As ações da Petrobras e da PRIO enfrentam uma mudança importante de cenário após o mercado internacional passar a considerar uma possível reabertura do Estreito de Ormuz, rota estratégica responsável pela passagem de uma parcela relevante da oferta mundial de petróleo e gás natural liquefeito.
A perspectiva de redução das tensões entre Estados Unidos e Irã provocou uma forte queda nas cotações internacionais do petróleo nesta segunda-feira, 15 de junho. O Brent, referência utilizada pela Petrobras e por outras produtoras, recuou para a região de US$ 83 por barril depois de superar US$ 100 em diferentes momentos da crise.
A queda da commodity pressionou empresas do setor em diferentes bolsas. No Brasil, PETR4 encerrou o pregão cotada a aproximadamente R$ 41,04, com baixa de 1,72%. PRIO3 sofreu uma correção mais intensa, terminando perto de R$ 57,10, com desvalorização de 6,91%.
O movimento demonstra que o mercado deixou de avaliar apenas os benefícios de um petróleo mais caro e passou a calcular quanto do prêmio geopolítico poderá desaparecer caso o fluxo de navios seja efetivamente normalizado.
Acordo preliminar muda as expectativas do mercado
O principal fator por trás da queda do petróleo foi o anúncio de um entendimento preliminar entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito e restabelecer gradualmente a circulação pelo Estreito de Ormuz.
O mercado reagiu com otimismo, mas o acordo ainda precisa ser formalizado e implementado. Além das negociações políticas, será necessário garantir segurança para petroleiros, embarcações de gás natural e demais navios que utilizam a região.
Por isso, uma reabertura formal não significa necessariamente que todo o volume de petróleo voltará ao mercado de maneira imediata. Empresas de navegação poderão exigir garantias adicionais, enquanto produtores precisarão retomar campos, terminais e estruturas que operaram abaixo da capacidade durante o bloqueio.
O banco Citi passou a trabalhar com uma probabilidade de 60% de normalização dos fluxos até meados ou o fim de julho. A instituição reduziu sua projeção para o Brent, estimando média de US$ 75 no terceiro trimestre e US$ 70 no quarto trimestre de 2026.
Essa revisão indica que parte relevante da valorização recente do petróleo estava relacionada à restrição física da oferta e ao temor de prolongamento do conflito.
Estoques globais ainda representam risco para o petróleo
Apesar da expectativa de reabertura de Ormuz, o mercado ainda precisa acompanhar a situação dos estoques internacionais.
Dados da Agência Internacional de Energia mostram que os estoques globais observados recuaram em aproximadamente 129 milhões de barris em março e outros 117 milhões de barris em abril. Apenas os estoques mantidos em terra diminuíram cerca de 170 milhões de barris em abril.
A redução ocorreu porque países importadores, refinarias e governos utilizaram reservas para compensar a menor circulação de petróleo pelo Oriente Médio. A Agência Internacional de Energia também coordenou uma liberação emergencial de 400 milhões de barris, a maior operação desse tipo realizada pela instituição.
Mesmo que o estreito seja reaberto, parte da produção futura poderá ser utilizada para recompor essas reservas. Esse processo pode limitar uma queda mais intensa do Brent, principalmente se a recuperação dos embarques for mais lenta do que o mercado espera.
O nível agregado dos estoques também não mostra todo o petróleo realmente disponível. Uma parcela está armazenada em reservas estratégicas, outra se encontra em trânsito e determinados volumes são necessários para manter refinarias, oleodutos e terminais funcionando.
PETR4 pode perder parte do impulso provocado pelo Brent
Para a Petrobras, a redução do preço internacional representa uma possível diminuição das receitas obtidas com a produção e a exportação de petróleo.
A companhia possui grande exposição ao pré-sal, onde opera campos de elevada produtividade. Em períodos de Brent mais alto, essa estrutura favorece margens operacionais, geração de caixa e capacidade de pagamento de dividendos.
Uma queda consistente do petróleo para a faixa de US$ 70 reduziria parte desse benefício. No entanto, a Petrobras permanece apoiada em produção elevada, custos competitivos e uma operação integrada, que inclui exploração, refino, transporte e comercialização.
A empresa também tende a ser menos sensível do que produtoras independentes às oscilações diárias do Brent, devido à diversificação de suas atividades.
Outro ponto monitorado pelos investidores é a política de preços dos combustíveis. Caso a queda internacional seja prolongada, poderá surgir espaço para ajustes nos preços praticados pelas refinarias, dependendo também do câmbio e das condições do mercado brasileiro.
PRIO3 apresenta maior sensibilidade ao preço do petróleo
A PRIO possui um perfil diferente. A companhia concentra sua estratégia na aquisição e revitalização de campos maduros, buscando aumentar a produção e reduzir custos operacionais.
Esse modelo permite forte geração de caixa quando o preço do barril permanece elevado. Por outro lado, também torna PRIO3 mais sensível às mudanças nas projeções do Brent, o que ajuda a explicar a queda mais intensa observada após o avanço diplomático.
O mercado acompanha especialmente a evolução da produção da companhia, seus custos de extração, o desempenho dos campos operados e o cronograma de novos projetos.
A expansão produtiva pode compensar parcialmente uma queda do petróleo. Entretanto, quanto menor for o Brent, maior será a atenção dos investidores sobre custos, investimentos e retorno dos projetos em desenvolvimento.
PETR4 ou PRIO3 qual ação fica mais exposta
As duas empresas podem ser beneficiadas por um petróleo estruturalmente elevado, mas apresentam riscos diferentes.
PETR4 combina grande escala produtiva, refino, exportações e histórico de distribuição de dividendos. Em contrapartida, a companhia enfrenta riscos políticos, possíveis interferências na política de preços e decisões de investimento determinadas pelo acionista controlador.
PRIO3 apresenta maior exposição ao crescimento da produção e à eficiência operacional. A empresa pode capturar mais rapidamente uma alta do petróleo, mas também costuma sofrer correções mais acentuadas quando as projeções para a commodity são reduzidas.
No cenário atual, a principal diferença está na sensibilidade ao Brent. Uma normalização rápida de Ormuz e a queda do barril para perto de US$ 70 poderiam pressionar mais intensamente PRIO3. Já uma retomada das tensões ou uma recuperação demorada dos embarques poderia sustentar o petróleo e devolver força às duas ações.
O que o investidor precisa acompanhar agora
O avanço diplomático não encerra todos os riscos. Os próximos pregões devem continuar influenciados por novas informações sobre a assinatura do acordo, a segurança marítima, a retomada dos embarques e a velocidade de recomposição da produção no Golfo Pérsico.
Também será necessário acompanhar os relatórios internacionais de estoques, as projeções para a demanda global e eventuais revisões na produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados.
Para PETR4 e PRIO3, o cenário deixou de ser simplesmente positivo por causa do petróleo caro. O mercado agora precisa descobrir qual será o novo preço de equilíbrio do Brent depois da crise e quanto da valorização das petroleiras brasileiras ainda pode ser sustentada pelos resultados operacionais.
A queda desta segunda-feira mostra que o risco mais imediato mudou. Antes, a preocupação era quanto o petróleo poderia subir com Ormuz fechado. Agora, a dúvida é quanto PETR4 e PRIO3 podem perder caso o mercado conclua que o fornecimento mundial começará a voltar ao normal.
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