A Marcopolo (POMO4), uma das maiores fabricantes de carrocerias de ônibus do mundo, voltou com força ao radar dos investidores. Depois de acumular queda superior a 20% em 12 meses, enquanto distribui quase R$ 1 por ação em dividendos e JCP em 2025 e exibe um dividend yield próximo de 20%, muitos investidores enxergam no papel uma combinação rara de renda alta, fundamentos sólidos e preço descontado.
Ao mesmo tempo, a empresa apresentou recorde de receita, margens ainda saudáveis e alavancagem industrial praticamente zerada, o que reforça a tese de que a recente correção na Bolsa pode ter mais a ver com ajustes de expectativas do mercado do que com uma deterioração estrutural do negócio.
Quem é a Marcopolo e por que ela é quase um “monopólio” do setor
A Marcopolo é referência global na produção de carrocerias de ônibus, com atuação em ônibus urbanos, rodoviários, micro-ônibus, escolares e modelos de alto valor agregado. Sua base produtiva não está restrita ao Brasil: a empresa tem presença relevante em toda a América do Sul, América do Norte (via exportações), África e Oceânia, com destaque para operações na Austrália, Argentina e África do Sul, que vêm ganhando espaço na receita consolidada.
No mercado brasileiro, a companhia figura entre as líderes absolutas em segmentos como rodoviários e urbanos, com participação relevante em programas governamentais e renovações de frota. Em alguns nichos, a combinação de escala, tecnologia e rede de atendimento faz com que, na prática, a empresa opere quase como um “monopólio de fato”, com forte poder de marca e histórico de relacionamento com grandes frotistas e governos.
Recorde de receita em 2025, mas lucro pressionado por eventos não recorrentes
No 3º trimestre de 2025, a Marcopolo registrou:
Receita líquida: R$ 2,5 bilhões, alta de 8,2% em relação ao 3T24
Lucro bruto: R$ 668,7 milhões, com margem bruta de 26,7%, acima do ano anterior
EBITDA: R$ 419,8 milhões, com margem de 16,8%
Lucro líquido: R$ 329,6 milhões, queda leve de 1,8% vs. 3T24, com margem de 13,2%
O motor desse crescimento veio fora do Brasil. Enquanto a receita doméstica caiu 15,2%, impactada pelo crédito mais caro e demanda mais fraca, as exportações a partir do Brasil cresceram 43% e as receitas das operações internacionais avançaram mais de 50% na comparação anual.
Além disso, o EBITDA foi pressionado por efeitos não recorrentes, em especial um impairment relacionado a uma coligada estrangeira, que afetou a linha de equivalência patrimonial. Sem esse impacto, o EBITDA ajustado teria apresentado crescimento de dois dígitos, com melhora de margem, o que reforça a percepção de que a operação core continua forte, apesar do lucro contábil ter cedido ligeiramente.
Dividendos perto de 20%: o que explica o “dividend yield de respeito”
O grande chamariz de POMO4 em 2025 é o dividend yield próximo de 20% nos últimos 12 meses, muito acima da média do setor de bens industriais e da própria Bolsa.
Alguns pontos explicam esse número:
A ação negocia em torno de R$ 6,40–R$ 6,50, após forte correção recente.
A empresa anunciou remunerações generosas em dividendos e JCP, incluindo uma rodada que somou cerca de R$ 0,78 por ação (R$ 0,69 em dividendos + R$ 0,09 em JCP), com pagamento previsto para 15 de dezembro de 2025, para quem detinha as ações até a data-com de 24 de novembro.
Somando as distribuições dos últimos meses, o total pago em proventos no período de 12 meses beira os R$ 0,50–R$ 1 por ação, dependendo da janela analisada, o que, sobre a cotação atual, gera um DY de quase 20%.
É importante destacar que parte desses proventos é extraordinária, fruto de um momento de lucros elevados e balanço robusto. No longo prazo, o padrão histórico de payout da Marcopolo gira na casa de 40% a 60% do lucro, o que ainda assim permitiria um yield recorrente interessante, na faixa de 6% a 9% ao ano, dependendo da cotação e do lucro futuro.
Dívida líquida industrial perto de zero e geração de caixa forte
Do ponto de vista de risco financeiro, a Marcopolo se destaca:
O endividamento financeiro líquido total somava cerca de R$ 1,28 bilhão em setembro de 2025, mas a maior parte está concentrada no Banco Moneo (braço financeiro da companhia).
