As ações preferenciais da Marcopolo, negociadas pelo código POMO4, continuam despertando cautela após se distanciarem do desempenho do Ibovespa. Embora a fabricante apresente elevada rentabilidade, baixo endividamento industrial e capacidade de distribuir dividendos, a desaceleração da receita e a redução dos volumes podem limitar uma recuperação mais consistente do papel.
A cotação estava em aproximadamente R$ 5,97 na atualização mais recente exibida pela página de Relações com Investidores da companhia. Esse patamar fica abaixo de alguns dos preços registrados no início de 2026 e reforça a percepção de perda de força das ações.
O principal receio do mercado não está relacionado a uma deterioração imediata da situação financeira da Marcopolo, mas à possibilidade de os lucros e as margens terem alcançado um nível difícil de superar. Juros elevados, redução da demanda por ônibus rodoviários e menor participação de programas públicos podem pressionar os próximos balanços.
Receita caiu mesmo com avanço do lucro
No primeiro trimestre de 2026, a Marcopolo registrou receita líquida de R$ 1,66 bilhão, queda de 1,3% na comparação com o mesmo período de 2025. A receita obtida no Brasil recuou 3,5%, enquanto as exportações realizadas a partir das fábricas brasileiras diminuíram 9%.
As operações internacionais apresentaram desempenho melhor e alcançaram R$ 596,2 milhões em receita, crescimento de 4,6%. A expansão internacional, especialmente na Austrália, ajudou a compensar parcialmente a fraqueza observada no mercado brasileiro e no México.
| Indicador | 1º trimestre de 2026 | Variação anual |
| Receita líquida | R$ 1,66 bilhão | -1,3% |
| Receita no Brasil | R$ 899,7 milhões | -3,5% |
| Exportações do Brasil | R$ 159,3 milhões | -9,0% |
| Receita no exterior | R$ 596,2 milhões | +4,6% |
| Ebitda | R$ 304,8 milhões | +16,3% |
| Margem Ebitda | 18,4% | +2,8 pontos percentuais |
| Lucro líquido | R$ 264,6 milhões | +8,8% |
| Margem líquida | 16,0% | +1,5 ponto percentual |
| Investimentos | R$ 55 milhões | -18,6% |
Apesar da queda do faturamento, o lucro líquido avançou 8,8%, para R$ 264,6 milhões. O Ebitda cresceu 16,3%, alcançando R$ 304,8 milhões, enquanto a margem Ebitda passou de 15,6% para 18,4%.
Os números parecem positivos, mas parte relevante dessa melhora veio de um efeito extraordinário de R$ 45 milhões relacionado à reversão de provisões na canadense NFI. Sem esse ganho não recorrente, o Ebitda teria sido de R$ 259,8 milhões e a margem ficaria em 15,7%, praticamente estável em relação ao ano anterior.
Esse ajuste é importante para avaliar POMO4 porque mostra que o crescimento operacional recorrente foi mais limitado do que o resultado consolidado inicialmente sugere.
Volumes menores podem pressionar as ações
A Marcopolo produziu 2.997 veículos no primeiro trimestre de 2026, aproximadamente 9% abaixo do registrado um ano antes. A companhia atribuiu o desempenho à sazonalidade do início do ano, à retração das exportações e ao desempenho mais fraco da operação mexicana Polomex.
Segundo análise da XP, a produção no México caiu 80% na comparação anual. A corretora também destacou que os volumes totais ficaram 11% menores, embora o mix de produtos de maior valor agregado tenha ajudado a preservar as margens.
A combinação de receita praticamente estagnada e produção menor pode ampliar a pressão sobre POMO4 caso não haja recuperação nos próximos trimestres. Uma fábrica operando abaixo de sua capacidade tende a enfrentar menor diluição de custos fixos, o que pode reduzir a rentabilidade.
Os principais fatores de risco são:
- permanência dos juros em níveis elevados;
- desaceleração das vendas de ônibus rodoviários;
- menor volume do programa Caminho da Escola;
- fraqueza da operação mexicana;
- inflação de matérias-primas;
- redução das margens após anos de expansão;
- instabilidade econômica e cambial na Argentina.
