O ano de 2025 ficará registrado como um dos períodos mais desafiadores da história recente do Banco do Brasil. Acostumado ao posto de “queridinho dos dividendos” e referência de rentabilidade entre os grandes bancos, o BB viveu um verdadeiro teste de estômago para investidores, misturando choque de realidade operacional, mudanças regulatórias e ruídos políticos que sacudiram o mercado.
Agora, com 2026 no radar, a grande pergunta que ecoa entre analistas e acionistas é direta: o pior já passou ou o banco ainda atravessa um terreno instável?
2025: o ano do tropeço que mudou o humor do mercado
Até o fim de 2024, o Banco do Brasil surfava um ciclo quase perfeito. Dividend yield acima de dois dígitos, payout confortável entre 40% e 45%, lucro recorde e retorno sobre patrimônio (ROE) elevado colocavam a ação entre as mais desejadas da Bolsa.
Esse cenário começou a ruir já no primeiro trimestre de 2025.
Choque no lucro e mudança de regras
A divulgação dos resultados trouxe uma queda superior a 20% no lucro, surpreendendo negativamente o mercado. Dois fatores foram determinantes:
Resolução 4.966 do Banco Central, que mudou a forma de provisionamento para risco de crédito, exigindo reconhecimento mais rápido de perdas;
Explosão da inadimplência no agronegócio, setor historicamente central na carteira do banco.
O impacto foi imediato: provisões dispararam, lucro encolheu e o guidance para o ano entrou em revisão.
Inadimplência no agro e provisões em níveis históricos
Com juros elevados por mais tempo, queda no preço das commodities e produtores pressionados, o crédito rural tornou-se o epicentro da crise. O banco foi obrigado a reforçar provisões em ritmo acelerado, comprimindo resultados ao longo de todo o ano.
Principais efeitos observados em 2025:
Lucros trimestrais na casa de R$ 3,8 bilhões;
ROE próximo de 8,4%, o menor desde 2016;
Revisão do lucro anual para a faixa de R$ 18 a R$ 21 bilhões;
Custo de crédito projetado entre R$ 59 e R$ 62 bilhões.
Dividendos deixam de ser o atrativo imediato
Outro ponto sensível foi a política de dividendos. Para preservar capital e atravessar o ciclo ruim de crédito, o banco reduziu o payout para cerca de 30%.
O que isso significou na prática:
Dividend yield caiu para algo entre 4% e 5% ao ano;
Pagamentos foram concentrados em uma única data no fim de 2025;
Parte do mercado interpretou o movimento como “fim da tese de dividendos”.
Internamente, porém, a leitura é diferente: retenção de lucro hoje para poder pagar mais amanhã.
Ruído político amplia volatilidade
Como se os desafios operacionais não bastassem, 2025 também foi marcado por forte turbulência política. Notícias envolvendo a Lei Magnitsky, sanções internacionais e fake news criaram um ambiente de pânico em determinados momentos.
Embora o banco tenha desmentido qualquer risco estrutural, o efeito psicológico foi intenso, gerando oscilações bruscas nas ações e decisões impulsivas de parte dos investidores.
O que permaneceu sólido apesar da crise
Mesmo no pior momento do ciclo, alguns pilares do Banco do Brasil seguiram intactos:
✔ Margem financeira consistente, na faixa de R$ 25 a R$ 26 bilhões por trimestre
✔ Receita de tarifas próxima de R$ 9 bilhões trimestrais
✔ Carteira de crédito robusta e diversificada
✔ Banco permaneceu lucrativo em todos os trimestres
Ou seja, não houve colapso operacional, mas sim um choque concentrado em provisões e crédito rural.
2026: ano de transição, não de euforia
Para 2026, o consenso entre analistas mais cautelosos é claro: não se trata de um ano mágico, mas de reconstrução.
O que o mercado espera:
Primeiro semestre ainda pressionado por provisões elevadas;
Gradual estabilização da inadimplência no agro;
Possível melhora da margem financeira com efeitos da nova regra contábil;
ROE subindo lentamente;
Espaço futuro para reavaliar dividendos, se o ciclo de crédito melhorar.
A leitura predominante é que 2026 pode marcar o início da virada, ainda distante dos recordes de 2023 e 2024, mas melhor que o fundo do poço de 2025.
E as ações do Banco do Brasil em 2026?
Para investidores de longo prazo, o papel entra em uma fase de calibração:
Quem entrou apenas pelo dividendo alto pode reduzir posição;
Quem entende o ciclo bancário vê oportunidade de montar preço médio;
A volatilidade tende a continuar, mas com menor assimetria negativa.
O banco segue sendo relevante em carteiras previdenciárias, desde que respeitados limites de exposição e horizonte de tempo.
Lições de um ano difícil
O Banco do Brasil saiu de 2025 machucado, mas não derrotado. O ano mostrou que até empresas centenárias enfrentam ciclos duros — e que dividendos não são linha reta.
Para 2026, a tese não é de explosão, mas de sobrevivência bem administrada, com chances reais de recuperação gradual. Quem atravessar esse período com estratégia, caixa e disciplina pode colher frutos mais adiante.
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