unidades em uma segunda etapa.
A montadora também anunciou um plano de expansão capaz de elevar a capacidade futura para até 600 mil veículos anuais. Mais de 50 mil carros já haviam deixado a linha de Camaçari até maio de 2026.
A GWM mantém produção em Iracemápolis, no interior de São Paulo. Outras empresas também preparam projetos nacionais. A Geely utiliza sua parceria com a Renault, enquanto a Leapmotor pode aproveitar a estrutura industrial da Stellantis. A Caoa Chery já produz veículos em Anápolis, Goiás.
Inicialmente, algumas operações utilizam os sistemas SKD e CKD. No SKD, grandes conjuntos chegam parcialmente montados. No CKD, o veículo é importado em partes menores e passa por mais etapas industriais no país.
O governo decidiu que veículos desmontados também pagarão alíquota de 35% a partir de janeiro de 2027. A medida aumenta a necessidade de ampliar fornecedores brasileiros, nacionalizar componentes e realizar processos como soldagem, pintura e estampagem dentro do país.
O que muda para o consumidor
No curto prazo, o consumidor poderá encontrar reajustes pontuais e redução de descontos, sobretudo em modelos totalmente importados. Entretanto, a concorrência e a existência de estoques devem evitar uma alta uniforme em julho.
No médio prazo, a tendência é que as marcas priorizem carros montados no Brasil. A mudança poderá estimular empregos e fornecedores nacionais, mas também aumentará o desafio de manter os preços competitivos.
O imposto de 35% representa, portanto, mais do que uma alteração tributária. Ele marca a passagem de uma fase baseada em importações para outra em que as fabricantes chinesas precisarão provar que conseguem produzir em escala no Brasil sem perder a vantagem de preço que impulsionou seu crescimento.
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