Um vídeo recente do educador financeiro Thiago Nigro, o “Primo Rico”, reacendeu uma pergunta que vem incomodando investidores no mundo todo: estaríamos vivendo uma nova bolha financeira, agora em torno da inteligência artificial?
Os números que ele cita chamam atenção:
Nvidia chegou a valer US$ 5 trilhões, tornando-se a empresa mais valiosa do planeta.
A OpenAI, dona do ChatGPT, é avaliada em cerca de US$ 500 bilhões, mesmo com estimativa de prejuízo de US$ 27 bilhões em 2025.
A Palantir acumula alta de cerca de 2.500% desde 2020, negocia a cerca de 400 vezes o lucro e vale mais de US$ 400 bilhões.
Enquanto isso, o termo “AI bubble” (bolha da IA) não para de subir no Google Trends, refletindo o medo de que o mercado esteja repetindo velhos erros: pagar qualquer preço por promessas de futuro.
BOLHAS DO PASSADO: TULIPAS, IMÓVEIS E PONTOS COM
Para explicar o cenário atual, o vídeo resgata três grandes bolhas históricas.
1. Tulipomania (1636–1637): a primeira grande bolha financeira
Na Holanda do século XVII, as tulipas viraram símbolo de status. Algumas variedades raras chegaram a custar o equivalente a uma mansão em Amsterdã.
Pessoas venderam casas, terras e joias para especular com bulbos que nem tinham sido plantados.
Contratos de compra e venda trocavam de mãos diversas vezes antes da flor existir.
Em fevereiro de 1637, num leilão em Haarlem, ninguém apareceu para comprar.
Em poucos dias, os preços caíram 90% e fortunas evaporaram.
Lição: o problema não era a tulipa em si, mas o preço totalmente desconectado da realidade.
2. Subprime (2008): quando a “casa nunca cai” — até cair
Em 2005, o investidor Michael Burry percebeu que o mercado imobiliário americano era insustentável:
Bancos concediam crédito para quem não tinha renda, emprego ou patrimônio (os famosos empréstimos “NINJA”).
Esses financiamentos eram empacotados em produtos complexos (MBS, CDO) vendidos como investimentos seguros.
Famílias compravam casas que não podiam pagar, alavancadas por bancos que assumiam que os preços nunca cairiam.
Burry montou uma posição apostando contra esse mercado. Em 2008, a bolha estourou:
O preço dos imóveis despencou.
Títulos “seguros” viraram lixo.
O mundo entrou na maior crise desde 1929.
Burry ficou famoso, ganhou centenas de milhões de dólares e virou personagem de filme. Mas o alerta permanece: crescimento sem fundamento sempre cobra a conta.
3. Bolha da internet (1995–2000): o “.com” que virou pó
Nos anos 90, a internet prometia mudar o mundo — e, de fato, mudou. Mas o mercado exagerou:
Qualquer empresa com “.com” no nome parecia condenada ao sucesso: pets.com, webvan.com, etc.
Muitas não tinham lucro, nem modelo de negócios claro — apenas crescimento e marketing agressivo.
O índice Nasdaq subiu cerca de 400% entre 1995 e 2000.
Quando os resultados reais começaram a decepcionar, o castelo desabou:
O Nasdaq despencou cerca de 78% em dois anos.
Empresas avaliadas em bilhões passaram a valer zero.
Trilhões de dólares evaporaram.
Enquanto isso, Warren Buffett era ridicularizado por se recusar a investir em negócios que não entendia e que não davam lucro. Depois do estouro, ele foi um dos poucos com caixa para comprar boas empresas a preço de banana.
Tabela comparativa das bolhas históricas
| Bolha | Ativo principal | Ponto em comum | Resultado |
|---|---|---|---|
| Tulipas (1637) | Flores raras | Preços sem relação com valor real | Queda de ~90% em dias |
| Subprime (2008) | Imóveis e crédito | Expansão de crédito insustentável | Colapso global do sistema |
| .com (2000) | Ações de empresas web | Crescimento sem lucro | Nasdaq -78%, falências em massa |
A BOLHA DA IA HOJE: LUCRO, NARRATIVA E DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA
O vídeo argumenta que a corrida da inteligência artificial tem vários ingredientes típicos de bolha, mas também diferenças importantes.
Como funciona a “economia” da IA
Para colocar uma IA generativa como o ChatGPT para funcionar em escala global, são necessárias três camadas:
Chips (GPUs)
Dominados pela Nvidia, que projeta os chips de alto desempenho usados em IA.
Data centers gigantes
Operados por Microsoft, Amazon, Google, Oracle, entre outras, consumindo energia equivalente a cidades inteiras.
Empresas de IA
Como OpenAI, Google (Gemini) e diversas startups que criam os modelos e produtos finais.
