Uma bicicleta elétrica capaz de alcançar 80 km/h, percorrer longas distâncias e enfrentar ruas esburacadas com suspensão de perfil off-road. Essa é a proposta da GT73 Pro, modelo testado pelo criador de conteúdo GahSantos Tube que, apesar dos pedais, entrega desempenho comparável — e até superior — ao de muitas motocicletas urbanas.
No vídeo, o influenciador apresenta uma unidade desbloqueada equipada com motor de 3.000 W, painel colorido, iluminação completa, pneus largos e banco estendido. Segundo ele, a bicicleta teria sido oferecida por aproximadamente R$ 12 mil mediante cupom promocional, depois de aparecer anunciada por valores de até R$ 24 mil.
O dado que mais chama atenção, porém, está no desempenho: o modelo promete chegar aos 80 km/h no modo de maior potência.
“Dá até medo”, admite GahSantos durante a condução, ao comentar a força da aceleração.
Essa velocidade coloca a GT73 Pro no mesmo território de motos pequenas usadas no trânsito urbano — e cria uma questão importante: pelas regras brasileiras, ela não pode ser tratada como uma bicicleta elétrica convencional quando circula nessa configuração.
Motor de 3.000 W e duas baterias
A GT73 Pro é apresentada oficialmente pela Riding’times como uma bicicleta elétrica voltada principalmente ao uso fora de estrada. O conjunto reúne motor com potência máxima anunciada de 3.000 W e duas baterias removíveis de 60 V, com capacidade conjunta de aproximadamente 36 Ah.
A fabricante informa velocidade máxima de até 50 mph, equivalentes a pouco mais de 80 km/h. A autonomia anunciada pode chegar a cerca de 137 quilômetros usando somente o acelerador, dependendo das condições de condução, do peso transportado, do terreno e da velocidade.
Com auxílio dos pedais, alguns anúncios comerciais falam em distâncias ainda maiores. Esses números, entretanto, representam condições estimadas pelo fabricante e não devem ser interpretados como autonomia garantida em qualquer situação.
No teste brasileiro, GahSantos afirma que a bicicleta pode alcançar cerca de 150 quilômetros sem pedalar e menciona uma estimativa de até 272 quilômetros com assistência dos pedais. Ele também relata ter percorrido aproximadamente 80 quilômetros entre trilhas e vias locais sem observar uma queda significativa no indicador da bateria.
A própria experiência mostrada no vídeo reforça um princípio conhecido dos veículos elétricos: acelerar constantemente entre 60 e 80 km/h reduz consideravelmente a autonomia. Mantendo velocidades próximas de 32 km/h, o consumo tende a ser menor.
Ela corre realmente mais que uma moto?
A resposta depende da motocicleta usada na comparação.
Muitas motos de baixa cilindrada conseguem ultrapassar 80 km/h, especialmente modelos de 110, 125 ou 160 cilindradas. A GT73 Pro, portanto, não é necessariamente mais rápida do que todas elas.
Mesmo assim, seus 80 km/h anunciados superam a velocidade de ciclomotores limitados a 50 km/h e colocam o modelo acima de algumas scooters e motos elétricas urbanas de entrada.
O impacto também é diferente do sugerido pela aparência de bicicleta. Como motores elétricos entregam torque imediatamente, a arrancada pode surpreender quem não está acostumado. No vídeo, o condutor afirma que a aceleração é forte o suficiente para projetar o corpo para trás.
Essa combinação de potência, velocidade e estrutura aproxima a GT73 Pro muito mais de uma pequena motocicleta elétrica off-road do que de uma bicicleta urbana tradicional.
Suspensão enfrenta buracos sem perder o conforto
Outro ponto destacado no teste é o comportamento da suspensão. O modelo utiliza pneus largos de perfil misto, suspensão dianteira e amortecimento traseiro, configuração pensada para terra, lama, areia e pisos irregulares.
Ao passar por uma rua esburacada, GahSantos relata que a GT73 Pro absorve melhor os impactos do que outro modelo elétrico que ele utiliza. O banco comprido também amplia a sensação de conforto e permite acomodar mais de uma pessoa fisicamente, embora o usuário deva respeitar a capacidade de carga e as condições de uso informadas pelo fabricante.
