Conhecido por construir uma das maiores carteiras individuais de ações do Brasil, Luiz Barsi voltou a explicar a estratégia que orientou sua trajetória no mercado financeiro: comprar participações em empresas sólidas, manter os papéis durante muitos anos e reinvestir os dividendos recebidos.
O plano começou a ser desenvolvido quando Barsi analisava alternativas para formar uma renda que não dependesse exclusivamente da previdência tradicional. A partir dessa preocupação, ele passou a estudar como aportes regulares em empresas poderiam gerar uma carteira capaz de pagar rendimentos no futuro.
A pergunta que orientou o projeto era relativamente simples: qual seria o resultado de comprar mil ações mensalmente durante 30 anos?
Com base nessa hipótese, o investidor montou tabelas para acompanhar a quantidade acumulada de papéis, os dividendos distribuídos e o potencial de reinvestimento ao longo do tempo. Esse trabalho ficou conhecido como “Ações Garantem o Futuro” e ajudou a popularizar sua filosofia de formação de patrimônio.
Mais do que buscar uma valorização rápida das cotações, Barsi decidiu construir uma carteira voltada à geração de renda.
A ideia de ser pequeno sócio de grandes empresas
Um dos principais conceitos defendidos pelo investidor é que uma pessoa não precisa criar uma grande companhia para participar dos resultados de um negócio relevante.
Ao comprar uma ação, o investidor se torna proprietário de uma pequena parcela da empresa. Dessa forma, passa a participar dos resultados do negócio e pode receber parte dos lucros distribuídos aos acionistas.
Barsi resume essa visão afirmando que preferiu se tornar um pequeno sócio de grandes empresas a ser o único proprietário de um negócio pequeno e mais vulnerável.
Na prática, sua estratégia procura companhias com atividades consideradas essenciais, capacidade de geração de caixa e histórico de distribuição de dividendos. Setores como energia elétrica, petróleo, bancos, seguros, saneamento, telecomunicações e papel e celulose costumam aparecer nas discussões relacionadas à metodologia.
Entretanto, estar presente em um setor estável não garante automaticamente bons resultados. A empresa também precisa apresentar fundamentos financeiros consistentes, endividamento controlado, capacidade de investir e perspectivas de continuar gerando lucros.
Dividendos aceleram a formação da carteira
O principal motor da estratégia está no reinvestimento dos dividendos.
Nos primeiros anos, o investidor realiza aportes com recursos próprios. À medida que a quantidade de ações aumenta, os dividendos recebidos também podem crescer. Em vez de utilizar o dinheiro para consumo, a proposta é empregar os valores na compra de novos papéis.
As novas ações podem produzir mais dividendos no futuro, permitindo a repetição do processo. Essa dinâmica cria um efeito acumulativo semelhante ao dos juros compostos.
Segundo o relato de Barsi sobre seus estudos, chegou um momento em que a renda gerada pela carteira passou a ajudar no pagamento das próprias compras mensais. Posteriormente, os dividendos teriam se tornado maiores que o valor necessário para manter os aportes previstos no projeto.
Isso não significa, porém, que todos os investidores alcançarão o mesmo resultado ou dentro do mesmo período. O desempenho depende dos preços pagos, da quantidade investida, dos lucros das empresas, da política de dividendos, da inflação e do tempo de permanência na estratégia.
Dividendos também não são garantidos. Uma companhia pode reduzir, suspender ou deixar de distribuir proventos caso seus resultados piorem ou caso precise direcionar mais recursos para investimentos e pagamento de dívidas.
Quedas na Bolsa podem criar oportunidades
Outro ponto destacado por Barsi é a forma de enxergar as quedas do mercado.
Enquanto parte dos investidores vende ações durante períodos de crise, ele costuma avaliar se a queda foi provocada apenas pelo medo generalizado ou por uma deterioração real nos fundamentos da empresa.
Quando uma boa companhia continua lucrativa, mas suas ações ficam mais baratas por causa do pessimismo do mercado, o mesmo aporte mensal permite comprar uma quantidade maior de papéis.
A lógica é semelhante à compra de um produto em promoção. Contudo, uma ação barata não representa necessariamente uma oportunidade. O preço pode ter caído porque a empresa perdeu competitividade, aumentou o endividamento ou passou a enfrentar problemas estruturais.
Por isso, a análise deve considerar balanços, geração de caixa, governança, dívida, perspectivas do setor e capacidade de manutenção dos dividendos.
Investimento precisa superar a inflação pessoal
Durante a entrevista, Barsi também questionou o uso isolado dos índices oficiais de inflação para avaliar a evolução do patrimônio.
Segundo o investidor, cada família enfrenta uma inflação diferente, pois possui hábitos próprios de consumo. Uma pessoa que gasta mais com alimentação, aluguel, medicamentos ou educação pode perceber aumentos superiores à média registrada pelos indicadores gerais.
A reflexão reforça a necessidade de avaliar o ganho real dos investimentos. Não basta observar apenas a rentabilidade nominal. É preciso verificar se o patrimônio cresceu acima da inflação e preservou o poder de compra.
Uma aplicação que rende, por exemplo, 8% em determinado período não representa necessariamente um ganho real de 8%. Caso os custos pessoais tenham aumentado 6%, a evolução efetiva do poder de compra será consideravelmente menor.
Disciplina pesa mais do que movimentos de curto prazo
A trajetória apresentada por Barsi não está baseada na tentativa de prever diariamente as altas e quedas da Bolsa. O método exige regularidade, capacidade de análise e disposição para manter os investimentos por décadas.
A estratégia também pressupõe que os recursos aplicados não sejam necessários para despesas imediatas. Quem pode precisar do dinheiro no curto prazo corre o risco de vender ações durante uma queda e transformar uma desvalorização temporária em prejuízo definitivo.
Antes de investir em renda variável, portanto, é importante manter uma reserva de emergência em aplicações com liquidez e menor oscilação.
Também é necessário evitar a simples reprodução da carteira de investidores conhecidos. Uma ação comprada por Barsi anos atrás pode apresentar atualmente preço, riscos e perspectivas diferentes.
O ponto central de sua filosofia não é copiar empresas específicas, mas entender os negócios, fazer aportes frequentes, buscar preços coerentes e reinvestir os rendimentos.
Comprar mil ações ainda funciona atualmente?
O número de mil ações fazia parte da simulação original desenvolvida por Barsi, mas não deve ser tratado como uma regra universal.
O valor necessário para comprar mil ações muda de acordo com a cotação de cada empresa. Mil papéis de uma companhia negociada a R$ 5 custariam R$ 5 mil, enquanto a mesma quantidade de uma ação cotada a R$ 30 exigiria R$ 30 mil, desconsiderando taxas.
Para a maioria dos investidores, uma abordagem mais realista é definir um valor mensal compatível com a própria renda. A regularidade pode ser mais importante que a quantidade exata de ações adquiridas.
Também é recomendável diversificar a carteira entre empresas e setores, reduzindo a dependência dos resultados de uma única companhia.
A estratégia de Luiz Barsi mostra como pequenas participações em negócios produtivos podem crescer ao longo do tempo. Entretanto, a construção de renda com ações não acontece rapidamente e envolve riscos.
O resultado depende principalmente da qualidade das empresas escolhidas, do preço pago, da disciplina nos aportes e do reinvestimento dos dividendos durante muitos anos.
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