A B3 (B3SA3), dona da principal infraestrutura do mercado financeiro brasileiro, começou 2026 com números fortes. A companhia registrou lucro líquido recorrente de R$ 1,5 bilhão no primeiro trimestre, alta de 33,1% em relação ao mesmo período de 2025. A receita também atingiu nível recorde, chegando a R$ 3,2 bilhões, avanço de 20,5% na comparação anual e de 8,5% frente ao quarto trimestre de 2025.
O resultado reforça a capacidade da B3 de gerar caixa mesmo em um ambiente de mudanças no mercado financeiro. Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta uma discussão cada vez mais relevante para investidores: até que ponto seu domínio histórico pode ser preservado com a chegada de novos concorrentes?
A pergunta é importante porque a B3 não é apenas a “Bolsa de Valores”. A companhia atua em negociação, pós-negociação, registro, depósito, dados, tecnologia e soluções para o mercado financeiro. Essa estrutura diversificada explica por que a empresa segue lucrativa, mas também mostra por que diferentes concorrentes tentam avançar em partes específicas do negócio.
Resultado do 1T26 mostra força operacional da B3
O desempenho do primeiro trimestre de 2026 foi impulsionado principalmente pelo aumento da atividade no mercado. Segundo a companhia, as perspectivas de queda dos juros, o fluxo estrangeiro na Bolsa e a maior volatilidade favoreceram as receitas pró-cíclicas, especialmente em derivativos e renda variável. Esse grupo cresceu 23,7% no período.
No segmento de Mercados, a receita chegou a R$ 2,1 bilhões, alta de 20,8% em relação ao primeiro trimestre de 2025. Em derivativos, o volume médio diário negociado foi de 13,2 milhões de contratos, avanço anual de 16,4%. Já na renda variável, o volume financeiro médio diário no mercado à vista alcançou R$ 34,8 bilhões, crescimento de 46% ante o 1T25.
A entrada de capital estrangeiro também teve papel relevante. O fluxo de investidores estrangeiros somou R$ 53,8 bilhões no primeiro trimestre, ajudando a elevar o volume negociado em ações.
Principais números da B3 no 1T26
| Indicador | Resultado no 1T26 | Variação |
|---|---|---|
| Receita total | R$ 3,2 bilhões | +20,5% em 12 meses |
| Lucro líquido recorrente | R$ 1,5 bilhão | +33,1% em 12 meses |
| Lucro recorrente por ação | R$ 0,30 | +38,6% em 12 meses |
| Receita do segmento Mercados | R$ 2,1 bilhões | +20,8% em 12 meses |
| ADTV em renda variável | R$ 34,8 bilhões | +46% em 12 meses |
| ADV em derivativos | 13,2 milhões de contratos | +16,4% em 12 meses |
| JCP distribuído no trimestre | R$ 372,5 milhões | — |
B3 também fechou 2025 com lucro bilionário
Além do resultado mais recente, os números de 2025 ajudam a entender a força da companhia. No ano passado, a B3 registrou lucro líquido recorrente de R$ 5,3 bilhões, crescimento de 10%. O lucro recorrente por ação foi de R$ 1,01, alta de 16% sobre 2024.
A empresa também devolveu R$ 6,3 bilhões aos acionistas em 2025, sendo R$ 3,0 bilhões em juros sobre capital próprio e R$ 3,3 bilhões em recompras de ações. O payout informado foi de 137%, número elevado porque inclui não apenas distribuição de proventos, mas também recompras.
Esse nível de retorno ao acionista é um dos fatores que mantêm B3SA3 no radar de investidores que buscam empresas lucrativas, com geração de caixa e política consistente de remuneração.
Por que a B3 não depende só da Bolsa de ações
Um erro comum é enxergar a B3 apenas como o local onde ações são negociadas. Na prática, a empresa tem diferentes fontes de receita.
Além de renda variável e derivativos, a companhia atua com renda fixa, crédito, registro de ativos, dados, plataformas, soluções analíticas e tecnologia. No primeiro trimestre de 2026, por exemplo, a área de Tecnologia e Plataformas teve receita de R$ 527,6 milhões, alta de 14,8% em relação ao 1T25. Já Soluções Analíticas de Dados, por meio da Trillia, somou R$ 317,5 milhões, avanço de 22,9%.
Essa diversificação reduz a dependência exclusiva do giro de ações na Bolsa e ajuda a explicar por que a companhia conseguiu manter resultados fortes mesmo em anos de maior volatilidade macroeconômica.
