As ações da Raízen (RAIZ4) registram uma queda acumulada superior a 70% em 2025, refletindo o agravamento do endividamento, o aumento dos juros e a crise de confiança no crédito privado. O relatório mais recente da Nord Research aponta que a dívida bruta da companhia saltou de R$ 13,8 bilhões em 2021 para R$ 49,2 bilhões em 2025, impulsionada por investimentos pesados em projetos de longo prazo e pelo custo crescente do capital.
A empresa, vista por muitos investidores como uma aposta de longo prazo até 2035, enfrenta agora o desafio de financiar seus projetos de biocombustíveis em um ambiente de juros elevados e liquidez mais restrita.
Dívida sobe com expansão e Selic alta
A Raízen tem direcionado grandes volumes de capital para projetos de etanol de segunda geração, combustível sustentável de aviação (SAF) e modernização dos canaviais, o que elevou significativamente o capex e reduziu o caixa operacional. O aumento da taxa Selic para 15% em 2025 e a alta do IPCA ampliaram o custo das dívidas indexadas, tanto em reais quanto em dólar.
Os títulos corporativos da companhia, emitidos com vencimentos até 2054, são negociados no exterior com deságio e yield acima de 8%, sinalizando perda de confiança entre investidores institucionais. No lançamento, esses títulos ofereciam retornos próximos a 4%. Essa diferença mostra a percepção de risco crescente associada à empresa.
Mercado desconfia da alavancagem da Raízen
A deterioração dos fundamentos financeiros da Raízen coincide com um efeito de contaminação no mercado de crédito privado, que afeta outras companhias brasileiras altamente alavancadas. Gestores relatam que fundos têm buscado desfazer posições com descontos expressivos, o que pressiona ainda mais os preços de mercado.
Além disso, o aumento das dívidas dolarizadas amplia a exposição cambial e torna o balanço da companhia mais vulnerável à volatilidade externa.
Principais riscos no radar dos investidores
A Nord Research elenca seis pontos de atenção que ajudam a explicar o pessimismo em torno das ações da Raízen:
Diluição de acionistas: risco de agrupamento ou novas emissões, reduzindo o valor por ação.
Fatores climáticos: secas, queimadas e excesso de chuvas prejudicam a produtividade dos canaviais.
Volatilidade das commodities: o etanol subiu 20%, mas o açúcar caiu 25%, reduzindo margens.
Diferenças de preço nos combustíveis: defasagem entre o mercado interno e as referências internacionais.
Desalavancagem lenta: venda de ativos, como usinas em Ribeirão Preto (SP), avança de forma limitada.
Redução de impostos de importação: aumenta a concorrência de produtos estrangeiros e pressiona receitas.
Esses fatores combinados explicam a dificuldade da empresa em reverter o quadro financeiro e melhorar sua geração de caixa.
Analistas divergem sobre o potencial de recuperação
Mesmo com os problemas recentes, parte do mercado ainda aposta na tese de longo prazo da Raízen, apoiada na transição energética e na produção de combustíveis renováveis. O consenso médio dos analistas indica um preço-alvo de R$ 1,98 por ação, enquanto o papel é negociado abaixo de R$ 1,00, o que sugere potencial de valorização superior a 100%.
Contudo, especialistas alertam que essa projeção é otimista demais, já que o endividamento segue em alta e a rentabilidade permanece sob pressão. Nas últimas janelas trimestrais, os acionistas controladores reduziram participação, enquanto o volume de ações alugadas para venda descoberta aumentou, reforçando a percepção de queda no curto prazo.
Para recuperar a confiança do mercado, a Raízen precisará diminuir o ritmo de endividamento, melhorar a geração de caixa e entregar resultados consistentes nos projetos de biocombustíveis. Caso contrário, o risco de novas desvalorizações continuará elevado.
Enquanto os investidores aguardam sinais concretos de recuperação, a empresa enfrenta o desafio de equilibrar seu ambicioso plano de crescimento sustentável com a urgência de restaurar sua solidez financeira. O grande dilema da Raízen, neste momento, é como financiar o futuro sem comprometer o presente.
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