As projeções mais recentes para a economia brasileira apontam IPCA de 4,5% em 2026, acima do centro da meta, e início do ciclo de queda dos juros apenas em março. O desenho do cenário reflete cautela: apesar de existir espaço técnico para reduzir a taxa básica, a combinação de inflação persistente, atividade resiliente e incertezas fiscais limita movimentos mais rápidos.
Por que o corte de juros foi adiado
A inflação projetada cria margem para flexibilização monetária, mas não autoriza pressa. Indicadores de atividade não desaceleraram como esperado, a inflação de serviços segue elevada e a inflação subjacente ainda mostra resistência.
Com isso, o início dos cortes, antes cogitado para janeiro, foi postergado para março, com expectativa de reduções graduais e dependentes dos dados.
O que explica a reaceleração da inflação em 2026
A leitura para 2026 parte do diagnóstico de que os fatores que ajudaram a desinflar 2025 não devem se repetir:
1) Alimentos deixam de ajudar
O arrefecimento de preços em 2025 foi impulsionado por safras robustas e quedas inesperadas em proteínas. Para 2026, o cenário muda:
Menor contribuição do clima favorável
Preços já muito baixos em itens relevantes (arroz, feijão, leite)
Pouco espaço para novas quedas expressivas
Resultado: alimentos voltam a pressionar o IPCA.
2) Câmbio perde o efeito benigno
A estabilidade cambial anterior reduziu repasses aos bens industriais e importados. Em 2026, esse impulso se esgota: com o dólar próximo aos níveis atuais, não há novo ganho desinflacionário via câmbio. Só uma apreciação adicional teria impacto relevante.
3) Serviços permanecem elevados
Serviços carregam inércia inflacionária e refletem reajustes passados. Aluguéis, restaurantes e serviços intensivos em mão de obra continuam pressionados por salários ainda em alta e mercado de trabalho apertado. A expectativa é de serviços ao redor de 6%, muito acima da meta.
Ano eleitoral amplia a volatilidade
Com eleições no radar, o câmbio se torna o principal vetor de risco para a inflação:
Cenário benigno: ambiente político favorável e entrada de capital podem levar o dólar a níveis mais baixos, aproximando a inflação de 3,8%.
Cenário adverso: aumento do prêmio de risco pode empurrar o dólar para patamares mais altos, elevando o IPCA para acima de 5%.
Além disso, medidas pontuais de caráter eleitoral (desonerações, mudanças tributárias, subsídios) podem alterar rapidamente o comportamento dos preços.
Fatores externos no radar
Choques internacionais também podem surpreender ao longo do ano, como:
Oscilações no preço do petróleo
Mudanças no comércio internacional de alimentos
Eventos climáticos extremos
Esses fatores afetam câmbio e preços domésticos, mudando o cenário em poucos meses.
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