Concorrência coloca o monopólio da B3 em debate
Apesar dos bons números, a grande questão para o futuro da B3 é a concorrência. O mercado brasileiro vive uma fase de abertura para novas infraestruturas, incluindo bolsas, plataformas de negociação e registradoras.
Entre os nomes acompanhados pelo mercado estão Base Exchange, A5X, BEE4 e CSD BR. A Base Exchange, ligada ao fundo Mubadala, pretende criar uma nova bolsa de ações à vista no Brasil. Já a BEE4 atua em um nicho voltado a pequenas e médias empresas, com negociação autorizada pela CVM. A CSD BR, por sua vez, já opera como registradora, depositária central e sistema de liquidação, disputando espaços antes mais concentrados na B3.
O ponto central é que a concorrência não precisa “tomar” toda a Bolsa da B3 para afetar a tese de investimento. Basta pressionar determinadas linhas de receita, reduzir poder de precificação ou forçar investimentos maiores em tecnologia e defesa de mercado.
Analistas veem qualidade, mas também limite de valorização
A B3 segue sendo vista como uma empresa de alta qualidade, mas parte do mercado já adota uma postura mais cautelosa com a ação depois da valorização recente.
Em relatório de fevereiro de 2026, o BTG Pactual destacou que B3SA3 havia subido 30% no ano e elevado o preço-alvo de R$ 16 para R$ 18. Mesmo assim, o banco rebaixou a recomendação para neutra, argumentando que, com a ação negociando perto de R$ 17,60 e cerca de 16 vezes o lucro estimado para 2026, o potencial de alta havia ficado mais limitado.
A XP também manteve recomendação neutra em relatório que incorporava o guidance de 2026 da companhia. A casa apontou preço-alvo de R$ 16 por ação e destacou que aguardava sinais mais claros de melhora na atividade do mercado de capitais.
Ou seja, o debate não é se a B3 é uma empresa fraca. Pelo contrário: os resultados mostram uma companhia sólida. A dúvida está no preço da ação, na sustentabilidade do crescimento e no impacto real da concorrência ao longo dos próximos anos.
Guidance de 2026 indica foco em disciplina e remuneração
A B3 divulgou um guidance para 2026 que prevê despesas ajustadas entre R$ 2,4 bilhões e R$ 2,6 bilhões, capex entre R$ 260 milhões e R$ 350 milhões e payout entre 90% e 110% do lucro líquido. A companhia também indicou alavancagem financeira de até 2,2 vezes.
Essas projeções mostram que a empresa pretende seguir combinando investimentos, controle de despesas e forte remuneração aos acionistas. Para o investidor, esse é um ponto positivo, mas que precisa ser acompanhado junto com a evolução da competição e da atividade no mercado financeiro.
O que pode favorecer B3SA3
O cenário positivo para B3SA3 passa por três fatores principais. O primeiro é a retomada do mercado de capitais, com mais ofertas públicas, maior volume negociado em ações e aumento da participação de investidores estrangeiros.
O segundo é a queda dos juros no Brasil. Uma Selic menor tende a tornar a renda variável mais atrativa, favorecendo volumes de negociação, ofertas e maior busca por produtos de mercado.
O terceiro é a capacidade da B3 de crescer em novas frentes, como dados, tecnologia, plataformas, tokenização e duplicatas escriturais. A XP destacou que a companhia busca reduzir a exposição às oscilações da taxa de juros por meio de negócios recorrentes e novas soluções.
O que pode pesar contra a ação
Do lado negativo, a principal ameaça é a compressão de margens causada por concorrentes. Mesmo que a B3 continue dominante, a existência de alternativas pode limitar reajustes de preços e aumentar a necessidade de investimentos.
Outro risco é o cenário macroeconômico. Juros elevados por mais tempo, inflação resistente ou queda no apetite por risco podem reduzir volumes de negociação e frear o mercado de capitais.
Também pesa o valuation. Depois da alta recente, alguns analistas entendem que parte das boas notícias já está refletida no preço de B3SA3, o que reduz a margem de segurança para novas compras.
B3 segue forte, mas a tese ficou mais exigente
A B3 entra em 2026 com resultados fortes, receita recorde no primeiro trimestre e lucro recorrente em expansão. A companhia continua sendo uma das empresas mais relevantes do mercado financeiro brasileiro e mantém alta capacidade de geração de caixa.
No entanto, a tese de investimento em B3SA3 ficou mais exigente. O investidor precisa olhar além do lucro atual e acompanhar três pontos: avanço dos concorrentes, evolução dos volumes negociados e valuation da ação.
A B3 ainda é dominante. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o mercado começa a discutir com mais seriedade se esse domínio continuará tão confortável nos próximos anos.
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