A promessa de gastar menos para trabalhar levou motoristas por aplicativo de Salvador aos carros elétricos. Na prática, porém, a economia depende de uma rotina calculada quase minuto a minuto. Para fugir dos horários mais caros, profissionais acordam de madrugada, enfrentam filas nos eletropostos e transformam o próprio veículo em escritório, refeitório e local de descanso.
Relatos mostram que a eletrificação trouxe redução de custos para parte dos motoristas, mas também criou novos desafios. O principal deles é conciliar a recarga da bateria com uma jornada que pode começar antes das 6h e avançar até a noite.
Um dos profissionais contou que desliga o aplicativo por volta das 21h para procurar um ponto de recarga. Quando não há fila, consegue chegar em casa pouco depois das 22h. Nos dias mais movimentados, o retorno acontece somente às 23h.
No dia seguinte, a rotina recomeça por volta das 5h30.
“Não tenho esse contato direto com a minha família durante a semana”, relatou o motorista ao descrever o impacto dos horários sobre a convivência familiar.
Preço da recarga muda conforme o horário
A escolha da madrugada não acontece por acaso. No eletroposto mostrado pela reportagem, o preço do quilowatt-hora varia ao longo do dia.
Durante o período mais barato, entre a meia-noite e as primeiras horas da manhã, a cobrança informada ficava entre R$ 1,19 e R$ 1,29 por kWh. No horário comercial, o valor chegava a aproximadamente R$ 1,89.
A diferença mais pesada aparece no início da noite. Entre 18h e 20h59, segundo as informações apresentadas no estabelecimento, o preço podia alcançar R$ 4,99 por kWh — quase quatro vezes o valor encontrado durante a madrugada.
Esses preços correspondem ao ponto de recarga apresentado na reportagem e não representam necessariamente todos os eletropostos de Salvador.
Para quem utiliza o carro como fonte de renda e percorre milhares de quilômetros por mês, essa variação interfere diretamente no resultado financeiro. Carregar no momento errado pode consumir uma parcela importante do valor recebido nas corridas.
Economia pode chegar a 60%, segundo motorista
Apesar dos obstáculos, alguns profissionais afirmam que o carro elétrico continua vantajoso. Um dos entrevistados, que percorre entre 15 mil e 20 mil quilômetros por mês, calculou uma redução aproximada de 60% nos gastos relacionados ao abastecimento.
Outro motorista disse gastar entre R$ 60 e R$ 70 para completar a carga de determinado modelo elétrico. A bateria, entretanto, pode não ser suficiente para sustentar um dia inteiro de uso intenso no aplicativo.
Ele relatou trabalhar, em média, de oito a nove horas por dia com o veículo. Dependendo da quantidade de corridas, torna-se necessário interromper a jornada para recarregar.
Nesse intervalo, alguns profissionais almoçam, assistem a vídeos, fazem tarefas pelo tablet ou simplesmente descansam dentro do automóvel. O tempo parado deixa de ser apenas espera e passa a integrar a organização diária do trabalho.
Aluguel pode comprometer a vantagem
A conta fica mais delicada quando o veículo não pertence ao motorista. Segundo os relatos, o aluguel de um carro elétrico pode custar cerca de R$ 1 mil por semana, dependendo do modelo e das condições do contrato.
Somados os gastos com aluguel e recarga, o profissional pode começar o mês pressionado por uma despesa fixa elevada. Para alcançar o faturamento necessário, precisa permanecer mais tempo conectado aos aplicativos e reduzir os dias de descanso.
Um dos entrevistados contou que desistiu do elétrico alugado e retornou a um carro a combustão. Ele afirmou que chegava em casa por volta das 2h e voltava às ruas entre 6h30 e 7h.
“Eu estava esgotado”, resumiu.
Outro motorista, também com veículo alugado, apresentou uma experiência diferente. Para ele, o modelo ainda é vantajoso, desde que haja disciplina financeira e prioridade para o pagamento semanal do automóvel.
Os relatos revelam que não existe uma resposta única. O resultado depende do preço do aluguel, da distância percorrida, do valor da recarga, da disponibilidade de eletropostos e da quantidade de horas trabalhadas.
Falta de crédito mantém motoristas dependentes do aluguel
A dificuldade para financiar um veículo próprio também aparece entre as queixas. Motoristas disseram que restrições cadastrais e exigências bancárias deixam muitos profissionais dependentes das locadoras.
O governo federal criou o programa Move Brasil para facilitar a compra de veículos por taxistas e motoristas de aplicativo. Em agosto, as condições foram ampliadas, com prazo de financiamento de até 84 meses e teto de R$ 200 mil para os veículos elegíveis.
Ainda assim, a liberação do crédito permanece sujeita à análise das instituições financeiras. Isso significa que profissionais endividados ou com histórico de inadimplência podem continuar sem acesso ao financiamento, mesmo quando atendem aos critérios gerais do programa.
Infraestrutura ainda precisa acompanhar a demanda
A chegada constante de carros aos pontos de recarga indica que a frota elétrica está crescendo mais rapidamente do que a infraestrutura disponível em algumas áreas da capital baiana.
Além dos eletropostos públicos e comerciais, os condomínios também enfrentam a necessidade de instalar sistemas adequados. Um dos entrevistados disse ser o único morador de seu prédio com automóvel elétrico e destacou que os edifícios precisarão se adaptar à nova realidade.
A própria Neoenergia mantém projetos voltados à recarga inteligente, com incentivo ao deslocamento do consumo para os horários de menor demanda do sistema elétrico. A estratégia ajuda a explicar por que carregar durante a madrugada pode custar menos.
A expansão da mobilidade elétrica também já aparece no transporte coletivo. Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico mostram que Salvador registrou três novos ônibus elétricos somente no primeiro semestre de 2025.
Economia existe, mas exige planejamento
O carro elétrico pode reduzir despesas com energia e manutenção, especialmente quando o motorista possui o veículo e consegue fazer a recarga em horários mais baratos. Entretanto, a vantagem diminui quando entram na conta aluguel elevado, tarifa de pico, filas e horas sem receber corridas.
Antes de trocar um automóvel a combustão por um elétrico, o profissional precisa calcular não apenas o valor de cada carga, mas também o tempo de espera, a autonomia real durante o trabalho e a disponibilidade de pontos próximos às regiões onde costuma circular.
Em Salvador, a transição já começou. Para muitos motoristas, contudo, dirigir um carro elétrico significa trocar parte do gasto com combustível por uma rotina de planejamento permanente — muitas vezes, no meio da madrugada.
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