A temporada de balanços do terceiro trimestre de 2025 começa sob um pano de fundo atípico para o setor elétrico brasileiro. O consumo de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN) recuou cerca de 2% no período, reflexo direto de condições climáticas mais amenas nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, combinadas com chuvas acima da média no Norte e Nordeste.
Esse cenário reduziu a demanda por refrigeração e impactou negativamente as distribuidoras de energia no trimestre. Ainda assim, a leitura predominante do mercado é de que o efeito foi pontual, com expectativa de normalização já no quarto trimestre.
ENEVA: lucro dispara com despacho térmico
A principal surpresa positiva do trimestre vem da ENEVA. As projeções indicam um lucro líquido estimado em aproximadamente R$ 616 milhões, representando um crescimento próximo de 500% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Principais motores do resultado:
Despacho térmico elevado: média de 33% no trimestre, bem acima dos 14% registrados anteriormente.
Complexo Parnaíba: atingiu nível de despacho próximo a 74%, reforçando a relevância dos ativos térmicos no momento.
Integração de novas usinas térmicas: a incorporação de ativos adquiridos recentemente tende a impulsionar o Ebitda anual em torno de 60%.
Pontos de atenção:
Apesar do resultado expressivo, há riscos relevantes no radar:
Redução de cerca de 31% na geração da usina Futura, em função de modulações do sistema.
Margens do segmento de gás ainda positivas, porém menores que as observadas no trimestre anterior.
O desempenho reforça a capacidade da ENEVA de capturar oportunidades em momentos de estresse do sistema elétrico, mas também evidencia a dependência de fatores conjunturais, como o nível de despacho térmico.
Distribuição e geração: impactos do clima e recuperação esperada
O clima teve papel decisivo no trimestre, afetando principalmente as distribuidoras. A redução do consumo pressionou receitas de empresas do segmento, mas a expectativa é de recomposição gradual da demanda.
Mesmo nesse ambiente, algumas companhias conseguiram sustentar crescimento moderado, apoiadas na expansão de concessões e eficiência operacional, indicando que o impacto climático não foi homogêneo em todo o setor.
Cemig: trimestre mais desafiador
Em contraste com o desempenho da ENEVA, as projeções para a Cemig apontam um trimestre bastante pressionado.
Principais fatores negativos:
Queda estimada de 1,5% no volume faturado, influenciada pela perda de grandes clientes.
Aumento nas provisões para devedores duvidosos (PDD), pressionando o resultado operacional.
Elevação de custos no segmento de geração e transmissão, com impacto direto do GSF (fator de ajuste do risco hidrológico).
Números projetados:
Ebitda estimado em cerca de R$ 1,5 bilhão, representando retração próxima de 5% na comparação anual.
Lucro líquido com queda estimada em torno de 75%, afetado principalmente por maiores despesas financeiras e menor contribuição via equivalência patrimonial, especialmente da participação em Belo Monte.
O conjunto de fatores mostra um trimestre de transição difícil para a companhia, evidenciando sensibilidade maior a riscos operacionais, financeiros e regulatórios.
Comparativo das projeções – 3T25
| Indicador | ENEVA | Cemig |
|---|---|---|
| Tendência de lucro | Forte alta | Forte queda |
| Principal fator | Despacho térmico | GSF e perda de clientes |
| Ebitda | Crescimento robusto | Queda anual |
| Risco predominante | Volatilidade do despacho | Pressão financeira e operacional |
O que o investidor deve observar
As projeções para o 3T25 deixam claro o contraste dentro do setor elétrico brasileiro. De um lado, empresas com perfil mais exposto ao despacho térmico conseguem capturar ganhos expressivos em momentos específicos do sistema. Do outro, companhias mais dependentes de hidrologia, base de clientes e equilíbrio financeiro enfrentam maior volatilidade nos resultados.
Para o investidor, o trimestre reforça a importância de:
Avaliar a qualidade e previsibilidade das fontes de receita;
Entender a exposição climática e regulatória de cada empresa;
Equilibrar oportunidades de crescimento acelerado com os riscos estruturais do setor elétrico.
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