O equipamento ainda conta com farol, lanterna, setas, alerta e painel digital. Na prática, são componentes que reforçam sua aparência de moto — mas sua presença, isoladamente, não torna o veículo regularizado para circular em vias públicas brasileiras.
Pela lei brasileira, isso não é uma bicicleta elétrica comum
É justamente aqui que o comprador precisa redobrar a atenção.
A Resolução nº 996 do Conselho Nacional de Trânsito estabelece que uma bicicleta elétrica deve possuir motor auxiliar de até 1.000 W, funcionar por pedal assistido, não contar com acelerador independente e ter velocidade máxima de propulsão limitada a 32 km/h.
A GT73 Pro mostrada no vídeo tem motor de 3.000 W, acelerador e velocidade anunciada de 80 km/h. Desbloqueada, portanto, ela ultrapassa os critérios aplicáveis às bicicletas elétricas.
O problema não é resolvido apenas reduzindo momentaneamente a velocidade no painel. O enquadramento considera características construtivas como potência, forma de acionamento e velocidade máxima de fabricação.
Os ciclomotores, por sua vez, podem ter motor elétrico de até 4 kW, mas sua velocidade máxima de fabricação fica limitada a 50 km/h. Eles exigem registro, placa, licenciamento e habilitação nas categorias ACC ou A.
Como a GT73 Pro anuncia capacidade para superar esse limite, sua eventual circulação em via pública dependeria de homologação e enquadramento compatíveis com uma categoria superior. Um equipamento importado para uso off-road pode não possuir a documentação necessária para registro no Brasil.
Antes da compra, é fundamental confirmar com o vendedor se o veículo possui homologação, código de marca/modelo/versão, documentação de origem e possibilidade efetiva de registro. Sem isso, o proprietário pode enfrentar fiscalização, autuação e remoção do veículo.
Limitar a 32 km/h deixa o modelo legal?
Não necessariamente.
No vídeo, o condutor afirma que costuma manter a GT73 Pro limitada a 32 km/h e utiliza um modo intermediário que alcança aproximadamente 45 km/h. A redução é positiva para a segurança e ajuda a preservar a bateria, mas não transforma automaticamente um equipamento de 3.000 W com acelerador em bicicleta elétrica perante a legislação.
Para ser reconhecido como bicicleta elétrica, o veículo precisa atender ao conjunto de critérios legais, e não somente circular abaixo de determinada velocidade.
Além disso, alcançar 80 km/h em uma estrutura desse tipo exige equipamentos de proteção adequados, domínio da condução e ambiente compatível. Quedas nessa velocidade podem provocar consequências semelhantes às de um acidente de motocicleta.
Vale pagar cerca de R$ 12 mil?
Como produto recreativo e off-road, a GT73 Pro reúne argumentos fortes: potência elevada, duas baterias, autonomia extensa, pneus largos e suspensão preparada para terrenos ruins.
Para quem procura um veículo destinado a trilhas ou áreas particulares, a proposta pode ser atraente. Já para deslocamentos diários em ruas e avenidas, a situação é mais delicada.
Além do preço, o comprador deve considerar frete, tributação, disponibilidade de peças, garantia, assistência técnica e, principalmente, possibilidade de regularização. O valor aproximado de R$ 12 mil foi mencionado em uma ação promocional ligada ao vídeo e pode mudar conforme vendedor, cupom, impostos e disponibilidade.
A GT73 Pro realmente entrega números capazes de fazer muita moto parecer modesta. Mas o desempenho que torna o modelo tão chamativo também elimina a simplicidade jurídica de uma bicicleta elétrica comum.
Antes de acelerar, é preciso descobrir não apenas até onde ela consegue chegar — mas onde a legislação permite que ela circule.
Quer saber tudo
o que está acontecendo?
Receba todas as notícias da A Revista no seu WhatsApp.
Entre em nosso grupo e fique bem informado.






