O dólar fechou a semana em R$ 5,36, acumulando queda em relação à máxima da semana passada, quando chegou a R$ 5,46. O movimento reflete a perda de valor da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis moedas fortes, além do fluxo de capitais estrangeiros para o Brasil.
Segundo a especialista em câmbio Berenice Dunk, da Dunk Consultoria, a expectativa de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos abre espaço para maior entrada de recursos no país, tanto na bolsa quanto em títulos de renda fixa, favorecendo a valorização do real.
Fatores internos que limitam a valorização do real
Apesar da desvalorização global do dólar, o real encontra limites para uma apreciação mais acentuada devido a:
Incertezas fiscais: déficit público elevado e falta de medidas consistentes de ajuste.
Cenário político: a recente condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo STF já estava precificada, mas gera cautela quanto ao cenário eleitoral de 2026.
Política monetária: o Banco Central brasileiro mantém juros altos (Selic a 15%), mas já projeta cortes graduais até 2026, o que pode reduzir o diferencial em relação aos EUA.
Fluxo de capitais e diferencial de juros
O diferencial de juros segue sendo o grande atrativo para investidores. Enquanto os Estados Unidos caminham para reduzir suas taxas, o Brasil ainda oferece retornos elevados. Isso fortalece o fluxo de dólares para o país e sustenta o real.
A curva de juros futuros na B3 aponta para cortes graduais da Selic, podendo chegar a 14% em 2025 e 13,5% em 2026. Esse ritmo lento de redução mantém o interesse estrangeiro e, ao mesmo tempo, pode estimular o crédito interno, favorecendo a atividade econômica.
Impacto sobre inflação e crédito
Um câmbio mais fraco tem efeito direto no combate à inflação. Isso porque boa parte dos custos da indústria e do consumo é dolarizada, como:
Insumos importados;
Commodities cotadas em dólar, mesmo negociadas internamente;
Energia e combustíveis.
Assim, a queda do dólar ajuda a conter repasses inflacionários. Além disso, a expectativa de juros menores no médio prazo pode aliviar o crédito, hoje limitado pelo custo elevado, e dar fôlego ao consumo e aos investimentos.
Reflexos para o agronegócio
O agronegócio brasileiro sente a variação cambial de forma ambígua:
Custos: defensivos agrícolas e insumos importados ficam mais caros quando o dólar sobe, reduzindo margens.
Receitas: exportações de commodities são beneficiadas pelo câmbio mais alto, pois os preços são dolarizados.
A recente queda do dólar pode aliviar custos de produção, mas também reduzir a receita dos exportadores. Para equilibrar riscos, empresas do setor têm buscado diversificação de mercados, reduzindo a dependência das exportações para os Estados Unidos, ainda sob impacto de barreiras tarifárias.
Perspectivas para as próximas semanas
Com o corte de juros nos EUA cada vez mais próximo, o mercado deve manter o dólar em trajetória de baixa no curto prazo. Entretanto, analistas reforçam que não há fundamentos internos para que a moeda norte-americana caia abaixo de R$ 5,00, uma vez que o quadro fiscal brasileiro continua frágil.
Se confirmada a redução dos juros pelo Fed, o real pode ganhar novo impulso, desde que o Brasil mantenha uma trajetória de inflação controlada e avance em políticas que transmitam maior confiança ao investidor estrangeiro.
A queda do dólar para R$ 5,36 reflete, sobretudo, o cenário externo de juros mais baixos e entrada de capital estrangeiro. No entanto, as fragilidades fiscais e políticas do Brasil impedem uma valorização mais robusta do real. Para o mercado e para a população, o movimento traz alívio inflacionário e pode melhorar o crédito, mas exige cautela quanto às perspectivas de médio prazo.
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