O Banco do Brasil, que no pós-pandemia era comparado aos gigantes privados como Itaú, viu sua trajetória mudar drasticamente após um período de resultados considerados históricos. O banco operava com rentabilidade próxima de 20% de ROE, patamar típico dos bancos mais eficientes do país.
Mas a virada começou em 2023, quando um fator específico passou a pressionar fortemente o balanço: inadimplência no agronegócio.
O BB é líder no crédito rural. Quando o setor começou a sofrer com:
- queda de preços de commodities agrícolas,
- aumento de custos de produção,
- problemas climáticos,
- e endividamento elevado de produtores,
o reflexo veio direto no coração do banco: a carteira de crédito.
O tombo foi grande: lucro caiu dois terços
No terceiro trimestre do período mais crítico, o Banco do Brasil registrou lucro de cerca de R$ 3 bilhões, muito abaixo dos quase R$ 9 bilhões por trimestre que já havia alcançado em fases anteriores.
O principal vilão foi a PDD (Provisão para Devedores Duvidosos).
O que é PDD na prática?
É como um colchão de segurança.
Quando o risco de calote aumenta, o banco é obrigado a separar mais dinheiro para cobrir possíveis perdas. Esse valor:
Sai direto do lucro
Reduz a rentabilidade
Pressiona dividendos
Com o agro em dificuldade, esse colchão ficou enorme e o lucro despencou.
A virada começou com uma medida do governo
O ponto de inflexão foi uma medida provisória que permitiu a renegociação das dívidas do produtor rural por prazos que podem chegar a até 9 anos.
Na superfície, era ajuda ao campo.
Na prática, para o banco, foi uma troca estratégica de riscos.
O que mudou nas garantias?
Antes, muitos empréstimos tinham como garantia:
- safra futura
- maquinário agrícola
Ativos que:
podem perder valor
são difíceis de executar
Com a renegociação, o banco passou a exigir garantias muito mais fortes, como:
Alienação fiduciária da terra (a própria fazenda como garantia)
Isso reduz o risco de perda em caso de calote.
Como isso melhora o lucro do Banco do Brasil?
A melhora vem de dois lados ao mesmo tempo:
Menos despesa com risco
Com garantias melhores, o banco pode reduzir parte da PDD.
Menos provisão = mais lucro contábil.
Mais receita de juros
Muitos contratos estavam sob regra conhecida como “stop accrual”, em que o banco não podia mais registrar juros como receita por causa do risco.
Com a renegociação, esses contratos voltam a ser considerados “saudáveis”. Resultado:
Os juros voltam a entrar na receita
Lucro recebe um duplo impulso
Os números já mostram melhora?
O mercado já projeta um lucro perto de R$ 4 bilhões em trimestres mais recentes, acima dos cerca de R$ 3 bilhões do período mais crítico.
Não é uma recuperação em “V”, mas sim uma curva mais parecida com o símbolo da Nike:
Queda forte
Subida gradual e sustentada
A expectativa é que a carteira de crédito problemática vá sendo substituída por novas operações, com critérios mais rígidos.
Enquanto o crédito sofria, outra área segurou o banco
Um ponto central da tese de recuperação é a força da área de serviços do Banco do Brasil.
Ela inclui:
- gestão de recursos (quase R$ 2 trilhões sob administração)
- cartões
- consórcios
- seguros
- tarifas bancárias
Essa área:
Tem margens altas
Usa pouco capital
É mais previsível
Funciona como uma âncora de estabilidade quando o crédito entra em crise.
E os dividendos do Banco do Brasil?
Aqui o cenário é mais moderado no curto prazo.
O banco reduziu o payout (percentual do lucro distribuído) de cerca de 45% para 30%.
Com lucros ainda pressionados, o retorno estimado gira perto de 6% ao ano, nível considerado:
Honesto
Mas não extraordinário
O grande atrativo está no potencial de crescimento dos dividendos se os lucros voltarem a patamares mais altos nos próximos anos.
O risco que ninguém ignora: política
O Banco do Brasil é controlado pelo governo. E 2026 é ano eleitoral.
Mudanças de governo podem afetar:
- diretoria
- estratégia
- política de dividendos
Esse risco político é um dos principais fatores que fazem parte do debate entre:
Quem vê o pior já para trás
Quem acha a recuperação ainda frágil
Recuperação real ou alívio temporário?
O Banco do Brasil saiu de uma crise severa no crédito rural para um cenário de estabilização, apoiado por:
melhora nas garantias
redução do risco contábil
força da área de serviços
Mas a trajetória de volta aos lucros históricos é lenta, complexa e cheia de variáveis, incluindo economia, agronegócio e política.
Hoje, o banco não é mais a “máquina de lucro” de antes mas também já não parece estar no fundo do poço.
E é exatamente nesse equilíbrio entre risco e recuperação que o mercado está de olho.
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