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Início » Últimas Notícias » O perigo do “116% do CDI”: o que os bancos não contam ao oferecer esse investimento
Dividendos

O perigo do “116% do CDI”: o que os bancos não contam ao oferecer esse investimento

Bancos têm intensificado ofertas de produtos considerados “acima do CDI”, mas análise técnica revela riscos elevados, falta de transparência e armadilhas que podem prejudicar investidores iniciantes.
André CarvalhoPor André Carvalho14 de novembro de 20254 minutos lidos
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Uma oferta de investimento enviada por um grande banco a um cliente reacendeu o debate sobre a transparência na recomendação de produtos financeiros no Brasil. A proposta apresentava um fundo de renda fixa que estaria rendendo 116% do CDI, isento de Imposto de Renda para pessoa física — uma combinação que, à primeira vista, parece irresistível. Porém, uma análise técnica criteriosa revelou que a rentabilidade destacada no contato comercial não representava a realidade do produto e poderia expor o investidor a riscos que ele desconhecia.

A mensagem que despertou a desconfiança

O cliente recebeu a seguinte comunicação do banco:

“Surgiu aqui uma oportunidade bem interessante para sua estratégia. Fundo que rende 116% do CDI, isento para pessoa física, ideal para o cenário atual.”

Para a maioria das pessoas, especialmente quem não tem familiaridade com análise de risco, uma rentabilidade dessa magnitude — ainda mais isenta de imposto — sugere uma chance rara de ganho seguro. Entretanto, quando o investidor consultou uma análise especializada, a recomendação foi clara: não entrar no investimento.

Por que a proposta levantou um alerta?

Especialistas apontam que o primeiro sinal de alerta é a forma como a rentabilidade foi apresentada. O fundo não rende 116% do CDI; ele rendeu 116% do CDI no acumulado parcial de 2025. Ou seja, trata-se de um resultado pontual, não de uma taxa fixa ou mínima.

Se o banco escolhesse outro intervalo, poderia até dizer que o fundo rende 70% do CDI (como ocorreu em um dos meses analisados) ou mais de 200% (como em outro mês isolado). Essa seleção de dados cria uma ilusão de retorno constante.

Outro ponto crítico: o fundo é recente, criado em abril de 2024, e não possui histórico suficiente para comprovar desempenho consistente em ciclos econômicos diferentes. A falta de dados robustos aumenta a incerteza e exige cautela do investidor.

Risco elevado para quem acredita estar em renda fixa “segura”

Apesar de classificado como “renda fixa”, o fundo atua majoritariamente no crédito privado, investindo em debêntures incentivadas. Diferente de um CDB ou LCI/LCA, esses papéis não têm cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).

Isso significa que, se uma empresa emissora enfrentar problemas financeiros, o investidor pode:

  • não receber os juros prometidos,

  • ter o valor investido desvalorizado,

  • ou até perder parte do capital.

Na própria lâmina do fundo, a gestora classifica o risco como médio a alto — informação que raramente aparece no discurso comercial direcionado ao cliente.

Para perfis conservadores, esse tipo de produto pode gerar desequilíbrio na carteira e ameaçar objetivos de curto prazo.

Liquidez e prazo: detalhes que quase ninguém explica

Outro fator ignorado na comunicação inicial é a liquidez: o resgate exige 30 dias corridos, mais um dia útil para o crédito na conta. Ou seja, o dinheiro só volta após cerca de 31 dias.

Para uma reserva de emergência, esse prazo é completamente inviável.

Como bancos e assessores influenciam decisões — e por que isso importa

A oferta destacava apenas o retorno, sem qualquer menção aos riscos. Segundo especialistas, isso é comum no mercado financeiro:

  • Gerentes têm metas agressivas de venda, o que incentiva a oferta de produtos mais rentáveis para o banco, não necessariamente para o cliente.

  • Assessores remunerados por comissão também podem priorizar ativos que pagam mais, gerando conflito de interesse.

O grande problema é que muitos investidores acreditam estar recebendo orientação personalizada, quando na prática estão sendo direcionados para cumprir metas corporativas.

A análise completa do fundo revelou os problemas reais

Ao examinar minuciosamente:

  • a lâmina,

  • o regulamento,

  • a composição da carteira,

  • e o histórico de retornos,

especialistas concluíram que o produto não atendia ao perfil nem à estratégia do cliente, que possui perfil conservador.

Além da volatilidade acima do esperado, o fundo ainda não demonstrou solidez suficiente para justificar sua inclusão em uma carteira que prioriza segurança.

Por que tanta gente cai nessas armadilhas?

Três fatores explicam o fenômeno:

  1. Falta de conhecimento técnico: a maioria não entende o risco dos títulos de crédito privado.

  2. Confiança excessiva no gerente ou assessor: muitos acreditam que o profissional atua de forma integralmente alinhada ao seu interesse.

  3. Foco apenas na rentabilidade: números chamativos ativam gatilhos emocionais e tiram o investidor da análise racional.

Segundo consultores, essa combinação faz com que pessoas coloquem dinheiro em produtos inadequados, sem perceber os riscos reais.

O que o investidor deve observar antes de aceitar qualquer proposta

Especialistas recomendam verificar sempre:

  • Risco do ativo (e não só a rentabilidade).

  • Prazo de resgate e liquidez.

  • Histórico do fundo e ciclo econômico.

  • Objetivo pessoal e prazo do investimento.

  • Classificação da carteira (crédito privado, tesouro, bancário).

  • Taxas cobradas.

E reforçam: se um investimento parece bom demais, é porque provavelmente você ainda não viu os detalhes importantes.

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116% do CDI bancos fundos de crédito privado investimentos renda fixa
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André Carvalho
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André Luís Carvalho é jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), fundador e editor-chefe da A Revista, com mais de dez anos de experiência em jornalismo digital. Coordena a cobertura de ações, dividendos, fundos imobiliários, renda fixa, petróleo, economia e mercados. Na direção editorial, orienta a apuração em documentos primários, a contextualização de riscos e a separação entre fatos, projeções e opiniões. Conteúdos informativos não constituem recomendação individual de investimento.

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