Em Salvador, correr costuma ser associado às paisagens da Barra, de Ondina, da Boca do Rio e de outros trechos da orla. Mas um corredor baiano decidiu trocar os percursos tradicionais por ruas, avenidas e bairros onde raramente se espera encontrar alguém treinando antes do amanhecer. O resultado foi um movimento que já reúne mais de 600 pessoas e propõe uma maneira diferente de conhecer a capital baiana.

O responsável pela iniciativa é Victor Fish, ultramaratonista e criador da Laranjada, uma comunidade que transformou a corrida de rua em uma experiência de descoberta urbana. Seus trajetos passam pela Avenida Suburbana, BR-324, Pirajá, Sussuarana, Cabula, Narandiba, São Marcos e outras regiões distantes dos cartões-postais mais conhecidos.

O que começou como uma tentativa pessoal de melhorar a saúde se transformou em algo maior: uma proposta de ocupar as ruas, aproximar moradores de diferentes bairros e questionar a ideia de que a prática esportiva depende de morar perto do mar.

Da rotina sedentária aos desafios pelas ruas da capital

A relação de Victor com a corrida começou a ganhar forma durante o período da pandemia. Em 2021, ainda sedentário, ele passou a acompanhar pessoas que exploravam diferentes lugares correndo e começou a considerar a possibilidade de mudar os próprios hábitos.

A corrida se consolidou em sua rotina em 2023, quando encontrou uma maneira de treinar antes dos compromissos familiares. Como precisava estar em casa por volta das 6h para cuidar do filho e organizar as atividades da manhã, passou a sair cada vez mais cedo.

A madrugada virou sua principal companhia. Enquanto boa parte da cidade ainda dormia, ele percorria ruas silenciosas e descobria uma Salvador que normalmente passa despercebida para quem se desloca de carro.

Com o tempo, o interesse deixou de ser apenas melhorar o condicionamento físico. Victor queria conhecer lugares novos, observar o cotidiano dos bairros e transformar cada treino em uma pequena aventura.

Para ele, repetir indefinidamente o mesmo percurso pela orla já não oferecia a experiência que buscava.

A Laranjada nasceu de um apelido e virou movimento

O nome que hoje identifica a comunidade surgiu de maneira inesperada. Durante os primeiros treinos de madrugada, o porteiro do prédio onde Victor morava costumava alertá-lo sobre os riscos de sair tão cedo. As roupas chamativas, especialmente na cor laranja, acabaram rendendo um apelido.

A brincadeira pegou e se tornou parte da identidade do corredor. Com o crescimento de seu público nas redes sociais, outras pessoas começaram a pedir para acompanhá-lo.

Foi assim que surgiu a Laranjada.

Sem exigir uniformes, inscrições em competições ou equipamentos caros, o movimento aposta em encontros coletivos e percursos que nem sempre são revelados antecipadamente.

A dinâmica é simples: Victor informa o local e o horário de saída, e os interessados aparecem para participar. Cada corredor fica responsável por sua própria hidratação e preparação.

Um encontro pode começar às 5h da manhã no Campo Grande e seguir por trajetos diferentes dos circuitos tradicionais.

A comunidade já ultrapassou a marca de 600 participantes, segundo o corredor. Em uma das edições coletivas, cerca de 200 pessoas percorreram quase 20 quilômetros pelas ruas da capital.

Mais do que reunir atletas, os encontros estimulam a descoberta de bairros e criam oportunidades para pessoas com diferentes experiências de corrida compartilharem o mesmo espaço.

O corredor que encontra outra Salvador antes das 6h

A lista de regiões exploradas por Victor impressiona pela diversidade. Itacaranha, Alto do Cabrito, Paripe, Pirajá, Saboeiro, Sussuarana e Pernambués fazem parte de um mapa que não privilegia apenas as áreas turísticas.

Entre os percursos estão trechos próximos à BR-324, à estação Acesso Norte e à Avenida Paralela.

Em uma dessas experiências, ele observou como determinados pontos considerados desertos já apresentam movimentação nas primeiras horas do dia. São trabalhadores caminhando para pontos de ônibus, pessoas a caminho de hospitais e moradores iniciando suas atividades.

Essa percepção mudou sua relação com Salvador.

Ao contrário de quem atravessa rapidamente uma avenida dentro de um veículo, Victor consegue observar as calçadas, os estabelecimentos, a circulação de pedestres e os pequenos detalhes da vida cotidiana.

