Mesmo em um cenário de maior volatilidade nos mercados globais, algumas ações brasileiras começam a chamar atenção pelo forte desconto em relação ao valor percebido. É o caso da Méliuz (CASH3), que atravessa uma fase de transição profunda em seu modelo de negócios. A empresa voltou ao lucro, apresentou EBITDA positivo após anos de prejuízos recorrentes e passou a adotar uma estratégia agressiva de alocação de caixa em Bitcoin. Ainda assim, o mercado segue cauteloso, mantendo o papel negociado próximo das mínimas dos últimos anos.
CASH3 hoje: cotação pressionada e pouca força compradora
Em 2026, as ações da Méliuz continuam negociadas em patamares considerados deprimidos, mesmo após a melhora significativa dos resultados operacionais. O papel oscila na faixa entre R$ 3,60 e R$ 3,80, acumulando desempenho negativo no ano e apresentando volume financeiro moderado.
O comportamento do preço indica que, apesar da recuperação nos fundamentos, o mercado ainda precifica riscos elevados associados à estratégia adotada pela companhia, principalmente a forte exposição ao Bitcoin e a mudança no foco do negócio.
Empresa muda de rota e assume tese baseada em Bitcoin
A Méliuz deixou de ser apenas uma empresa de cashback e serviços digitais para assumir, de forma explícita, uma estratégia de acumulação de Bitcoin em tesouraria. Segundo a própria companhia, o objetivo é maximizar a quantidade de Bitcoin por ação ao longo do tempo, oferecendo exposição indireta ao ativo para os acionistas.
Essa mudança ocorreu de forma acelerada. No início de 2025, a empresa possuía pouco mais de 40 Bitcoins. Em menos de um ano, esse número saltou para aproximadamente 605 Bitcoins, adquiridos de maneira contínua, independentemente do preço de mercado.
Bitcoin em caixa: números que chamam atenção
| Indicador | Dados aproximados |
|---|---|
| Bitcoin em caixa | ~605 BTC |
| Preço médio de aquisição | ~US$ 103 mil |
| Valor de mercado da empresa | ~US$ 800 milhões |
| Estratégia declarada | Aumentar BTC por ação |
| Impacto no balanço | Alta volatilidade |
Com o Bitcoin oscilando abaixo do preço médio de compra em determinados períodos, a empresa registra perdas não realizadas. Ainda assim, a estratégia não busca timing de mercado, mas sim aumento de posição no longo prazo.
Resultados operacionais mostram virada relevante
Apesar da polêmica envolvendo a estratégia em criptoativos, os números operacionais de 2025 e início de 2026 mostram uma virada clara nos resultados da companhia.
A Méliuz conseguiu:
Registrar receita líquida recorde
Voltar ao lucro líquido após anos de prejuízo
Reverter um EBITDA estruturalmente negativo para positivo
Manter posição de caixa robusta e sem endividamento relevante
Desempenho financeiro recente da Méliuz
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Receita líquida anual | ~R$ 321 milhões |
| Receita trimestral recorde | ~R$ 124 milhões |
| Lucro líquido acumulado | ~R$ 14–15 milhões |
| EBITDA 2024 (9 meses) | ~-R$ 55 milhões |
| EBITDA 2025 | > R$ 50 milhões |
| Dívida líquida | Praticamente zero |
A reversão do EBITDA é um dos pontos mais relevantes da tese, já que a empresa conviveu por anos com margens negativas e dificuldades para gerar caixa operacional.
Custos sob controle, mas margens seguem apertadas
Os custos operacionais cresceram ao longo do período, com avanço de aproximadamente 26% no trimestre, refletindo maior escala de operação. Ainda assim, o total de custos e despesas ficou abaixo da receita líquida, permitindo geração de resultado positivo.
O principal desafio permanece nas margens, que seguem estreitas. A Méliuz precisa manter crescimento de volume e eficiência operacional para sustentar a lucratividade no médio e longo prazo.
Fim de parcerias e impacto limitado na receita
Com a mudança de estratégia, a empresa passou a encerrar parcerias no segmento financeiro. A vertical de serviços financeiros, que já foi considerada estratégica, hoje representa menos de 10% da receita total.
Apesar da queda acentuada dessa linha de negócios, o impacto na receita consolidada é limitado, já que a maior parte do faturamento segue concentrada na operação principal de cashback e marketplace.
Risco jurídico entra no radar em 2026
No início de 2026, a Méliuz comunicou um auto de infração tributário relacionado a créditos de PIS e Cofins de exercícios anteriores. O valor total gira em torno de R$ 30,7 milhões, somando principal, juros e multas.
A empresa afirma que discorda do entendimento e que possui fundamentos jurídicos para contestação. O tema adiciona incerteza ao valuation, mas ainda não representa impacto imediato no caixa.
Ação perto do fundo enquanto o Ibovespa renova máximas
Um dos pontos que mais chamam atenção é o descolamento entre CASH3 e o mercado. Enquanto o Ibovespa opera próximo de máximas históricas, a Méliuz segue negociada perto das mínimas ajustadas dos últimos anos.
Após grupamentos e ajustes societários, o equivalente ao fundo histórico estaria próximo de R$ 2,50, nível testado no fim de 2024. Desde então, o papel tenta reagir, mas ainda sem volume consistente.
CASH3 vale a pena em 2026?
A ação da Méliuz se tornou um ativo de tese assimétrica:
Pontos positivos
Retorno ao lucro
EBITDA positivo e crescente
Caixa robusto e sem dívida
Forte desconto em relação ao histórico
Exposição indireta ao Bitcoin
Riscos
Alta volatilidade do Bitcoin
Margens operacionais estreitas
Incertezas jurídicas
Baixa previsibilidade de dividendos
Pouca força compradora no curto prazo
Para investidores com perfil mais arrojado e horizonte de longo prazo, CASH3 pode representar uma aposta de alto risco e alto potencial. Já para perfis conservadores, o papel segue exigindo cautela.
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