O Safra considera que a demanda doméstica deve permanecer praticamente estável em 2026. A expectativa é de enfraquecimento do segmento rodoviário, parcialmente compensado por ônibus urbanos, micro-ônibus e veículos destinados ao Ministério da Saúde.
Endividamento industrial permanece controlado
A dívida financeira líquida consolidada chegou a R$ 1,56 bilhão no fim de março. Entretanto, aproximadamente R$ 1,30 bilhão estava relacionado ao Banco Moneo, instituição financeira do grupo que oferece crédito para aquisição de veículos.
Ao considerar somente a atividade industrial, a dívida líquida era de R$ 251 milhões, equivalente a apenas 0,2 vez o Ebitda acumulado em 12 meses. O nível indica que a Marcopolo mantém uma estrutura financeira confortável e possui espaço para investimentos e distribuição de proventos.
O retorno sobre o patrimônio líquido alcançou 32,8%, enquanto o retorno sobre o capital investido ficou em 24,7%. Esses indicadores mostram que, mesmo com a desaceleração da receita, a companhia continua gerando retornos elevados.
Dividendos de POMO4 ainda são atrativos
A Marcopolo distribuiu aproximadamente R$ 0,94 por ação em dividendos e juros sobre capital próprio referentes a 2025. O valor foi superior aos cerca de R$ 0,78 pagos em 2024 e colocou POMO4 entre as maiores pagadoras de dividendos daquele período.
A continuidade desse nível de pagamento, porém, dependerá da geração de caixa e da manutenção dos lucros. Dividendos passados não garantem distribuições futuras, principalmente se a receita permanecer estagnada ou as margens recuarem.
O mercado também deve observar o consumo de caixa. No primeiro trimestre, as atividades operacionais consumiram R$ 47,1 milhões, enquanto o caixa e as aplicações financeiras diminuíram de R$ 2,22 bilhões para R$ 1,83 bilhão. Parte da redução foi explicada por pagamentos e atividades de financiamento.
Bancos ainda enxergam potencial de valorização
Apesar dos riscos, diferentes instituições continuam vendo POMO4 negociada abaixo de seu valor estimado.
| Instituição | Preço-alvo indicado | Avaliação |
| XP | R$ 8,50 | Compra |
| Safra | R$ 9,10 | Compra |
| BTG Pactual | R$ 10,00 | Neutro |
| Itaú BBA | R$ 10,50 | Compra |
A XP reduziu seu preço-alvo de R$ 9,50 para R$ 8,50 após revisar as projeções, mas manteve uma visão positiva para o papel. Já o Safra elevou seu alvo para R$ 9,10 após incorporar melhores perspectivas para as operações internacionais. O BTG mantém preço-alvo de R$ 10, porém com recomendação neutra.
Os preços-alvo representam estimativas dos analistas e não garantem que as ações alcançarão esses valores.
O que pode derrubar POMO4 ainda mais
Uma nova queda das ações pode ocorrer se os resultados mostrarem redução mais acentuada dos volumes, margens recorrentes abaixo do esperado ou menor demanda por ônibus no mercado brasileiro.
O risco também aumenta caso os investidores concluam que o lucro atingiu seu pico e que a companhia terá dificuldade para repetir os dividendos elevados de 2025. Como parte do crescimento do lucro no primeiro trimestre veio de um efeito não recorrente, os próximos balanços serão importantes para mostrar a capacidade real de expansão operacional.
Por outro lado, uma recuperação dos pedidos do Caminho da Escola, entregas ao Ministério da Saúde, expansão das operações internacionais e melhora da demanda por ônibus urbanos podem funcionar como catalisadores positivos.
A Marcopolo encerrou o primeiro trimestre com fundamentos financeiros sólidos, margens elevadas e baixa alavancagem industrial. O desafio para POMO4 será transformar essas vantagens em crescimento recorrente de receita e volume. Sem essa retomada, as ações podem continuar negociando com desconto, mesmo que a companhia mantenha lucros e dividendos relevantes.
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