O problema é que quase toda a cadeia é extremamente cara e, em muitos casos, ainda não gera lucro compatível com o investimento.
Concentração de risco: a ilha que sustenta a corrida da IA
Um ponto sensível destacado é a dependência extrema de Taiwan:
A maior parte dos chips avançados usados em IA é fabricada pela TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company).
A ilha de Taiwan está no centro de tensões geopolíticas com a China, que reivindica o território.
Para produzir chips de 3 nm, são necessárias máquinas que custam cerca de US$ 400 milhões cada, produzidas por uma única empresa no mundo, a ASML, na Holanda.
Se houver:
bloqueio,
conflito, ou
interrupção relevante na produção,
toda a cadeia de IA ficaria paralisada, afetando Nvidia, Apple, Big Techs e, por consequência, o mercado financeiro global.
OpenAI: meio trilhão de valor, mas sem lucro
A OpenAI é usada como símbolo da assimetria atual:
Avaliação estimada: US$ 500 bilhões.
Receita anual aproximada: US$ 12 bilhões.
Projeção no vídeo: prejuízo de US$ 27 bilhões em 2025.
Usuários semanais do ChatGPT: 800 milhões, mas apenas 6% pagam (algo perto de 48 milhões de assinantes).
Ou seja:
A maioria usa de graça.
Mesmo os pagantes, segundo o vídeo, podem não ser suficientes para cobrir o custo gigantesco de infraestrutura, que “derrete” GPUs 24 horas por dia.
“Dinheiro girando em círculo”: acordos que levantam suspeitas
Outro ponto polêmico citado é o modelo de financiamento:
A Nvidia investe bilhões em empresas de IA.
Essas empresas usam parte do dinheiro para comprar chips da própria Nvidia.
Há acordos em que a empresa de IA paga por chips com ações do próprio fornecedor, que se valorizam com o anúncio do negócio.
Na prática, parece um sistema em que todo mundo passa dinheiro para todo mundo, enquanto:
as ações sobem,
o lucro ainda não apareceu,
e o mercado aposta que, “lá na frente”, tudo vai fazer sentido.
Gasto trilionário em infraestrutura x receita incerta
De acordo com números apresentados no vídeo:
Big Techs como Microsoft, Amazon, Google, Meta e Oracle devem investir cerca de US$ 500 bilhões em 2025 apenas em infraestrutura de IA (chips, data centers, cabos, prédios).
Em cinco anos, o setor de IA poderia gastar até US$ 7 trilhões em infraestrutura.
Uma consultoria citada estima que, para justificar esse volume, as empresas de IA teriam que faturar US$ 2 trilhões por ano até 2030 — mais do que a receita somada de várias gigantes tecnologias em 2024.
Enquanto isso:
A taxa de usuários realmente pagantes é baixa.
Muitos modelos ainda não encontraram modelo de negócio sustentável.
Energia: o próximo gargalo da inteligência artificial
A questão energética também preocupa:
Cada pergunta em um chatbot de IA consome muito mais energia do que uma busca tradicional.
A demanda de energia dos data centers de IA deve quadruplicar na próxima década.
Empresas estão instalando geradores a diesel para dar conta do consumo imediato, muitas vezes driblando regulações ambientais.
Projetos de usinas nucleares podem aliviar o problema — mas:
levam cerca de 10 anos para serem construídas,
mais anos de trâmites regulatórios,
enquanto a IA precisa de energia agora.
INVESTIDORES LENDÁRIOS: MICHAEL BURRY E WARREN BUFFETT VOLTAM AO RADAR
As atitudes de dois grandes nomes chamam ainda mais atenção.
Michael Burry: novamente contra a maré
O mesmo Michael Burry que lucrou com a crise de 2008 estaria, segundo o vídeo:
Apostando contra a Nvidia e a Palantir, por meio de opções de venda (puts).
Investindo cerca de US$ 9,2 milhões em contratos que podem valer até US$ 240 milhões se as ações despencarem até 2027.
Ou ele:
ganha muito, se a tese de bolha se confirmar,
ou perde tudo que colocou nessa estratégia.
Desta vez, porém, há uma diferença:
Ele não gerencia mais dinheiro de terceiros — apenas o próprio patrimônio. Ou seja, não há cotistas pressionando, o que lhe dá liberdade para bancar uma visão contrária por mais tempo.
Warren Buffett: caixa recorde, pouca IA
Já Warren Buffett, que foi chamado de “dinossauro” na bolha da internet por evitar empresas sem lucro, hoje:
Mantém pouquíssima exposição direta a empresas de IA.
Chegou a vender parte das ações de Google.
Detém um recorde de caixa na Berkshire Hathaway, algo em torno de US$ 382 bilhões segundo o vídeo, o maior patamar da história da companhia.
