O dólar iniciou fevereiro de 2026 cotado em torno de R$ 5,19, acumulando queda próxima de 6% no ano. O movimento levou a moeda ao menor patamar desde maio de 2024, após atravessar todo o segundo semestre de 2024 e o ano de 2025 acima da faixa de R$ 5,40 a R$ 5,50.
A desvalorização recente reacendeu dúvidas no mercado sobre uma possível perda estrutural de força do dólar ou se o movimento representa apenas mais um ciclo dentro da dinâmica global de oferta e demanda por moeda.
Entrada de dólares no Brasil pressiona o câmbio
A lógica por trás da queda é direta: há mais dólares entrando no Brasil do que saindo. Esse fluxo ocorre quando investidores globais encontram incentivos para deslocar capital de economias centrais para mercados emergentes.
Em 2026, o Brasil passou a se destacar nesse processo, mas não de forma isolada. Outros emergentes também recebem parte desse capital, indicando um movimento mais amplo de redistribuição global de recursos.
Incertezas nos Estados Unidos enfraquecem o dólar globalmente
O principal vetor da desvalorização do dólar não está no Brasil, mas nos próprios Estados Unidos. O cenário atual combina fatores políticos, econômicos e institucionais que aumentaram a percepção de risco entre investidores internacionais.
Entre os pontos que pesam sobre a moeda americana estão:
Escalada de tensões comerciais com novas disputas tarifárias
Conflitos institucionais envolvendo o Federal Reserve, com tentativas de interferência política na condução da política monetária
Mudanças em políticas fiscais e de crédito, como limites para juros cobrados no cartão de crédito
Tensões geopolíticas, envolvendo disputas territoriais e conflitos diplomáticos recentes
Esse conjunto de fatores reduziu a confiança na moeda americana como destino exclusivo de capital no curto prazo.
Índice DXY confirma perda de força do dólar no mundo
O enfraquecimento não ocorre apenas frente ao real. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar contra uma cesta de moedas fortes como euro, libra e iene, mostra recuo consistente.
2026: queda próxima de 2%
Últimos 12 meses: desvalorização acumulada em torno de 11%
Isso indica que o movimento é global. O real se valoriza mais porque reúne características específicas que ampliam o efeito do fluxo de capitais.
Ouro e prata disparam com busca por proteção
A perda de confiança no dólar impulsionou ativos considerados reserva de valor. Em 2026, os números chamam atenção:
Ouro: alta superior a 24% no ano e quase 94% em 12 meses
Prata: valorização acima de 63% em 2026 e mais de 280% em 12 meses
O movimento reflete compras intensas de bancos centrais e investidores institucionais, reforçando o cenário de busca por proteção fora da moeda americana.
Dólar mais fraco tem efeitos positivos e negativos para os EUA
A desvalorização do dólar não é necessariamente ruim para a economia americana. Um câmbio mais fraco torna produtos dos Estados Unidos mais competitivos no exterior, estimulando exportações e atividade econômica.
Por outro lado, importações ficam mais caras, pressionando custos internos e reduzindo a atratividade da moeda como reserva global no curto prazo. Esse equilíbrio costuma ocorrer em ciclos, já observados outras vezes na história recente.
Por que o Brasil se destaca entre os emergentes
Além do cenário externo, o Brasil reúne fatores domésticos que amplificam a valorização do real:
Selic em patamar historicamente elevado
A taxa básica de juros está em 15% ao ano, o maior nível desde 2017. Juros altos aumentam a atratividade de aplicações em renda fixa e ativos locais.
Expectativa de queda gradual dos juros
Mesmo com projeções de redução ao longo de 2026, o mercado trabalha com encerramento do ano acima de 12%, ainda um patamar elevado em termos globais.
Inflação em desaceleração
A inflação acumulada em 12 meses recuou de 5,5% em abril de 2025 para 4,2% no fim de 2025, abaixo da meta de 4,5%. Inflação mais controlada reforça a confiança no país.
Juros reais entre os maiores do mundo
Com juros elevados e inflação em queda, o Brasil oferece taxa de juros real próxima de 9,5% a 9,7%, ficando atrás apenas da Turquia. Em comparação, os Estados Unidos operam com juros reais próximos de 0,2%.
Destino do capital estrangeiro: bolsa brasileira em destaque
Grande parte dos dólares que entram no país migra para a Bolsa brasileira. Em 2026, o desempenho chama atenção:
Ibovespa: alta superior a 15% apenas em janeiro
Valorização em 12 meses: próxima de 50%
Os principais destinos do capital estrangeiro são ações de Petrobras, Vale e grandes bancos, setores com liquidez, dividendos elevados e forte peso no índice.
O movimento se repete em outros emergentes: Colômbia, Chile e México também registram ganhos relevantes em suas bolsas no início de 2026.
O dólar pode cair mais ou o movimento é temporário?
Historicamente, ciclos de enfraquecimento do dólar tendem a ser temporários. Eles funcionam como um mecanismo de redistribuição global de crescimento, fortalecendo economias periféricas antes de uma reversão.
O cenário atual é favorável ao Brasil, mas não é permanente. A bolsa não sobe indefinidamente, nem o real se valoriza sem limites. Além disso, o próprio calendário político e fiscal brasileiro ao longo de 2026 tende a reintroduzir volatilidade no câmbio.
Dólar a R$ 5,19 é oportunidade?
Dentro desse contexto, o nível atual é visto por muitos investidores como ponto estratégico para diversificação internacional. Mesmo que a moeda recue mais no curto prazo, o histórico mostra que ciclos de apreciação do real costumam ser seguidos por reversões fortes.
O principal risco não está em comprar dólar em momentos de fraqueza, mas em ficar exposto apenas ao mercado doméstico quando o ciclo global muda.
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