Com o Ibovespa na região dos 186 mil pontos, muitos investidores passaram a garimpar oportunidades fora do radar das blue chips. Nesse cenário, a Marcopolo (POMO3) voltou ao centro das atenções.
A empresa entregou aproximadamente 20% de dividend yield nos últimos 12 meses, realizou bonificação relevante superior a 10% no fim do ano passado e ainda negocia a múltiplos considerados baixos para o padrão de qualidade apresentado.
Mas será que ainda existe margem de segurança?
Indicadores que chamam atenção no radar do investidor de longo prazo
A Marcopolo apresenta um conjunto de fundamentos que agrada ao investidor buy and hold:
- P/L de 6,4 vezes
- ROE próximo de 30%
- Margem líquida acima de 13%
- Dívida líquida/EBITDA de apenas 0,74x
- Free float de 74% e boa liquidez diária
- Midcap com valor de mercado próximo de R$ 8 bilhões
Trata-se de uma empresa que, nos últimos anos, mostrou crescimento consistente de receitas e lucros, além de forte geração de caixa.
Se projetarmos crescimento de lucro na faixa de 10% ao ano, o múltiplo implícito cairia para algo próximo de 5,5 vezes lucros, um patamar raríssimo para empresas com esse nível de rentabilidade.
O que mudou nos resultados mais recentes?
No 3º trimestre de 2025, a empresa apresentou:
- Crescimento de 8% na receita operacional líquida
- Forte avanço das receitas no exterior (+51%)
- Retração de 15% no mercado interno
- Queda da margem EBITDA de 20% para 16,8%
- Lucro líquido estável na comparação anual
A retração doméstica ocorreu em meio à queda de cerca de 10% na produção de veículos pesados no Brasil. Entretanto, a companhia compensou com crescimento robusto nas exportações e operações internacionais.
Essa diversificação geográfica é hoje um dos grandes diferenciais da empresa.
Expansão internacional vira motor de crescimento
A Marcopolo tem ganhado espaço no mercado americano e ampliado sua presença global. Esse movimento reduz dependência do ciclo econômico brasileiro e cria novas avenidas de crescimento.
A receita internacional já representa parcela relevante do faturamento, funcionando como hedge natural contra fraquezas internas.
BlackRock eleva participação e reforça tese
Outro ponto que movimentou o mercado foi o aumento de participação da BlackRock, que passou a deter mais de 5% das ações preferenciais da companhia.
A gestora informou que o movimento tem caráter exclusivamente de investimento, sem intenção de alterar controle ou estrutura administrativa. Ainda assim, o gesto reforça a percepção de valor destravável na companhia.
Riscos no radar: setor cíclico e pressão de margens
Apesar do valuation atrativo, é preciso ponderar:
- O setor de carrocerias de ônibus não é perene.
- Há retração na demanda doméstica por veículos pesados.
- Margens operacionais sofreram compressão recente.
- Bonificações e dividendos elevados impactam o caixa futuro.
Ou seja: a ação pode estar barata, mas não está “de graça”.
Bradespar: desconto atrativo ou risco oculto?
Outra empresa que entrou no debate dos investidores foi a Bradespar, holding que possui participação relevante na Vale.
Negociando a cerca de 8 vezes lucros e com dividend yield de aproximadamente 14%, a ação embute um desconto de cerca de 25% em relação à Vale.
Porém, existem riscos importantes:
- Disputa bilionária com fundos de pensão (até R$ 3 bilhões)
- Possível impacto de R$ 2 a R$ 3 por ação em caso de derrota
- Dupla tributação em JCP via holding
- Descolamento recente do preço das ações em relação ao minério de ferro
A forte valorização recente (cerca de 47% em seis meses) exige cautela para não entrar próximo ao topo.
Sanepar: estatal eficiente que pode surpreender
Por fim, a Sanepar continua sendo vista como empresa sólida para longo prazo.
Destaques:
- Retorno superior a 100% em cinco anos (incluindo dividendos)
- Histórico de margens acima da média do setor
- Endividamento controlado após recebimento de precatórios
- Intenção de disputar concessões fora do Paraná
Contudo, houve compressão relevante na margem EBITDA (de 48% para 30%) devido ao aumento de custos operacionais.
Além disso, parte do lucro recente foi impulsionada por eventos não recorrentes (precatórios), o que exige ajuste na análise.
Uma eventual privatização futura poderia funcionar como gatilho adicional ainda que sem prazo definido.
Small caps ainda têm espaço?
Com o Ibovespa em patamar elevado, encontrar empresas negociando a múltiplos de 5x ou 6x lucros não é comum.
A Marcopolo reúne:
Crescimento consistente
Forte geração de caixa
Dividendos elevados
ROE robusto
Diversificação internacional
Mas também apresenta:
Setor cíclico
Pressão de margens
Dependência de cenário econômico
Para o investidor de longo prazo que busca qualidade com desconto, o papel merece estudo aprofundado — sem euforia e com disciplina no preço de entrada.
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