O Banco do Brasil vive um dos momentos mais delicados de sua história recente. Após um 2023 considerado exemplar pelo mercado, os resultados de 2024 mostram uma virada brusca: o lucro do banco despencou 60% no terceiro trimestre, totalizando R$ 3,7 bilhões, em linha com a mesma queda já registrada no segundo trimestre. A magnitude da deterioração, somada ao cenário crítico do agronegócio, colocou investidores em alerta máximo.
Apesar de alguns veículos terem afirmado que o resultado veio “em linha com as expectativas”, analistas e investidores rejeitam essa tese. Para o mercado, ninguém esperava uma reversão tão profunda nos números do Banco do Brasil especialmente após anos de evolução consistente em rentabilidade, eficiência e qualidade da carteira.
Um banco sólido, mas pressionado por fatores externos e internos
Fundado há mais de dois séculos, o Banco do Brasil é uma das instituições financeiras mais antigas e robustas da América Latina. Tradicionalmente reconhecido por sua forte presença no agronegócio setor responsável por parte relevante de sua carteira de crédito o banco agora enfrenta justamente o impacto negativo deste segmento.
O problema não está apenas na desaceleração econômica do agro. Dados recentes mostram uma explosão nas recuperações judiciais do setor. O número de pedidos subiu de 608 para 928 em apenas um ano, evidenciando um ambiente de inadimplência generalizada.
A inadimplência acima de 30 dias saltou de 3% para quase 8%, enquanto a inadimplência acima de 90 dias avançou de 1,7% para 5,34%. É um movimento que pressiona diretamente as provisões que podem chegar a R$ 19 bilhões, segundo estimativas internas.
Além disso, mudanças nas regras de provisionamento exigem que bancos aumentem suas reservas para potenciais calotes, agravando a fotografia do trimestre.
Linha do tempo da crise: como o lucro despencou tão rápido?
1º trimestre de 2024: o primeiro alerta
O resultado veio com queda de 20% no lucro, atingindo R$ 7,4 bilhões, bem abaixo do esperado. À época, investidores se assustaram, mas ainda viam a situação como pontual.
2º trimestre: a “bomba” cai e o mercado entra em pânico
A queda de 60% no lucro surpreendeu negativamente e fez as ações despencarem, com perda de quase R$ 8 bilhões de valor de mercado em um único pregão. Foi o primeiro indicativo claro de que a crise era mais profunda.
3º trimestre: o pior se confirma
O banco repetiu a queda anual de 60% no lucro, consolidando um ciclo de forte deterioração de resultados.
Para analistas, trata-se de uma “tempestade perfeita”:
- crise do agronegócio;
- recorde de recuperações judiciais;
- inadimplência em alta;
- provisões bilionárias;
- interferência estatal pontual;
- Selic ainda elevada, travando expansão econômica.
O contraponto: a crise é só do Banco do Brasil?
A resposta é não. Mas é nele que o impacto é maior.
Enquanto o Banco do Brasil sofre, bancos privados brilharam no mesmo trimestre:
- Itaú: lucro sobe 11%, chegando a quase R$ 12 bilhões.
- Bradesco: salta 18,8% após anos ruins.
- BTG Pactual: lucra R$ 4,54 bilhões, alta expressiva.
- Santander: também opera em ciclo positivo.
- Até o Nubank reportou resultado robusto recentemente.
O contraste evidencia que o BB não está surfando a mesma maré favorável mas também mostra que seu problema está concentrado no agro e na estrutura estatal.
As ações no fundo do poço oportunidade ou armadilha?
No acumulado de seis meses, as ações do Banco do Brasil caem cerca de 10% e podem cair ainda mais após o 3T.
Enquanto isso:
- Bradesco sobe forte no ano, recuperando perdas históricas.
- Itaú avança mais de 44%.
- Santander cresce cerca de 40%.
- Banco do Brasil é o único dos grandes bancos operando no negativo significativo.
Para parte do mercado, o BB pode estar próximo do “fundo do poço”, ponto considerado estratégico para investidores com visão de longo prazo.
Mas há riscos:
- se a inadimplência continuar subindo,
- se o guidance voltar a ser revisado para baixo,
- se houver interferência política em decisões de crédito.
Nesse cenário, muitos analistas recomendam cautela: manter posição, não aumentar por enquanto e aguardar estabilização possivelmente entre um e dois trimestres.
Dividendos: vai reduzir?
Sim, é provável.
Com provisões elevadas e lucros menores, o payout tende a ser impactado.
O BB sempre foi queridinho dos dividendos, mas o ciclo atual não favorece distribuições robustas.
Crise crítica, mas não definitiva
Apesar das quedas, analistas ressaltam que não há risco de solvência ou quebra.
O Banco do Brasil permanece sólido, relevante e fundamental no sistema financeiro nacional.
O problema é conjuntural forte e profundo, mas conjuntural.
O que esperar daqui para frente?
- Cenário ainda ruim nos próximos 1 ou 2 trimestres.
- Alta volatilidade nas ações.
- Riscos concentrados no agronegócio.
- Possível retomada apenas em 2025, caso o agro reaja.
Se o ciclo virar, o banco pode voltar a surpreender positivamente.
Se não virar, o papel pode continuar pressionado.
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