Enquanto muitos correm para participar da “festa da IA”, Buffett parece preferir esperar a poeira baixar, repetindo a lógica que o protegeu em 2000.
É OU NÃO É UMA BOLHA? DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS EM RELAÇÃO AO PASSADO
O vídeo destaca que o cenário é complexo: há elementos de bolha, mas também fatores que tornam a situação diferente de 2000.
Diferenças importantes
Big Techs lucram (e muito):
Na bolha.com, muitas empresas não tinham qualquer lucro. Hoje, Microsoft, Apple, Google, Meta, Amazon e Nvidia geram bilhões em caixa.Adoção real da tecnologia:
Mais de 1 bilhão de pessoas já usam IA, segundo estimativas citadas. Em 2000, apenas cerca de 4% da população mundial usava internet.Menos IPOs e euforia na bolsa:
No auge da bolha.com, os EUA tiveram mais de 500 IPOs em 12 meses. Em 2025, seriam pouco mais de 50 IPOs, um número bem menor. A euforia, ao menos na abertura de capital, é bem mais contida.Investimento em relação ao PIB:
O investimento em tecnologia como % do PIB hoje é menor do que em outros grandes ciclos (como ferrovias no século XIX ou o próprio “boom de hardware” da virada dos anos 2000).
Semelhanças que preocupam
Narrativa irresistível:
Antes: “a internet vai mudar tudo”, “o preço de imóvel nunca cai”, “tulipa é o novo ouro”.
Agora: “a IA é a maior revolução da história”, “quem ficar de fora vai ser engolido”.Desconexão entre preço e fundamento em alguns casos:
Empresas com PL de 400 (como a Palantir, segundo o vídeo).
Startups avaliadas em centenas de bilhões sem lucro e com queima pesada de caixa.
Indicador Buffett em patamar recorde:
O valor de mercado total das empresas americanas, em relação ao PIB dos EUA, teria passado de 200%, segundo o gráfico apresentado. Níveis assim costumam preceder períodos de correção.
Resumo em tabela: bolha ou não?
| Fator | Situação hoje na IA | Lado que pesa mais |
|---|---|---|
| Uso real da tecnologia | Alto, bilhões de usuários | Contra a tese de “pura bolha” |
| Lucro das líderes (Big Techs) | Elevado | Contra |
| Avaliações de algumas empresas | Muito esticadas, sem lucro | A favor da tese de bolha |
| Investimentos em infraestrutura | Trilhão de dólares em poucos anos | A favor |
| Nível de IPOs | Relativamente baixo | Contra |
| Indicadores de valor x PIB | Em níveis recordes | A favor |
A conclusão implícita é:
Não é que a IA seja uma farsa — longe disso. A questão é o PREÇO que se está pagando por essa revolução.
E O INVESTIDOR COMUM? COMO SE PROTEGER DA POSSÍVEL “BOLHA DA IA”
Embora o vídeo tenha um momento claro de oferta comercial da plataforma de educação financeira do autor, algumas mensagens servem de alerta geral para o investidor:
1. Entenda o negócio antes de investir
Fuja da lógica “subiu muito, quero entrar”.
Pergunte sempre:
Essa empresa dá lucro?
Ela tem caminho claro para ganhar dinheiro com IA?
O preço atual faz sentido frente aos lucros esperados?
2. Desconfie de múltiplos irreais
PLs gigantescos podem ser um sinal de expectativa exagerada.
Nem toda empresa que “fala de IA” será vencedora nesse novo ciclo.
3. Diversifique e evite “all-in” em uma tese só
Não concentre todo o patrimônio em uma ação de IA, por mais promissora que pareça.
Considere exposições mais amplas via ETFs, fundos diversificados ou carteiras balanceadas.
4. Cuidado com FOMO (medo de ficar de fora)
FOMO foi combustível nas tulipas, no subprime e na bolha.com.
Ver “todo mundo ganhando dinheiro” em IA hoje não garante que quem entrar tarde sairá ileso.
5. Pense em ciclos longos
Revoluções tecnológicas de fato criam valor no longo prazo.
Mas nem todas as empresas surfistas da onda chegam vivas ao fim — muitas ficam pelo caminho.
A TECNOLOGIA É REAL, O RISCO DE EXAGERO TAMBÉM
A mensagem central do vídeo é clara:
A inteligência artificial é uma revolução legítima e já está mudando o mundo.
O que pode estar em “modo bolha” são alguns preços no mercado de ações e o volume de dinheiro despejado em projetos sem retorno evidente.
A história mostra que:
O problema nunca é a inovação em si. O problema é quando o mercado resolve pagar qualquer preço por ela.
Se o investidor vai encarar esse momento como oportunidade controlada ou como roleta de curto prazo, é uma decisão pessoal — mas ignorar os paralelos com o passado pode sair caro.
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