Quando se olha apenas para o segmento industrial, a empresa apresenta dívida líquida de cerca de R$ 69,5 milhões, o que corresponde a apenas 0,05x o EBITDA dos últimos 12 meses – na prática, um nível de alavancagem quase nulo.
A posição de caixa consolidada supera R$ 1,9 bilhão, com forte geração de caixa operacional no 3T25.
Isso significa que a empresa não depende de endividamento pesado para crescer e tem espaço para manter ou até aumentar a distribuição de proventos, se a administração entender que não há projetos de investimento mais rentáveis do que devolver capital ao acionista.
A queda do lucro não é perda de fundamento?
Uma das principais dúvidas do investidor é: se a empresa bate recorde de receita e melhora margens brutas, por que o lucro líquido não cresce na mesma proporção?
Os números do 3T25 mostram que:
A receita líquida subiu 8,2%, puxada por exportações e operações externas;
O lucro bruto cresceu quase 16%, com ganho de margem;
O EBITDA e o lucro líquido recuaram na comparação anual, influenciados por:
Impairment e perdas na equivalência patrimonial de coligadas (especialmente uma operação no exterior);
Aumento de despesas com vendas e administrativas, compatível com maior escala e estrutura global;
Efeitos pontuais em resultado financeiro e tributário.
Ou seja, a queda do lucro não está associada a um colapso da operação principal, mas a eventos contábeis e não recorrentes, além de ajustes em coligadas. Ao mesmo tempo, indicadores de rentabilidade como ROIC (25%) e ROE (cerca de 30%) seguem em patamares bastante elevados para o padrão da Bolsa brasileira.
Valuation: P/L de 6x, P/VP de 1,6x e potencial de alta segundo analistas
Na cotação atual, por volta de R$ 6,50, POMO4 negocia a:
P/L em torno de 6x
P/VP de cerca de 1,6x
Dividend yield de 19%–20% nos últimos 12 meses
Relatórios de mercado e consensos de analistas apontam que:
O preço-alvo médio para os próximos 12 meses gira em torno de R$ 10,60, o que implicaria um potencial de alta superior a 60% sobre a cotação atual;
Há “compra forte” no consenso, com a maioria dos analistas recomendando compra e poucos recomendando apenas manutenção;
Casas como Safra e outros bancos de investimento veem a Marcopolo como uma das principais apostas do setor de bens de capital para 2026, apoiadas em demanda consistente por ônibus e continuidade de margens acima da média.
Esse cenário reforça a ideia de que a ação combina desconto frente ao preço-alvo, rentabilidade elevada e fundamentos sólidos – mas, como sempre, sem garantia de que o mercado reconhecerá esse valor no curto prazo.
Onde está o risco para o investidor?
Apesar do quadro atrativo, há riscos que o investidor não pode ignorar:
Dependência do ciclo econômico e do crédito: ônibus são bens de alto valor; juros altos e crédito restrito pesam sobre a demanda interna, como já visto em 2025.
Exposição a mercados internacionais: embora seja uma força (diversificação), também expõe a empresa a volatilidade cambial, mudanças regulatórias e ciclos de demanda em outros países.
Impostos e ambiente de negócios no Brasil: o setor industrial sofre com carga tributária elevada ao longo de toda a cadeia produtiva, o que limita margens e competitividade.
Dividendos extraordinários não são garantidos: o yield perto de 20% não deve ser encarado como promessa recorrente, já que depende de decisões da diretoria, resultados futuros e de como a companhia escolherá usar sua folga de caixa.
Oportunidade em uma combinação de baixa com dividendos altos
O quadro atual da Marcopolo (POMO4) junta vários elementos que chamam a atenção:
Ação com desconto relevante após forte correção;
Dividend yield próximo de 20% nos últimos 12 meses, com proventos robustos anunciados para dezembro;
Operação global em expansão, com recorde de receita e margens brutas em alta, puxadas por exportações e unidades no exterior;
Dívida industrial muito baixa e bons indicadores de rentabilidade;
Consenso de preço-alvo bem acima da cotação atual.
Para o investidor que aceita volatilidade típica de small caps industriais e entende que parte dos dividendos atuais é extraordinária, Marcopolo volta a aparecer como uma das candidatas mais comentadas quando o assunto é “ação barata que paga bons dividendos”. Como sempre, a decisão final passa por alinhamento ao perfil de risco, horizonte de investimento e diversificação de carteira.
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