O Banco do Brasil atravessa um dos momentos mais sensíveis dos últimos anos do ponto de vista operacional. Após um longo período de lucros elevados e dividendos robustos, o banco passou a conviver com queda expressiva de rentabilidade, aumento generalizado da inadimplência e necessidade de reforço relevante de provisões, fatores que mudaram completamente a leitura de curto e médio prazo para a ação BBAS3.
No terceiro trimestre de 2025, o banco registrou lucro líquido recorrente próximo de R$ 3,8 bilhões, refletindo o impacto direto do custo de crédito mais elevado. A rentabilidade sobre o patrimônio (ROE) caiu para patamares próximos de 8%, muito abaixo do nível acima de 20% observado em ciclos anteriores.
Inadimplência cresce em todos os segmentos e pressiona o resultado
Embora o agronegócio tenha sido o principal vetor de deterioração, os dados mostram que a inadimplência aumentou em todas as carteiras, ampliando o desafio da recuperação.
Pessoa física: inadimplência acima de 90 dias subiu de cerca de 5% para 6%
Pessoa jurídica: avançou de aproximadamente 3,6% para 4%
Agronegócio: saltou de menos de 2% para mais de 5%
Esse movimento levou o custo de crédito a subir de 4,17% para cerca de 5,16% em apenas um ano, pressionando diretamente o lucro.
Provisões sobem quase 80% e drenam bilhões do resultado
Outro dado que chama atenção é o crescimento das despesas com provisões para créditos de liquidação duvidosa, que avançaram de aproximadamente R$ 10 bilhões para R$ 17,9 bilhões, uma alta próxima de 78%.
Na prática, isso significa que cerca de R$ 8 bilhões deixaram de reforçar o lucro líquido e foram direcionados para o caixa como proteção contra perdas futuras. Esse fator explica por que o lucro caiu de forma tão intensa mesmo com uma base operacional ainda robusta.
Falhas na estrutura de garantias ampliaram o impacto da crise
O banco também reconheceu que parte da pressão decorre de escolhas anteriores na estrutura de garantias. Em diversas operações, especialmente no crédito rural, foram utilizadas hipotecas, que possuem execução mais lenta e burocrática.
Em comparação, operações com alienação fiduciária permitem retomada mais rápida do bem em caso de inadimplência. Essa diferença retardou a recuperação de garantias e ampliou o impacto das perdas no resultado.
Dividendos entram em modo conservador
Diante desse cenário, o Banco do Brasil adotou uma postura mais cautelosa na remuneração aos acionistas. A prioridade passou a ser preservação de capital, especialmente considerando exigências regulatórias mais rígidas a partir de 2026.
A política atual indica:
Payout em torno de 30%
Distribuição concentrada em JCP, sujeito a imposto de renda na fonte
Manutenção do calendário tradicional, mas com valores menores por ação
Tabela de dividendos e JCP do BBAS3 (valores recentes)
| Referência | Tipo | Valor por ação (R$) | Pagamento |
|---|---|---|---|
| 4T24 – complementar | Dividendo | 0,14 | março/2025 |
| 4T24 – complementar | JCP | 0,35 | março/2025 |
| 1T25 – antecipado | JCP | 0,15 | março/2025 |
| 1T25 – antecipado | JCP | 0,33 | junho/2025 |
| 2T25 – antecipado | JCP | 0,09 | junho/2025 |
| 3T25 – antecipado | JCP | 0,07 | dezembro/2025 |
| 3T25 – adicional | JCP | 0,05 | dezembro/2025 |
Observação: valores de JCP sofrem desconto de imposto de renda na fonte para pessoa física.
Projeções para 2026 indicam recuperação lenta
Mesmo com expectativa de melhora gradual, o próprio banco sinaliza que o primeiro semestre de 2026 ainda deve ser pressionado. A recuperação mais consistente tende a ocorrer apenas na segunda metade do ano, conforme os efeitos da nova política de crédito e renegociação de dívidas comecem a aparecer.
As projeções atuais apontam:
Lucro estimado em torno de R$ 26 bilhões em 2026
Dividendos por ação próximos de R$ 1,26 no ano, antes de impostos
Dividend yield abaixo de 5%, já considerando o cenário conservador
Valuation segue em debate
Mesmo com queda significativa nas projeções de lucro e dividendos, a ação BBAS3 apresentou recuo relativamente modesto no preço. Isso levanta o debate sobre se o mercado já precificou totalmente o novo patamar de rentabilidade.
Historicamente, o Banco do Brasil já negociou com P/VP abaixo de 0,6 em momentos de estresse, o que mantém o papel no radar de investidores de longo prazo, mas apenas em cenários de desconto mais profundo.
O Banco do Brasil continua sendo uma instituição sólida, mas vive um ciclo operacional desafiador, marcado por inadimplência elevada, provisões pesadas e dividendos mais modestos. Para o investidor, o momento exige paciência, disciplina e foco no preço, já que a recuperação tende a ser gradual e assimétrica ao longo de 2026.
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