O biólogo e apresentador Richard Rasmussen viajou pelos Estados Unidos para entender as diferenças entre o agronegócio americano e o brasileiro. A série de observações mostra que, embora o Brasil tenha vantagens ambientais e de produtividade, os EUA continuam líderes em logística, infraestrutura e planejamento agrícola.
A força da logística americana: ferrovias e hidrovias
Um dos principais destaques é a estrutura logística norte-americana. Enquanto o Centro-Oeste brasileiro depende quase exclusivamente do transporte rodoviário — caro e poluente —, os EUA contam com uma rede integrada de ferrovias e hidrovias.
O exemplo do Rio Mississippi, que corta os estados do chamado Corn Belt (cinturão do milho), mostra como barcaças e trens transportam grandes volumes com baixo custo e menor emissão de CO₂. Uma única barcaça equivale a 1.000 caminhões ou 300 vagões ferroviários, o que reduz drasticamente os custos e os impactos ambientais.
No Brasil, projetos como a Ferrogrão — ferrovia de 1.000 km ligando o Mato Grosso ao Pará — poderiam mudar esse cenário. Segundo Rasmussen, a conclusão da obra reduziria em 40% as emissões de CO₂ do transporte agrícola, economizaria no frete e tornaria os produtos brasileiros mais competitivos.
Atualmente, mais de 20% do custo final de exportação no Brasil vem do transporte, enquanto nos EUA esse percentual varia entre 9% e 11%.
Vantagens brasileiras: clima, rotatividade e preservação ambiental
Se a logística americana é mais eficiente, o modelo produtivo brasileiro apresenta vantagens naturais e ambientais. No Brasil, é possível realizar até três safras por ano na mesma área — algo impossível nos EUA, onde o inverno e a neve limitam o cultivo a uma única colheita anual.
Além disso, o plantio direto — técnica que evita o revolvimento do solo e preserva nutrientes — é amplamente adotado no Brasil, resultando em fixação de carbono, menor erosão e maior fertilidade.
Outro ponto elogiado é o Código Florestal, que exige que produtores preservem entre 20% e 80% da vegetação nativa, dependendo do bioma. Isso faz com que 65% do Mato Grosso, por exemplo, ainda seja floresta, mesmo sendo o maior produtor agrícola do país.
O desafio americano com o meio ambiente
Durante a viagem, Rasmussen também observou diferenças culturais e estruturais. Nos EUA, produtores orgânicos como Chris, de Illinois, usam fertilizantes naturais e compostos de esterco de galinha, obtendo preços até o dobro do convencional. Porém, o país ainda enfrenta sérios problemas de reciclagem e poluição, enviando boa parte de seus resíduos plásticos para a China.
Mesmo com sua tradição agrícola de quase 200 anos, o sistema americano sofre com o escoamento de fertilizantes e nitrogênio nos rios, afetando o ecossistema do Mississippi — problema que o Brasil, em muitos casos, já conseguiu mitigar com regulamentações mais rígidas.
Aprender sem imitar
Para Rasmussen, o futuro do agronegócio brasileiro passa por aprender com os acertos e erros dos Estados Unidos.
“O Brasil precisa investir em ferrovias e hidrovias, mas manter seu compromisso ambiental. Nossa agricultura é mais jovem, mas também mais sustentável”, afirmou o biólogo.
Ele destaca que o Brasil já é referência em produtividade, sustentabilidade e preservação, mas ainda precisa evoluir em logística e infraestrutura de transporte para alcançar o mesmo nível de competitividade global.
A mensagem final é clara: “Não existe futuro sem agricultura, e o Brasil tem tudo para ser protagonista mundial se unir eficiência e responsabilidade ambiental.”
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