A experiência também revelou problemas de infraestrutura. Um dos exemplos destacados pelo corredor é o trecho entre a estação Detran e o Shopping Bela Vista, onde a falta de calçadas adequadas dificulta o deslocamento de pedestres.

Você pode gostar

Para ele, discutir corrida de rua também significa discutir o direito de caminhar, a qualidade dos espaços públicos e as condições de circulação nos bairros.

Correr fora da orla também exige planejamento e segurança

Apesar de percorrer lugares pouco frequentados por corredores, Victor não trata suas aventuras como atividades improvisadas.

Antes de escolher um trajeto, analisa as ruas, verifica possíveis pontos de apoio e observa as condições para circulação de pedestres. Em percursos longos, considera a existência de locais para comprar água e alternativas de passagem.

O corredor relata que nunca sofreu uma ocorrência grave de violência durante seus treinos, mas reconhece que isso não elimina os riscos existentes.

A própria BR-324 exige atenção especial, principalmente nos trechos sem calçadas ou acostamento. Nessas situações, ele procura alternativas em ruas próximas para evitar exposição ao tráfego.

Sua experiência individual, entretanto, não significa que qualquer trajeto seja seguro. Para quem pretende começar, são importantes a avaliação das condições da rota, a visibilidade, a iluminação e a escolha de espaços apropriados para pedestres.

A proposta da Laranjada não é incentivar desafios perigosos, mas demonstrar que outros bairros também podem integrar a cultura da corrida, desde que existam condições adequadas.

Corrida de rua cresce e desafia a ideia de esporte para poucos

A trajetória de Victor acompanha uma transformação visível em Salvador: a multiplicação de grupos de treinamento, provas esportivas e comunidades de corredores.

O calendário de 2026 inclui eventos de diferentes distâncias, desde provas de 5 quilômetros até maratonas, atraindo praticantes com variados níveis de experiência.

Esse crescimento também movimenta setores como vestuário, alimentação, turismo esportivo e serviços especializados.

Entretanto, Victor questiona a associação entre a corrida e um estilo de vida necessariamente caro.

Embora existam tênis de alto desempenho, relógios esportivos, assessorias e competições com inscrições pagas, ele defende que a atividade não precisa começar com grandes investimentos.

A prática recreativa pode ser construída gradualmente, com roupas confortáveis, calçados adequados e uma rotina compatível com a condição física de cada pessoa.

O próprio atleta mostra como os objetivos alteram o treinamento. Quando se prepara para uma maratona, costuma percorrer entre 60 e 80 quilômetros por semana. Para uma meia maratona, reduz o volume para aproximadamente 40 a 45 quilômetros. Já na preparação para ultramaratonas, pode chegar a 120 quilômetros semanais ou mais.

Esses volumes refletem a experiência de um corredor de longa distância e não devem ser usados como referência para iniciantes, que precisam aumentar o esforço gradualmente.

Muito além do esporte, um novo olhar sobre Salvador

O aspecto mais interessante da Laranjada talvez esteja fora das estatísticas de quilômetros percorridos.

Ao levar corredores para regiões pouco associadas ao esporte, Victor ajuda a ampliar a visibilidade desses bairros. As ruas deixam de ser apenas caminhos entre a casa e o trabalho e passam a ser espaços de convivência, descoberta e atividade física.

Seu projeto também evidencia uma contradição urbana: enquanto determinados trechos da cidade concentram estruturas para lazer e exercícios, outras regiões ainda enfrentam dificuldades básicas de mobilidade.

Calçadas danificadas, falta de continuidade dos passeios e vias movimentadas sem proteção adequada afetam não apenas atletas, mas milhares de pessoas que caminham diariamente.

Victor acredita que melhorar esses espaços beneficia toda a população e pode incentivar a ocupação das ruas.

A experiência mostra ainda que a valorização dos bairros não depende exclusivamente de grandes intervenções. Às vezes, começa quando um grupo decide conhecer melhor o lugar onde vive.

Em uma cidade frequentemente apresentada pelas praias e pelos cartões-postais, a Laranjada constrói uma narrativa diferente: a Salvador das pessoas que acordam cedo, das avenidas que ligam comunidades e dos bairros que também merecem fazer parte do mapa do lazer.

E é justamente aí que a iniciativa encontra seu maior significado. A corrida pode começar com um par de tênis, mas também pode transformar a maneira como alguém enxerga a própria cidade.